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«Memorial do Convento» no Exame de Português de 12º ano (2012)

Junho 19, 2012

Sugestão de resposta à questão B

 

(número máximo de palavras: 130)

 

Os operários, ignorantes, defeituosos e grosseiros, são os heróis de Memorial do Convento, pois foi a eles, e não ao rei, que se ficou a dever a construção do Convento de Mafra.

            Conquistaram a heroicidade porque D. João V, autoritário e insensível, ordenou que eles fossem brutalmente angariados para apressar as obras de um monumento à sua vaidade, sem respeito pela sua vontade (os homens que fugiam eram duramente castigados pelos quadrilheiros) e pelas suas famílias; permitiu que se aglomerassem em condições sub-humanas na ilha da madeira onde padeciam de fome e doenças; foram obrigados a transportar a pedra Benedictione, na nau da Índia, de Pêro Pinheiro até Mafra, em indescritível agonia, como exemplifica a morte de Francisco Marques.

            Atribuindo  o estatuto de heróis a estes homens, o narrador homenageia-os, resgatando-os do esquecimento.

 

(consultar os capítulos 17, 18, 19 e 21 de Memorial do Convento)

«Os Lusíadas» no Exame Nacional de Português, 2012

Junho 19, 2012

Sugestões de respostas ao questionário do Grupo I

(Canto VI, estrofes 96 – 99)

1. As quatro qualidades, apontadas pelo Poeta como sendo imprescindíveis para a obtenção de «honras imortais» e «graus maiores», ou seja, aceder a importantes e merecidos cargos da hierarquia social, são as seguintes:

- a valentia guerreira manifestada na luta árdua pela Pátria, não hesitando em pôr de lado o prazer de viver em nome de ideais pessoais, patrióticos e cristãos; estes são os que desejam alcançar o reconhecimento social mediante o seu próprio esforço no campo militar, por fidelidade aos princípios que os norteiam e às ordens do seu rei, para manter portuguesas as possessões ultramarinas e assegurar a independência do reino:

«co seu forçoso braço,/ As honras que ele chame próprias suas;/ Vigiando e vestindo o forjado aço, (…)»

- a indiferença ao sofrimento e espírito de sacrifício em condições adversas: «Sofrendo tempestades e ondas cruas,/ Vencendo os torpes frios no regaço/ Do Sul, e regiões de abrigo nuas,/»

- a capacidade de adaptação a condições imprevistas e desumanas com o objetivo de assegurar a respetiva sobrevivência física e a do ideal que perseguem:

«Engolindo o corrupto mantimento/ Temperado com árduo sofrimento»

- uma imperturbabilidade estóica face ao sofrimento dos amigos e companheiros de luta, não por indiferença ao sofrimento dos que, em combate, ficaram privados de uma parte do seu corpo («E leva a perna ou braço ao companheiro»), mas para que o ânimo entre os demais não esmoreça; por esta razão, estes guerreiros mostram-se possuidores de paz interior no meio de grande alvoroço íntimo, evitando desmoralizar os companheiros e manifestando, deste modo, a sua grande coragem:

«E com forçar o rosto, que se enfia,/ A parecer seguro, ledo, inteiro,/ pera o pelouro ardente que assovia/ E leva a perna ou braço ao companheiro

 

2. Nestes versos, o Poeta denuncia os principais vícios da nobreza portuguesa da época após as conquistas ultramarinas, as quais se manifestam através de comportamentos orientados para a obtenção do prazer pessoal e a prática da ociosidade, resultantes do excessivo apego aos títulos nobiliárquicos conquistados, no passado, pelas respetivas famílias, facto que lhes vai servindo de justificação para a inatividade e indiferença perante o desmoronamento do império a que se assiste nesta época.

            A repetição anafórica de «Não» (vv. 5 e 7) e de «Não cos» (vv. 9, 10, 11 e 13», que antecede a enumeração dos vícios da nobreza, coloca em destaque os comportamentos indignos que merecem a reprovação do Poeta pelo facto de contribuírem para arruinar a força anímica que orientou os intrépidos antepassados na expansão portuguesa por outros continentes e por, simultaneamente, contribuírem para dificultar a resposta da nação ao desmoronamento do império que o Poeta, lucidamente, antevê. Esses comportamentos desonrosos manifestam-se na dependência da glória e bom nome obtidos pelas suas famílias, ao longo dos tempos («Não encostados sempre nos antigos/ Troncos nobres de seus antecessores») e que agora serve de desculpa para a inação; na preguiça em que a riqueza proveniente do Oriente os fez cair («Não nos leitos dourados, entre os finos/ Animais de Moscóvia zibelinos;»; para além da ociosidade, estes nobres habituaram-se a uma vida luxuosa e incompatível com a vida rude e recheada de perigos daqueles que engrandeceram a nação («Não cos manjares novos e esquisitos,/ Não cos passeios moles e ouciosos,/ Não cos vários deleites e infinitos,/ Que afeminam os peitos generosos;/ Não cos nunca vencidos apetitos». A moleza, a ganância e a insatisfação dela decorrente («Não cos nunca vencidos apetitos») a indiferença, o hedonismo dos portugueses de agora estão a destruir a nação, a nível moral e físico, que outros ergueram abnegadamente entre privações, sofrimento e toda a espécie de tormentos, em terra e no mar.

 

 

3. O Poeta defende que a fama e a glória não devem ser obtidas em função da posse de bens materiais ou ser fruto de circunstâncias alheias ao esforço pessoal, como aquelas «que a ventura/ Forjou (…)»; pelo contrário, a imortalidade deve ser apenas concedida aos que ganharam «um calo honroso» na luta determinada que travaram contra a sua própria fragilidade humana, tanto mental como física e contra a tentação de desistirem da empresa em que se lançaram.

 

 

4. A mitificação do herói decorre da sua heroicidade manifestada na exemplaridade da sua conduta que o transforma num modelo a imitar; assim, o herói, tal como Vasco da Gama, não procura nem riquezas nem honras como a maioria das pessoas e, por esse facto, persegue o seu ideal, permanece fiel aos seus valores morais custe o que custar («Este, onde tiver força o regimento/ Direito e não de afeitos ocupado») e mantém-se impassível face às lutas que deslumbram os demais, como se vivesse num plano de existência superior, conquistado pela prática constante da virtude: «Fica vendo, como de alto assento,/ O baxo trato humano embaraçado/».

            Será este, o homem que dedicou a vida à prática da «virtude justa e dura» que será digno de ascender a um plano divino como recompensa do exemplo de ousadia, fé, generosidade e isenção moral que deixou aos seus contemporâneos e vindouros, passando, deste modo, a herói mítico nacional, não por desejo de glória ou vaidade («Subirá (como deve) a ilustre mando,/ Contra vontade sua, e  não rogando.»), mas porque Deus assim quis distingui-lo entre os homens, concedendo-lhe o prémio da divinização.

 

Notas sobre o amor sensual em Os Lusíadas

Abril 22, 2012

A importância atribuída por Camões n’Os Lusíadas ao amor sensual, poderá  deixar alguns leitores surpreendidos, não só pelo facto de a epopeia ter sido publicada numa época histórica em que o Tribunal do Santo Ofício censurava os escritos nos quais o respetivo autor pensasse pela sua própria cabeça e essa manifestação de liberdade individual atentasse contra os preceitos estabelecidos pela aliança entre o Estado e a Igreja Católica, mas também quando a desculpabilização do poder que os sentidos exercem sobre o ser humano acontece em circunstâncias inesperadas.

Isso acontece nos versos em que Camões desculpa a paixão do rei D. Fernando (1345-1383), filho do rei D. Pedro, por Leonor Teles, mulher casada e com quem o rei insistiu em casar-se apesar disso, em 1372, fazendo oscilar, em nome da vontade individual, a obediência à Igreja Católica, a dignidade pessoal, o compromisso antes estabelecido com Henrique II de Castela de se casar com  sua filha D. Leonor (isto já depois de D. Fernando ter anulado um compromisso de casamento anterior),  a relação pacífica com o povo português e, finalmente, fazer  perigar a independência do reino, visto que o casamento com Leonor Teles não foi aceite pelo povo; mais tarde, Henrique II de Castela, que tinha perdoado a D. Fernando a rejeição por parte deste da sua filha, decide invadir Portugal em 1373 quando D. Fernando decide apoiar o duque de Lencastre, um inglês pretendente ao trono de Castela, em vez de apoiar o pretendente castelhano – Henrique II.

«(…)

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente,

Que hum fraco Rei faz fraca a forte gente»   (III, 138)

No Canto III, e no que respeita a D. Fernando, o narrador (neste momento é Vasco da Gama) termina a estrofe 138 chamando «fraco» ao rei e menciona o efeito negativo que a fraqueza real produz no povo que governa, sugerindo, assim, que exemplos para uma boa conduta popular devem vir de cima e propagar-se em baixo, nas camadas populares, pois elas são precisas para garantir a estabilidade política e social necessária ao progresso e expansão do reino. Ora, esta realidade desejável é posta em causa quando os reis são indisciplinados no cumprimento do dever de guiar o povo, ao quebrarem as regras orientadoras da sociedade, em nome da liberdade pessoal, quando esta se mostra desonrosa para o próprio e para a nação na medida que a liberdade do mais alto governante da nação prende os súbditos a um destino incerto que não desejaram.

Por estas razões, tem todo o cabimento a crítica que Camões põe na boca de  Vasco da Gama, mas a desculpabilização que se lhe segue parece contradizer a defesa constante, que lemos n’ Os Lusíadas, daqueles que agiram movidos por um patriotismo exemplar na defesa de Portugal; estes são «os fortes Lusitanos» (I, 50) prontos a fazer tudo para assegurar a expansão portuguesa, matar e destruir, inclusive: «Não se contenta a gente Portuguesa,/ Mas seguindo a vitória estrui e mata;/ A povoação sem muro, e sem defesa,/ Esbombardeia, acende e desbarata.» (I, 90); quando Vasco da Gama chega a Melinde e o rei melindano mostra vontade de o ver, Vasco da Gama não sai da embarcação por ordem do rei D. Manuel, e este exemplo de obediência firme em terras tão longínquas da pátria causa espanto e admiração no rei de Melinde; Vasco da Gama justifica-se perante o rei, dizendo-lhe:

«E porque é de vassalos o exercício,

Que os membros tem, regido da cabeça,

Não quererás, pois tens de Rei o ofício,

Que ninguém a seu Rei desobedeça.

(…)»                                                                 (II, 84)

D. Fernando não agiu racionalmente, ainda que não apenas ele visto que o mesmo se poderia dizer de D. Afonso IV quando ordenou a morte de Inês de Castro; no entanto, estes são casos diferentes porque Afonso IV agiu irracionalmente por ter sido mal aconselhado no que respeita ao perigo que Inês poderia apresentar para Portugal enquanto que D. Fernando agiu irracionalmente à margem de preocupações patrióticas; e é a  valorização destas últimas que leva certamente Camões a mostrar tanto desprezo pelos povos conquistados quando não obedecem à vontade do rei de Portugal (representante da Razão e de Deus) ou se desviam dos planos para eles traçados, isto é, os Mouros não têm direito a vontades, nem à de lutarem pela terra em que nasceram e que é, por direito, sua, nem à de terem crenças religiosas diferentes:

«(…)

Qualquer então consigo cuida e nota

Na gente e na maneira desusada;

E como os que na errada Seita creram,

Tanto por todo o mundo se estenderam.»   (I, 57)

Na estrofe 139 do Canto III, Vasco da Gama hesita entre duas explicações para o «muito aperto» (I, 138) que o reino correu devido à vontade de D. Fernando de viver um amor sensual com a formosa Leonor Teles: ou isso aconteceu porque D. Fernando ao cometer o «pecado/ de tirar Lianor a seu marido/ E casar-se co ela, de enlevado/ Num falso parecer mal entendido;», provocou a ira divina; ou então, o rei, tendo nascido com uma personalidade fraca, se deixou enfraquecer ainda mais devido ao poder que sobre ele teve o apelo dos sentidos, isto é, «Ao vício vil, de quem se viu rendido» e consequentemente a sua vontade de ser um rei exemplar enfraqueceu e então, cedendo à sensualidade, «Mole se fez e fraco».

A lição parece ser esta: a cedência ao amor sensual é destrutiva, não apenas para aquele que lhe cede como também para aqueles que a ele estão ligados e nos quais se repercute como se de uma maldição se tratasse.

No entanto, na estrofe 142, Camões muda de tom e interroga-se sobre se estará nas mãos dos homens conseguirem o autocontrolo necessário para se libertarem da atração que sobre eles exercem as mulheres sedutoras que casualmente com eles se cruzam ao longo da vida e emprega uma série de metáforas sugestivas da beleza feminina: «Entre as rosas e a neve humana pura/ O ouro e o alabastro transparente»; são estas as armas do amor sensual que arrastam para condutas impensadas os homens e Camões, ao interrogar-se (e interroga também o leitor) sobre as limitações que os sentidos impõem ao homem, conclui que é difícil calar as exigências dos sentidos quando despertados pela beleza de um corpo que se deseja possuir, mesmo tendo consciência de que o preço a pagar por esse desvio ao «amor sublime» será, para o Poeta, a tortura interior que ele revela na poesia lírica e, para D. Fernando, guerras sucessivas e o desprezo do povo, sobretudo por aquela por cuja beleza e sensualidade se apaixonou e que ficou para a História como a «aleivosa».

Porém, estando ou não consciente dos danos que o caminho da sensualidade inflige a quem o segue, a questão não apresenta uma solução fácil porque o ser humano é, antes de qualquer outra coisa, matéria, carne que clama por alimento que a satisfaça e, por mais que o homem deseje calar-lhe a força, esta mantém-se ativa e condiciona secretamente a vida dos indivíduos que, por uma questão de imposição que nasce fora deles, se veem divididos entre dar resposta imediata a esse apelo natural ou obedecer aos cânones socialmente estabelecidos; talvez porque tivesse vivido um drama idêntico na sua vida, Camões, apesar de condenar a insensatez real, não pôde passar ao lado dessa força quase invencível que se terá abatido também sobre si próprio e por isso leva os leitores a refletir sobre um drama humano vivido marginalmente ao amor à pátria, à família e ao “dever” e que a estes se sobrepõe:

«(…)

Quem, de hua peregrina fermosura,

De hum vulto de Medusa propriamente,

Que o coração converte que tem preso,

Em pedra, não, mas em desejo aceso?    (III, 142)

Na Crónica de D. Fernando de Fernão Lopes (1380? – 1460), (Chronica de el Rey D. Fernando, versão digitalizada da Biblioteca Nacional Digital) o rei é apresentado como tendo várias qualidades:

«(…) mancebo valente, ledo e namorado, amador de mulheres e achegador a ellas. Havia bem composto corpo e de razoada altura; formoso em parecer e muito vistoso; (…) Amava a justiça e era prestador e grado muito liberal a todos, e grande agasalhador de estrangeiros. (…) Amou muito seu povo, e trabalhava de o bem reger (…)

            Desfalleceu isto quando começou a guerra e nasceu outro mundo novo muito contrario ao primeiro, passados os folgados anos do tempo que reinou seu pae; (…) Este rei D. Fernando começou de reinar o mais rico rei que em Portugal foi até ao seu tempo, cá elle achou grandes tesouros que seu pae |D. Pedro| e avós guardaram (…

Mais tarde, já depois de ter aceitado casar-se com D. Leonor, filha de Henrique II de Castela, conheceu Leonor Teles e assim começaram outros problemas, tal como conta Fernão Lopes:

«|D. Leonor Telles| mulher que foi de João Lourenço da Cunha (…) e por afeição mui continuada veiu nascer n’elle tal desejo de a haver por mulher que determinou em sua vontade casar com ella, cousa que até aquelle tempo similhante não fôra vista. Que cumpre de dizer mais sobre isto, proposto d’haver dispensação para casarem ambos, eram os jogos e falas entre eles tão a miude, misturados com beijos e abraços e outros desenfadamentos de similhante preço, que fazia a alguém ter deshonesta suspeita de sua virgindade ser por elle minguada. (…)

 

Estando el-rei D. Fernando em Lisboa, aconteceu de vir a sua côrte, da terra da Beira onde então estava, D. Leonor Telles, mulher de João Lourenço da Cunha (…) El-rei D. Fernando (…) quando viu D. Leonor (…) louçã e aposta e de bom corpo, pero que a d’antes houvesse bem conhecida (…) d’esta se começou de enamorar maravilhosamente, e ferido assim do amor d’ella, em que seu coração de todo era posto, de dia em dia se acrescentava mais sua chaga , não descobrindo porém a nenhuma pessoa esta bemquerença tão grande que em seu coração novamente morava

O marido de Leonor Telles, de quem esta tinha um filho, quis que ela voltasse para casa, mas o rei opôs-se e viu-se na necessidade de contar o que sentia à sua irmã, D. Maria, porque precisava de aliados para arranjar uma estratégia que impedisse Leonor Teles de regressar a casa do marido; então, pediu à irmã que o ajudasse a tornar credível a mentira que já tinha planeado:

«|D. Maria|  azasse de guisa como D. Leonor não partisse d’ali, fingindo-se ser ella muito doente (…) e falando claramente com D. Maria, disse que sua vontade era de a haver antes por mulher que quantas filhas de reis no mundo havia. (…)»

O rei inventa uma história para afastar o marido de Leonor Teles e depois deste ter partido para Castela «por segurança de sua vida», Fernão Lopes esforça-se para que o nome do rei não fique manchado por excessiva cupidez:

«E certifica-se que antes que el-rei dormisse com ella primeiro a recebeu por mulher, prezente a sua irmã e outros, que esta couza traziam calada. (…)»

Quando constou em Lisboa que o rei queria para mulher Leonor Teles, mulher casada e mãe, o povo reuniu-se e elegeu um representante que foi falar com o rei, mas este mentiu-lhe ao dizer-lhe que não tinha casado:

«Que eles eram ali vindos porquanto lhes era dito que el-rei seu senhor tomava por sua mulher Leonor Telles, mulher de João Lourenço da Cunha, seu vassalo e, porquanto isto não era sua honra, mas antes fazia grão nojo a Deus e a seus fidalgos e a todo o povo (…) nem elle não havia por lhe ter isto a mal ca não queriam perder um tão bom rei como elle por uma má mulher que o tinha enfeitiçado.» e el-rei lhes fez responder:

«(…) que no caso entendia que faziam como bons e leaes portuguezes, amadores de sua honra; e que ella não era sua mulher recebida (…)»

Na lírica camoniana, o conflito entre o amor de feição neoplatónica e o amor sensual é causador de intenso sofrimento interior; talvez essa experiência de se sentir culpado por querer dar resposta ao desejo físico explique a desculpabilização da atitude indigna e nada patriótica de D. Fernando, mas também leva o leitor a pensar na modernidade do pensamento de Camões pelo facto de valorizar o direito do indivíduo a fazer opções de vida que entram em conflito com o interesse das massas, mal ou bem representadas pelas leis políticas e religiosas vigentes na época histórica em que nasceram e que lhes impõem condutas que raramente são postas em causa porque se destinam a ser obedecidas sem contestação. Neste contexto, não é a pessoa do rei em si mesmo que é defendida, mas o direito individual de cada um ser livre de encontrar a plenitude amorosa, por um lado, e, por outro, põe em causa a conceção do amor como sentimento válido apenas se espiritualizado, o amor que subalterniza o corpo e que vê apenas na alma a sua genuína realização.

E acho curioso que Fernão Lopes elogie a beleza física de Leonor Teles no retrato que dela apresenta na sua crónica porque poderia não o ter feito sem por isso deixar de falar nela e na importância que teve para D. Fernando; ora, não encontro nas transcrições de excertos da crónica, uma visão neutra de Leonor Teles que é «louçã e aposta e de bom corpo» e talvez essa ausência de neutralidade se destinasse a proteger a memória de D. Fernando, de certo modo vítima de um amor fatal.

A valorização do amor sensual não está presente apenas nas estrofes anteriormente referidas: no Canto II, Vénus aparece diante do pai, Júpiter, depois da cilada preparada pelos Mouros que desviam as naus portuguesas para Quíloa onde seriam destruídas:

«Pera lá se inclinava a leda frota.

Mas a Deusa em Cítere celebrada,

Vendo como deixava a certa rota,

Por ir buscar a morte não cuidada,

Não consente que em terra tão remota

Se perca a gente dela tanto amada.

E com ventos contrairos a desvia,

Donde o Piloto falso a leva e guia.»    (I, 100)

Vénus procura a ajuda do pai, Júpiter, para que o povo cujos intentos ela defende, consiga chegar à Índia; mas que o faça seminua e propositadamente sensual é que é estranho, se atendermos a que se trata de um encontro entre pai e filha:

«E por mais namorar o soberano

Padre, de quem foi sempre amada e cara,

Se lhe apresenta assi como ao Troiano,

Na selva Ideia já se apresentara.

(…)

Os crespos fios d’ouro se esparziam

Pelo colo, que a neve escurecia;

Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,

Com quem Amor brincava e não se via.

Da alva petrina flamas lhe saíam,                        (petrina = peito, pescoço)

Onde o minino as almas acendia.

Polas lisas colunas lhe trepavam

Desejos que como hera se enrolavam.»  (II, 35, 36)

Poder-se-á argumentar que os deuses do Olimpo são amorais, mas sejam-no ou não, a mim parece-me que Camões retrata em Vénus uma mulher real que decerto teria gostado de apreciar, caso o pudesse ter feito e isso mostra até que ponto a sensualidade deve ter sido importante no seu universo íntimo. De qualquer modo, Vénus apresenta-se ao patriarca Júpiter para obter proteção para os Lusitanos em troca da figura sedutora com que o deslumbra e a descrição da beleza sensual da deusa não acaba nesta estrofe; de facto, os versos que não deixam dúvidas no leitor quanto ao poder arrebatador da deusa veem a seguir:

«Cum delgado cendal as partes cobre

De quem vergonha é natural reparo;

Porém nem tudo esconde nem descobre

O véu, dos roxos lírios pouco avaro;

Mas pera que o desejo acenda e dobre,

Lhe põem diante aquele objecto raro.

Já se sentem no Céu, por toda a parte,

Ciúmes em Vulcano, Amor em Marte.»   (II, 37)

Vénus não se limita a arranjar-se de maneira sedutora, ela vai mais longe ao criar uma espécie de jogo erótico com Júpiter: «nem tudo esconde nem descobre/ O véu, dos roxos lírios pouco avaro»; Camões, talvez para que a descrição não fosse exageradamente realista, coloca um pudico «cendal» a cobrir «as partes» mas este deixa ver mais do que esconde, está lá para acender não só o ânimo de Júpiter, mas também, certamente, o dos leitores.

Quanto aos leitores, nada posso afirmar, mas quanto à impressão que a bela Vénus provocou no pai, posso, com certeza, até porque o Poeta não a esconde e dificilmente poderia ser mais explícito:

«E destas brandas mostras comovido,

Que moveram de hum Tigre o peito duro,

Co vulto alegre, qual o Céu subido,

Torna sereno e claro o ar escuro.

As lágrimas lhe alimpa e, acendido,

Na face a beija e abraça o colo puro;

De modo que dali, se só se achara,

Outro novo Cupido se gerara.»                (II, 42)

Os amores de D. Fernando foram compreendidos e este foi um rei que pôs em sério risco a independência nacional; já o retrato que Camões apresenta de Afonso de Albuquerque, no Canto X, não é tão simpático, embora Afonso de Albuquerque tenha sido encarregue de uma missão bem difícil de cumprir e, pelo que pude apurar, não deve ter tido tempo suficiente para apreciar as mulheres nas regiões da Índia que governou ao longo de dez anos e onde virá a morrer em 1515, aos 63 anos.

O livro intitulado Commentarios do Grande Affonso dAlboquerque capitão geral que foi das Indias Orientais em tempo do muy poderoso Rey D. Manoel o primeiro deste nome, Lisboa, 1774, (disponível numa versão digitalizada a Biblioteca Nacional Digital) foi escrito no século dezoito e, se não me engano, dedicado ao Marquês de Pombal, com o intuito de relatar os momentos de glória e de derrota, de esperança e deceções que passou na Índia «o grande Affonso dAlboquerque». Claro que Camões não pode ter lido este livro, mas leu possivelmente outros que o levaram a atribuir a Afonso de Albuquerque um lugar de honra entre os heróis que imortaliza e assim a ninfa que no Canto X profetiza as vitórias portuguesas, menciona Afonso de Albuquerque em termos elogiosos em cinco estrofes (X, 40-45) que salientam a grandeza das conquistas por ele concebidas e comandadas que deram três novos reinos no oriente a Portugal; enviado para a Índia pelo rei D. Manuel para substituir o vice-rei após três anos de mandato, Afonso de Albuquerque viveu situações muito penosas até ao dia em que a ordem dada pelo rei se concretizou porque o vice-rei da Índia que tinha sido nomeado por três anos não queria abdicar do poder que tinha, e situações ainda piores sempre que teve de enfrentar o Samorim de Calecut e criar condições propícias para que as especiarias chegassem a Portugal.

A leitura dos Commentarios permite conhecer as enormes dificuldades que os portugueses enfrentaram na Índia e também que o rei D. Manuel nem sempre terá agido de modo justo com Afonso de Albuquerque devido às intrigas que os seus conselheiros foram urdindo contra o governador. Portanto, Afonso de Albuquerque não só teve que lutar contra os povos indianos que não aceitavam a presença portuguesa, como também contra os próprios portugueses: os que para lá foram e lhe invejavam o sucesso militar e a capacidade diplomática junto dos Mouros e os que cá permaneceram e tudo fizeram para denegrir a sua imagem.

Como ele próprio tinha decidido que os seus restos mortais viessem para Portugal, os amigos tentaram que assim fosse feito; porém, os nativos da região não deixaram que isso acontecesse, tal era a consideração e amizade que tinham por ele; posteriormente, foi D. Manuel a opor-se a essa última viagem porque achava que enquanto os ossos de Afonso de Albuquerque estivessem na Índia, o povo andaria sossegado. Creio que foi só no reinado de D. Sebastião que os seus restos mortais foram trazidos, finalmente, para Portugal.

Camões elogia, pela boca de uma ninfa, as virtudes militares de Afonso de Albuquerque e a aquisição dos reinos de Goa, Ormuz e Malaca em cinco estrofes, mas critica-o noutras cinco por uma razão que me parece injustificada, atendendo ao grande homem que ele foi; a razão dessa crítica tem origem no facto de Afonso de Albuquerque ter punido com a morte um soldado que, desobedecendo às ordens que lhe foram dadas, passou a noite com uma escrava indígena; por esta razão, a ninfa foi obrigada a calar os elogios e a passar às reprimendas:

«Mais estanças cantara esta Sirena

Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,

Mas alembrou-lhe hua ira que o condena,

Posto que a fama sua o mundo cerque.

O grande Capitão, que o Fado ordena

Que com trabalhos glória eterna merque,

Mais há-de ser hum brando companheiro

Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.

 

Mas em tempo que fomes e asperezas,

Doenças, frechas e trovões ardentes,

A sazão e o lugar fazem cruezas

Nos soldados a tudo obedientes,

Parece de selváticas brutezas,

De peitos inumanos e insolentes,

Dar extremo suplício, pela culpa

Que a fraca humanidade e Amor desculpa.»     (X, 45, 46)

 

É claro que ninguém em seu perfeito juízo concordará que se mande matar um soldado só porque não resistiu ao desejo próprio da «fraca humanidade», mas se Camões tivesse lido os capítulos da história de Afonso de Albuquerque na Índia em que ele, por mandado de D. Manuel (com o qual concordou plenamente), pôs fogo e destruiu Calecut inteira para assim vingar a Coroa portuguesa das afrontas do Samorim ou se tivesse conhecimento de que Afonso de Albuquerque mandou que aos Mouros que eram encontrados a espiar os movimentos dos soldados portugueses (o que estes faziam também aos outros) lhes fossem cortadas as mãos, depois os narizes seguidos das orelhas e por fim atirados para um areal, que recriminações não lhe faria nas suas estrofes?

Mais uma vez, a questão essencial é a da pressão que o amor sensual exerce sobre os homens que, «fracos» na carne, não conseguem resistir-lhe mesmo quando procuram uma tábua de salvação nas virtudes espirituais e cedem, podendo essa cedência levá-los a trair a pátria e a religião que dizem professar ou a desobedecer a ordens militares; no entanto há diferenças a registar entre os «fracos» sobretudo porque as suas responsabilidades são muito diferentes e as consequências das respetivas irracionalidades muito diferentes também; e, apesar de compreender Camões no que respeita à defesa da busca pessoal de satisfação na Terra (e isto não anula a crença que o Poeta possa ter tido na felicidade proporcionada após a morte aos que a merecerem), e de compreender a defesa do amor como força motriz do ser humano, parece-me que é demasiado duro com Afonso de Albuquerque e talvez demasiado condescendente com D. Fernando.

O amor sensual está também presente na «Insula Divina» que Vénus manda preparar para acolher os nautas na viagem de regresso, proporcionando-lhes um verdadeiro festim para os sentidos; a sensualidade está na “decoração” da própria ilha e sobretudo nas ninfas treinadas por Vénus para seduzir os nautas e assim os compensar, através do prazer dos sentidos, das inúmeras atribulações vividas no decurso da longa viagem de Lisboa até Calecut e premiar a sua coragem, espírito aventureiro e capacidade de sacrifício em nome de um povo e seus governantes.

«Oh! Que famintos beijos na floresta,

E que mimoso choro que soava!

Que afagos tão suaves, que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!

O que mais passam na manhã e na sesta,

Que Vénus com prazeres inflamava,

Milhor é esprimentá-lo que julgá-lo;

Mas julgue-o quem não pode esprimentá-lo.»     (IX, 83)

A possibilidade de viver em liberdade e sem sentimentos de culpa o prazer que o contacto físico proporciona aos que o desejam, teria sido, certamente, um grande e merecido prémio para estes homens que viajavam de regresso a Lisboa, cidade infestada de padres inquisidores e hipócritas que perseguiam aqueles que sentiam prazer em estar vivos e para os quais a vida terrena não tinha que ser um vale de lágrimas todos os dias.

Talvez porque a realidade social que esperava estes homens fosse tão diferente desta, Camões tivesse criado este paraíso como que a dizer-nos que se ele não está ao alcance das nossas mãos, presas às muitas imposições sociais e religiosas, está, pelo menos, ao alcance da imaginação de cada um e esse é território inalcançável por qualquer poder instituído.

D. Sebastião n’Os Lusíadas

Abril 15, 2012

No  início da Dedicatória, Camões, dirigindo-se ao rei, chama-lhe «bem nascida segurança» porque vê nele a garantia da independência  nacional e da preservação da religião cristã no reino de Portugal, ameaçado pelo «torpe Ismaelita cavaleiro», pelo «Turco Oriental» e pelo «Gentio/ que inda bebe o licor do santo Rio» (I, 8).

O poeta, ao  pedir ao rei que se digne olhar para o «chão», metáfora da sua própria condição social de fidalgo pobre, desprotegido e às voltas com o «desconcerto» pessoal e do mundo que parece tê-lo como alvo preferido, como revelam estas estrofes nas quais resume a vida de tristes e dececionantes aventuras que viveu paralelamente à escrita d’Os Lusíadas

Olhai que há tanto tempo que, cantando

O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,

A Fortuna me traz peregrinando,

Novos trabalhos vendo e novos danos:

Agora o mar, agora esprimentando

Os perigos Mavórcios inumanos,

Qual Cânace, que à morte se condena,

Nua mão sempre a espada e noutra a pena;

 

Agora, com pobreza avorrecida,

Por hospícios alheios degradado;

Agora, da esperança já adquirida,

De novo, mais que nunca, derribado;

Agora, às costas escapando a vida,

Que dum fio pendia tão delgado,

Que não menos milagre foi salvar-se

Que pera o Rei judaico acrecentar-se.     (VII, 79, 80)

 

teria esperado que o rei, o que foi «Desejado» tanto por D. João III, seu avô, como pelo povo para que Portugal mantivesse a independência, contribuísse para assegurar a sobrevivência do poeta e lhe reconhecesse o mérito devido a ter cometido a proeza de imortalizar o rei, respetiva linhagem e os feitos meritórios da nação, apenas por amor à pátria e por amor à poesia:

Vereis amor da pátria, não movido

De prémio vil: mas alto e quase eterno;

Que não é prémio vil ser conhecido

Por um pregão do ninho meu paterno.    (I, 10)

(…)

 

 

A Dedicatória não era uma parte obrigatória na estrutura da epopeia; desconheço a razão que terá levado Camões a escrevê-la, mas acho improvável que ele desconhecesse que o rei ao qual dirige tantos louvores era mau governante e a prova disso é que lhe critica a conduta quer no que respeita à sua indiferença face a esta epopeia e vida atribulada do autor, quer no que toca ao governo do reino, ainda que o faça veladamente:

E ainda, Ninfas minhas, não bastava

Que tamanhas misérias me cercassem,

Senão que aqueles que eu cantando andava

Tal prémio de meus versos me tornassem:

A troco dos descansos que esperava,

Das capelas de louro que me honrassem,

Trabalhos nunca usados me inventaram,

Com que em tão duro estado me deitaram!     (VII, 81)

 

Também não me parece plausível que Camões, defensor do amor universal, simpatizasse com um rei tão egoísta como foi D. Sebastião e, tanto quanto sei, todo o reino se apercebeu disso, vendo as atitudes e decisões por ele tomadas no decurso do seu curto reinado, nos anos que antecederam o desastre de Alcácer-Quibir, a 4 de agosto de 1578. Mas acredito que Camões, para além de desejar o reconhecimento a que tinha direito pela escrita de uma obra única nas Letras nacionais e que contribuía para tornar inesquecíveis grandes e decisivos momentos da História de Portugal, desejasse, paralelamente, que a sua epopeia fizesse ver ao jovem rei a responsabilidade do cargo que ocupava («Tomai as rédeas vós do Reino vosso» I, 15) e a necessidade dele se transformar no continuador dos seus ilustres antepassados, dos que tinham traçado as fronteiras do reino, dos que lutaram para as manter e dos que as estenderam para além do seria expectável, atendendo ao pequeno país que Portugal era antes das descobertas ultramarinas e aos recursos humanos, económicos, científicos e técnicos de que dispunha na época em que, tal como afirma Júpiter nas suas profecias, «Novos mundos ao mundo irão mostrando» (II, 45)

Na Dedicatória, o poeta informa D. Sebastião de que a epopeia que lhe dedica difere de todas as conhecidas até à data, pois contrariamente as estas últimas, Os Lusíadas não louvam heróis imaginados nem contam «vãs façanhas, / Fantásticas, fingidas, mentirosas» (I, 11): os heróis cantados tiveram existência real e as ações que praticaram, também. Este facto poderia ter interessado o rei se ele fosse dado a leituras e à cultura livresca, mas não era o caso e Camões tinha consciência disso:

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores

O vosso Tejo cria valerosos,

Que assi sabem prezar, com tais favores,

A quem os faz, cantando, gloriosos!

Que exemplos a futuros escritores,

Pera espertar a engenhos curiosos,

Pera porem as cousas em memória,

Que merecerem ter eterna glória!           (VII, 82)

Segundo Frei Bernardo da Cruz, autor da «Chronica de Elrey D. Sebastião», obra que terá sido escrita na segunda metade do século XVI e da qual li alguns capítulos numa versão digitalizada (http://www.univ-ab.pt/bad/15/65.html) fiquei a saber que D. Sebastião, o único rei português assim chamado, ficou a dever o nome ao facto de ter nascido no dia do santo do mesmo nome, mártir «a que o povo português era mui obrigado por devoção, por Deos haver levantado a cruel e frequente peste destes reinos com a vinda do seu braço», uma relíquia do santo que veio para Portugal e que se tornou objeto de veneração popular numa época em que grassavam as epidemias no reino e se começaram a sentir sérias dificuldades económicas decorrentes da manutenção de um império tão vasto como era, na altura, o império português, tanto a nível económico como no que respeita à preservação do mesmo, razão que terá levado D. João III a abandonar quatro praças no Norte de África.

Esta decisão de abandonar as praças africanas gerou controvérsias na época, tal como mostram alguns excertos que vou transcrever de «As Controvérsias Ao Tempo de D. João III», da autoria de Maria Leonor Garcia da Cruz, 1960, in Separata Especial, Mare Liberum, Junho 1997, Número 13, Dezembro 1997, Número 14, publicado pela Comissão Nacional para os Descobrimentos, versão digital em http://hdl.handle.net/10451/2583

«(…) Agravado com grandes despesas de uma guerra contínua, o propósito expresso pelo monarca |D. João III| - embora não seja o de desvincular-se de uma missão ideologicamente honrosa (que reafirma e reafirmará sempre) – é, porém, o de seleccionar posições , abandonando as desfavoráveis (pela configuração da terra ou porto) a uma defesa eficaz e ao transporte fácil de gente, mantimentos e artilharia, isto é, Azamor, Safim e Álcacer Seguer. (…)

Na verdade, e apesar da exaltação que se faz da gesta ultramarina, que enobrece e glorifica o nome do Rei de Portugal e o seu povo, ideologicamente justificada na expansão da Cristandade – através da evangelização ou guerra ao infiel (muçulmano ou turco) -, são frequentes, particularmente no discurso literário do século XVI, mas também nos escritos de Castanheda ou de Gaspar Correia, as referências de crítica moral aos objectivos daqueles que partem para o Oriente. Seja qual for o grupo social a que pertençam – do nobre ao vilão que se torna soldado -, a cobiça de riqueza obtida pelo «roubo» ou pela «chatinagem» parece sobrepor-se em muitos a qualquer ideal. (…)

Os que se opõem ao abandono evocam razões e planejam estratégias (…) De facto teme-se que os mouros, fortalecidos com o abandono de Safim e Azamor, redobrem as investidas e, uma vez conseguido o acesso a postos onde possam construir navios, venham atacar o Algarve e o sul de Espanha, tornando impraticável qualquer futura recuperação portuguesa. (…)»

O pai de D. Sebastião, o único filho de D. João III que sobreviveu aos irmãos, morreu poucos dias antes do nascimento do futuro rei e, afastada de Portugal a mãe após o nascimento da criança a 20 de janeiro de 1554, foram os avós, D. João III e sua mulher, D. Catarina, que continuaram a governar Portugal. Quando D. João III morreu, em 1557, D. Sebastião tinha 3 anos e foi coroado rei pouco tempo depois. A avó, a rainha D. Catarina, agora viúva, e o Cardeal D. Henrique, irmão de D. João III, responsáveis pela educação do futuro governante, decidiram «dar-lhe mestre que o ensinasse a ler e a escrever e latim com outros bons costumes» e um confessor, um padre jesuíta que, segundo conta na sua crónica Frei Bernardo da Cruz, juntamente com outro padre também jesuíta e amigo do primeiro, influenciaram o jovem rei a desenvolver a sua inclinação natural  para os confrontos guerreiros que o hão de levar, anos depois, a perder a vida na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos.

Segundo Frei Bernardo da Cruz, o rei terá sido levado a desejar combater no norte de África, não só pelos mestres, como também devido às críticas que tinham sido feitas a D. João III  pelo facto dele ter abandonado aos mouros

«as fortalezas que os reis seus antepassados tinham em África, as quais eram Safim, Azamor, Alcacer Seguer e Arzila, e perdido à força das armas o Cabo de Gué, o que os povos e  nobreza estranhavam e murmuravam, determinaram o mestre e Mauricio |confessor do rei| ensinarem a el-rei D. Sebastião em outro extremo, fazendo-o belicoso e inclinado à guerra. Sendo el-rei menino, não somente com palavras o exercitavam e davam exemplos de reis belicosos que houveram insignes vitórias e conquistaram grandes reinos, mas nas matérias de escrever livros, onde lhe davam lição, o persuadiram ao exercício militar e altas empresas de guerra. O menino, (…) de tal maneira bebia estas doutrinas, que logo começou a dar mostras de ânimo invencível e sem temor a todos e quaisquer perigos»

Neste contexto, encontrava-se em preparação futura investida militar do jovem rei em África, região «vizinha e inimiga, assim por ódio antigo, como disparidade do culto».

 Frei Bernardo da Cruz retrata D. Sebastião como sendo «moço de sobeja ousadia, desejoso de imortal glória com esforçados feitos, tinha já concebido capital ódio, e cada hora desejava ver o dia de a cometer com armas e executar nela a ferocidade de ânimo criado com assaz zelo de exaltação da fé católica e aumento de seus reinos

Quando foi publicada a primeira versão impressa d’Os Lusíadas, em 1572, D. Sebastião tinha 18 anos. Sabendo-se que Camões viveu tempos difíceis na Ásia, talvez tivesse admirado a obsessão do rei em querer combater em África, aliada ao desejo de expandir o Cristianismo entre os Mouros, ideia que também lhe agradava; e talvez essa obsessão do rei por África tenha contribuído, para além de outras razões, para explicar a decisão da escrita da Dedicatória assim como a oferta de apoio a D. Sebastião nesta estrofe d’Os Lusíadas,

Pera servir-vos, braço às armas feito;

Pera cantar-vos, mente às Musas dada;

Só me falece ser de vós aceito,

De quem virtude deve ser prezada.

Se me isto o Céu concede, e o vosso peito

Dina empresa tomar de ser cantada,

Como a pressaga mente vaticina,

Olhando a vossa inclinação divina. (X, 155)

 

Mas a par dos elogios há também duras críticas a D. Sebastião, como mostram as últimas estrofes do canto X, nas quais o poeta pede ao rei que seja humano e olhe para os seus súbditos e repare no sofrimento que eles suportaram para engrandecer a nação; pede-lhe que os «favoreça», impedindo que a dureza das leis os esmague; também lhe pede que dê ouvidos aos homens que sabem do que falam, aos «mais esprimentados» e que não deixe os padres ter um poder excessivo já que nem o dinheiro nem o poder os tornam úteis à comunidade e à evangelização dos infiéis.

 

Favorecei-os logo e alegrai-os

Com a presença e leda humanidade;

De rigorosas leis desalivai-os,

Que assi se abre o caminho à santidade.

Os mais esprimentados levantai-os,

Se com a espriência tem bondade,

Pera vosso conselho, pois que sabem

O como, o quando, e onde as cousas cabem.

 

Todos favorecei em seus ofícios,

Segundo tem das vidas o talento;

Tenham Religiosos exercícios

De rogarem por vosso regimento,

Com jejuns, disciplina, pelos vícios

Comuns; toda ambição terão por vento,

Que o bom Religioso verdadeiro

Glória vão não pretende, nem dinheiro.    (X, 148, 149)

 

As críticas mostram que Camões sabia que o rei se mostrava habitualmente insensato e alheio aos destinos do reino que deveria orientar com a tal sabedoria e sensatez que Camões lhe atribui na Dedicatória; este reconhecimento leva o poeta a «aconselhá-lo» no canto X, baseando-se na «longa experiência» (X, 154) de vida que tem: critica o vício principal do rei que consistia em passar o tempo em caçadas, o que o cronista Frei Bernardo da Cruz confirma:

«(…) Tão orgulhoso se mostrava elrei no que a doctrina dos mestres e sua inclinação o convidavão, que todo seu exercício e gosto era falar na arte militar, dando-se a todo o género de cavalaria, em se pôr bem a cavalo, correr touros, montear porcos, correr canas, fazer justas e torneos, em os quaes exercícios era mui destro e manhoso (…) Com este orgulho de animo em que elrei meditava, e ufania em que se exercitava nas forças e destrezas corporaes, ajuntou também o gosto de todo o género de cassa e montaria, no qual se ocupava e gastava a mor parte do tempo nas suas coutadas de Almeirim e Salvaterra em inverno, e Cintra no verão, nas quaes era tão curioso e fragueiro, que commummente se lhe reputava por vicio tão continua ocupação, e assim pela falta que fazia aos negócios públicos, como os evidentes perigos a que punha sua pessoa (…) e de tal maneira que huns o julgavam por dificultoso nas ferocidades que mostrava, e outros por bemaventurado nos feitos que prometia. (…)»

Assim como o facto de o rei, recusando casar-se e de rejeitar qualquer contacto físico com mulheres, pôr em risco a independência do reino. Camões critica essas «manias» do rei no canto IX, quando Vénus pede ajuda a seu filho para criar a «insula divina» na qual os nautas vão ser amorosamente recebidos pelas ninfas e critica, ainda, as más companhias do rei, que tão negativamente o influenciaram e que são metaforicamente designados por «cães» no final da estrofe 26:

Já sobre os Idálios montes pende,

Onde o filho frecheiro estava então,

Ajuntando outros muitos, que pretende

Fazer hua famosa expedição

Contra o mundo revelde, por que emende

Erros grandes que há dias nele estão,

Amando cousas que nos foram dadas,

Não pera ser amadas, mas usadas.

 

Via Actéon na caça tão austero,

De cego na alegria bruta, insana,

Que, por seguir hum feio animal fero,

Foge da gente e bela forma humana;

E, por castigo quer, doce e severo,

Mostrar-lhe a fermosura de Diana.

(E guarde-se não seja inda comido

Desses cães que agora ama, e consumido).    (IX, 25, 26)

 

 Em «As Controvérsias Ao Tempo de D. João III», a autora dá a conhecer uma carta com um «parecer» de «alguém experiente na guerra de África» que terá sido enviado ao rei D. João III, a pedido deste, em 1543, e no qual o respetivo autor se mostra favorável à permanência dos portugueses naquele território, contrariando, assim, outros «pareceres» que chegaram ao rei; nesta longa carta (documento XIII), alguns dos argumentos empregues fizeram-me lembrar o discurso do Velho do Restelo, curiosamente também «alguém» com larga experiência de vida e que também critica o investimento de Portugal na Índia:

 «(…) A principal razão em que se fundão os que tanto trabalhão que se deixe esta conquista |em África|, he em o pouco proveito que della dizem nos vem, nem pode vir, e no muito que Vossa Alteza gasta em sustentar estas Praças. |os reinos de Fez e de Marrocos| Porem os que em Africa estiveram e virão as grandezas | desta Província, e quanto excede em tudo às melhores e mais ricas de Europa mostrão bem quão enganados estão os que isto affirmão. (…) Será bem que vejamos isto mais devagar, porque acabemos hum dia de mostrar claramente quanto errem e se enganem os que chamão a Africa pobre. E para que em tudo procedamos igualmente com os da parte contrária, é necessário que tomemos a conquista de Africa por todas as Províncias e Praças que Vossa Alteza nella possue (…)

 

Não tens junto contigo o Ismaelita,

Com quem sempre terás guerras sobejas?

Não segue ele do Arábio a Lei maldita,

Se tu pola de Cristo só pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras e riqueza mais desejas?

Não é ele por armas esforçado,

Se queres por vitórias ser louvado?      (Os Lusíadas, IV, 100)

 

Supposto isto havemos de considerar que para hum Reyno ser riquíssimo convem que | (que) tenha duas couzas: frutos da terra e gados em abastança para mantimento dos povos, sem que lhe seja necessário espera-los de outra parte, e minas de diversos metaes assim precizos (sic) como vulgares para os comércios das gentes e uzos necessários da paz e da guerra. Estas couzas tem os Reynos de Berberia em grande abundancia (…)

Mas digão-me já os da parte contrária que Reys tem a India em comparação | destes? ou que cidades populozas? que abundância de terras que com esta se possa comparar? (…)

A que novos desastres determinas

De levar estes Reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas,

Debaixo de algum nome preminente?

Que promessas de reinos e de minas

De ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? Que histórias?

Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?     (Os Lusíadas, IV, 97)

 

Esse Samorim Emperador do Malavar com que cá nos assombrão que tem de Rey mais que o nome? (…) A terra tam infrutífera que não dá aos naturaes, nem com que se mantenhão, nem com que se vistão e não me digão que andão nús por amor do ardor das calmas, que não he se não de pura pobreza; porque os Mouros ricos que na terra nascem e há muitos anos nella moradores | andão vestidos ao seu modo, e da mesma maneira os Portuguezes, nem por isso os offendem mais os rayos do Sol (…)

(…) venhamos às melhores Praças do Oriente começando pelo Estreito da Pérsia athe o mar da China, em todas estas Províncias não acharemos cidade que possa ter o nome de grande nem exceda notavelmente as outras, senão Malaca, a qual pôs debaixo de Vosso Senhorio o Governador Affonso de Albuquerque; (…) Porem (…) somente digo que na conquista de Africa não temos duvida da cauza ser justa e tantas guerras que por essa India se fazem Deos sabe as cauzas e respeitos porque Vossos capitães as fazem. (…)

Pello que não tem comparação nenhuma destas Praças da India por mais opulentas que sejão, com as verdadeiras riquezas de Africa que não dependem do que de fora lhe ha-de Vir porque as sempre tem de seu. (…)

De modo que no tempo em que a coroa destes Reynos estava pera colher o fruito dos trabalhos que athe aquelle tempo tinha passado naquela conquista então os deixou perder; e esta he a cauza porque resultão hoje mais as couzas da India que as de Africa, porque de Africa deixamos perder os frutos quando já os tínhamos quazi por nossos (…)

 

Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe!

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a Fama te exalte e te lisonje

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!        (Os Lusíadas, IV, 101)

 

Que couza se traz da India, que não seja ruyna da parcimónia e corrupção da natureza humana? De que nos servem as especiarias senão de apetites e incitamentos da gulla e de nos incurtar mizeravelmente as Vidas? (…) Pois que direi dos vestidos delicados? da molecia de dormir nos catres? das pedras? das perolas? e de outros infinitos generos de deleites e de delicias semelhantes com que vemos os mancebos de agora andarem adornados? (…)

Leão-se as historias antigas e vejão quem cauzou a Ruyna dos Imperios do Mundo senão as delicias de Asia? (…)»

 

Dura inquietação d’alma e da vida,

Fonte de desemparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te dina de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana,     (Os Lusíadas, IV, 96)

 

Penso que é difícil saber ao certo o que realmente pensava Camões sobre D. Sebastião até porque, na sociedade fortemente hierarquizada em que ele viveu, a figura do rei era normalmente vista como um emissário de Deus na terra e os que ousassem ser diretos e sinceros nas suas críticas tinham um triste destino nas fogueiras do Tribunal do Santo Ofício ou não viam as suas obras impressas, facto que certamente afetaria muito Camões, isto para não falar na «revisão» que a Inquisição fez a Os Lusíadas, apesar dos elogios ao rei, do recurso à mitologia para «divinizar» os homens, da defesa da Cristandade e severas críticas aos «infiéis», verdadeiro alvo a abater, considerando a ideologia da época, e nenhum artista o é fora do tempo em que vive.

 

No entanto, à exceção da empresa africana, assunto em que será possível encontrar razões para uma convergência de opiniões entre o desejo do poeta e do rei (e não estou certa de estar certa até porque não tenho conhecimentos para isso), a verdade é que Camões foi um poeta que teve a coragem de apontar os erros na governação do rei e de denunciar inclinações temperamentais perniciosas para ele e para Portugal (e isso ficou infelizmente provado) numa época terrivelmente complicada em termos sociais, políticos e religiosos em que possivelmente nenhum de nós, por muito que nos queixemos hoje acerca da sociedade em que vivemos, desejaria viver; eu, pelo menos, não.

No que respeita a D. Sebastião, eu quis confirmar, dentro do que me foi possível, a ideia negativa que tinha sobre este rei, medíocre e louco e tenho pena que o único mito português esteja associado ao seu nome; seria bem melhor que estivesse associado a D. Dinis, por exemplo. Calhou-nos o mito sebastianista… paciência.

O discurso do Velho do Restelo n’Os Lusíadas

Abril 8, 2012

Possivelmente, os leitores de Os Lusíadas, ao depararem com o conhecido episódio de o Velho do Restelo no canto IV, estrofes 94 – 104,  já se interrogaram, como eu, sobre as razões que estarão por detrás do discurso deste Velho, tão elogiado pela sua experiência de vida por Vasco da Gama, narrador, neste passo, dos acontecimentos passados da História de Portugal ao rei de Melinde, rei afável e curioso acerca de Portugal, e acerca das aventuras vividas pelos nautas no decurso da viagem até esta parte de África (situada no atual Quénia).

            O Velho do Restelo critica a partida da armada comandada por Vasco da Gama para a Índia logo antes do momento do embarque dos nautas e ainda se faz ouvir no mar, enquanto as naus se vão afastando da praia onde se juntaram os familiares e amigos dos que partiam, praia esta à qual o cronista João de Barros chamou, por essa razão, «praia de lágrimas».

            Ora, visto que a epopeia glorifica os Descobrimentos portugueses, o discurso duramente crítico da partida dos nautas para a Índia sempre me pareceu estranho, pois, segundo creio, contradiz a principal intenção do Poeta.

 

Como gosto de ler Os Lusíadas, assim como estudos feitos sobre a epopeia que Luís de Camões nos deixou, vou deixar aqui perspetivas diversas sobre o significado deste episódio recolhidas nos ensaios de intelectuais, estudiosos e investigadores da obra camoniana cujo valioso contributo ajuda os leitores a esclarecer o significado do episódio referido.

 

Antes de o fazer, vou transcrever um texto respeitante à autorização dada a Luís de Camões para mandar imprimir a sua obra, a qual, segundo diz o autor do livro que o apresenta (Georges Le Gentil), acompanhava a primeira impressão d’Os Lusíadas, em 1572.

 

 

Alvará de privilégio a Luís de Camões para a impressão d’Os Lusíadas

 

Eu ElRey faço saber a quantos este Alvará virem que eu ey por bem e me praz dar licença a Luís de Camões para que possa fazer impremir nesta cidade de Lisboa, hua obra em outava rima chamada os Lusiadas que contem dez cantos perfeitos, na qual por ordem poetica em versos se declarão os principaes feitos dos Portuguezes nas parte da India depois que se descobrio a navegação para ellas por mandado d’ElRey D. Manoel meu visavo que santa gloria aja, e isto com prevelegio pera que em tempo de dez annos que se começarão do dia que se a dita obra acabar de emprimir em diante, se não possa emprimir nem vender em meus reinos e senhorios nem trazer a elles de fora, nem levar aas ditas partes da India pera se vender sem licença do dito Luis de Camões ou da pessoa que pera isso seu poder tiver, sob pena de quem o contrario fizer pagar cincoenta cruzados e perder os volumes que empremir ou vender, ametade para o dito Luis de Camões, e a outra metade para quem os acusar. E antes de se a dita obra vender lhe será posto o preço na mesa do despacho dos meus dezembargadores do paço, o qual se declarará e porá impresso na primeira folha da dita obra pera ser a todos notorio, e antes de se imprimir sera vista e examinada na meza do conselho geral do santo ofício da Inquisição pera com sua licença se aver de imprimir, e se o dito Luis de Camões tiver acrescentados mais alguns Cantos, tambem se imprimirão avendo pera isso licença do santo officio, como acima he dito. E este meu Alvará se imprimira outro si no principio da dita obra, o qual ey por bem que valha e tenha força e vigor, como se fosse Carta feita em meu nome por mim assignada e passada por minha chancelaria, sem ambargo da Ordenação do segundo livro tit. XX que diz que as cousas cujo effeito ouver de durar mais que hum anno passem por Cartas, e passando por Alvarás não valhão. Gaspar de Seixas o fiz em Lisboa a XXIII de setembro de M. DLXXI, Jorge da Costa o fiz escrever.

 

In Camões, Georges Le Gentil, Portugália Editora, 1969

 

 

Algumas perspetivas sobre o significado do discurso do Velho do Restelo:

 

António Sérgio (1883-1969):

«Para com o Velho do Restelo, a simpatia do Camões é evidente. A crítica da empresa conquistadora e marítima pô-la ele na boca do mais avisado, do mais filosófico, do mais venerável dos seus heróis:

 

Mas hum velho de aspeito venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada hum pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

Cum saber só de experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:      (IV, 94)

 

Como vedes, todos os traços da autoridade se acumulam aí na personagem. Ser experto, ter um saber só de experiências feito, é na boca do poeta um encómio alto e dos mais inteiros (…) Como conciliar, portanto, as duas atitudes da epopeia: a crítica do feito, e a sua própria exaltação? Creio que a explicação poderá ser a seguinte: há ordens diferentes de realidade, segundo o pensamento de Camões (…) A energia, a coragem, a inteligência, o saber seguro, a audácia na concepção, a firmeza no executar, eram admiráveis virtudes heróicas em que haviam primado os portugueses (…) porém, existe uma ordem mais elevada do que aquela em que se empregaram tais virtudes. (…) Acima do plano da acção gloriosa encontra-se o plano da Sabedoria (…) que é o plano, precisamente, donde fala o Velho do Restelo.

Nesse plano inferior ao da Sabedoria, onde se desenvolve a acção heróica, as próprias virtudes, dignas do canto, podem ter resultados de corrupção: e assim aconteceu na nossa Índia, devido ao erro de conquistar territórios, em vez da simples dominação do mar. (…) pois que a base de uma boa política é o valor espiritual dos indivíduos, sendo boa política a que busca o mérito e lhe confia o comando que lhe compete:

Por meio destes hórridos perigos,

Destes trabalhos graves e temores,

Alcançam os que são de fama amigos

As honras imortais e graus maiores:

Não encostados sempre nos antigos

Troncos nobres de seus antecessores;

Não nos leitos dourados, entre os finos

Animais de Moscóvia zebelinos;                (VI, 95)

 

(…) Sua ideia mestra, por conseguinte, naquilo que respeita à acção guerreira, era a defesa em geral contra os inimigos da Cristandade, – e não só por Portugal, mas por todos os povos ameaçados, – sem preferência de qualquer lugar, e sem ida pessoal de Sua Alteza.

O que o interessa, o preocupa, não é a África, nem a chamada «política tradicional», nem qualquer conquista ou imperialismo, mas sim a fraqueza dos Europeus (divididos por lutas de religião) perante a ofensiva do Maometano, – que foi gravíssima, como se sabe, até ao momento redentor da batalha de Lepanto, isto é, até depois de acabado o poema. Perigava a chamada «civilização cristã» (…).

 

Pensemos agora na jornada de África (…) Contra a ida de Sua Alteza dominavam então duas razões: (…) era a primeira, (como se sabe) o não haver um descendente, que assegurasse como cumpria a estabilidade do Estado; era a segunda a leviandade, a tontura, a incompreensão de Sua Alteza, o seu completo desvairamento, – já então conhecido, comentado, e censurado por toda a gente.

Mas não só. Que Camões não pensava, na dedicatória, especialmente em terras africanas, – e não advogava, como se diz, o abandono da Índia por Marrocos, – vê-se muito bem na estância 15, assim como na 8:

 

E enquanto eu estes canto e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,

Tomai a rédeas vós do Reino vosso,

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso,

(Que polo mundo todo faça espanto),

De exércitos e feitos singulares,

De África as terras, e do Oriente os mares.   (I, 15)

 

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império,

O Sol logo em nascendo vê primeiro;

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando dece o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério,

Do torpe Ismaelita cavaleiro,

Do Turco Oriental e do Gentio

Que inda bebe o licor do santo Rio:   (I, 8)

 

(…) Sua ideia mestra, por conseguinte, naquilo que respeita à acção guerreira, era a defesa em geral contra os inimigos da Cristandade, – e não só por Portugal, mas por todos os povos ameaçados, – sem preferência de qualquer lugar, e sem ida pessoal de Sua Alteza.

O que o interessa, o preocupa, não é a África, nem a chamada «política tradicional», nem qualquer conquista ou imperialismo, mas sim a fraqueza dos Europeus (divididos por lutas de religião) perante a ofensiva do Maometano, – que foi gravíssima, como se sabe, até ao momento redentor da batalha de Lepanto, isto é, até depois de acabado o poema. Perigava a chamada «civilização cristã».

(…)

Só no fim dos seus Lusíadas, pois, Camões exemplifica especialmente com a terra do Norte de África (como exemplificara com a Ásia Menor, com a Assíria, com os mares das Índias, com a Turquia) a ideia genérica que propugnava, e que era a de os povos da Cristandade se defenderem naquele momento da grande ameaça dos infiéis, que iam alastrando pela «Europa rica».

(…)

Lendo a dedicatória dos Lusíadas, topamos nela o célebre verso

 

Vós, ó novo temor da Maura lança, onde Maura se interpreta, por via de regra, como equivalente de marroquina. Devo dizer que isto é um erro; mauro, mauritano, em Camões, significam o maometano: são epítetos de religião, e não geográficos, ou raciais (e, o maometano, mais perigoso não era propriamente o de Marrocos, mas o da Turquia).

(…)

E lembremos enfim ao bom leitor, como fecho apropositado destas breves anotações, que a guerra em si era contrária (a guerra em geral, e fosse onde fosse) ao eu superior do nosso Poeta, (…)

 

 

Em torno das ideias políticas de Camões seguido de Camões Planfetário/ Camões e Dom Sebastião (Lisboa, 1925) António Sérgio, Livraria Sá da Costa, Lda., Lisboa, 1977, edição extraída de Ensaios, tomo IV, Obras Completas de António Sérgio (excerto com supressões)

 

Georges Le Gentil (1875-1953)

 

«Camões, visando a exactidão quando se trata do seu herói, pois só com conhecimento de causa pretende glorificá-lo, se inspira em duas obras que pudera ler antes da sua partida e que segue passo a passo, a História do descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes de Castanheda, e a primeira Década de João de Barros, obras publicadas em 1551 e 1552, respectivamente. (…) Esta passagem de João de Barros impressionou-o vivamente:

 

«No qual auto, foi tanta a lágrima de todos que neste dia tomou aquela praia posse das muitas nela se derramam na partida das armadas que cada ano vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir; donde com razão lhe podemos chamar praia de lágrimas pera os que vão e terra de prazer aos que veem

 

O Poeta, por sua vez, evoca a multidão lacrimosa das mães, esposas e das irmãs. Nós ouvimos os seus queixumes E é então que surge uma personagem inventada, o Velho do Restelo, (…) contra o espírito de aventura, confundido aqui com ambição.

 

Existira sempre em Portugal, mesmo no tempo do Infante D. Henrique, uma corrente hostil à política de expansão. Os conselheiros prudentes, que se julgavam dentro da razão, objectavam que a agricultura lutava contra a escassez de mão-de-obra, que a despesa excedia as forças de um pequeno país cuja população, nesta altura, não ia muito além de um milhão de habitantes. O Poeta não podia deixar de se referir a esta oposição, pois que ela se encontrava nos cronistas. O que aí pôs de seu foi a emoção renovada da sua própria partida, uma secreta preferência pela cruzada em África e a recordação amarga das suas decepções da Índia. (…)

 

A questão da investida em África

 

Camões quer aconselhar, dirigir. Conviremos que cometeu um erro perigoso estimulando os instintos belicosos do jovem rei. Não suspeitava, ao pregar a cruzada africana, que se preparava um desastre irreparável. A desculpa do Poeta é que ele havia guardado um orgulhosa recordação da sua primeira campanha em Marrocos. A Ásia, pelo contrário, desiludira-o. Observara lá os sintomas irrefutáveis da decadência e contava com um despertar do espírito militar para salvar o que subsistia de um império mal defendido. (…)

 

Críticas ao rei

 

Não se creia porém que era cego o seu entusiasmo, pois ele não poupa as advertências a este mesmo rei, cujos desígnios aprova. Camões ousa lembrar-lhe que o primeiro dever de um soberano, antes de arriscar a própria vida, é assegurar a sua descendência. E ataca os aduladores que o impedem de dar ouvidos aos conselhos salutares:

 

E vê do mundo todo os principais

Que nenhum no bem púbrico imagina; (1)     

Vê neles que não tem amor a mais

Que a si somente e a quem Philáucia insina; (2)

Vê que esses que frequentam os reais

Paços, por verdadeira e sã doutrina

Vendem a adulação, que mal consente

Mondar-se o novo trigo, florecente.  (3)       (IX, 27)

 

(1)   «púbrico» = público;

(2)   «Philáucia» = amor de si próprio;

(3)   «novo trigo» = o novo rei D. Sebastião; (notas minhas)

 

Vê que aqueles que devem à pobreza

Amor divino e ao povo caridade,

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando justiça e integridade.

Fazem direito e vã severidade

Leis em favor do Rei se estabelecem,

As em favor do povo só perecem.             (IX, 28)

 

 

 

Desta opressão, os contemporâneos haviam tornado responsáveis dois favoritos, mas o Poeta contesta-lhes o direito de estender a sua dominação do espiritual ao temporal:

 

Oh! Quanto deve o Rei que bem governa

De olhar que os conselheiros, ou privados,

De consciência e de virtude interna

E de sincero amor sejam dotados!

Porque, como estê posto na superna

Cadeira, pode mal dos apartados

Negócios ter notícia mais inteira

Do que lhe der a língua conselheira.      (VIII, 54)

 

Insurge-se contra os monges politiqueiros:

 

Todos favorecei em seus ofícios,

Segundo tem das vidas o talento;

Tenham Religiosos exercícios

De rogarem por vosso regimento,

Com jejuns, disciplina, pelos vícios

Comuns; toda ambição terão por vento,

Que o bom Religioso verdadeiro

Glória vã não pretende, nem dinheiro.    (X, 150)

(…)

Outra influência nefasta ameaçava o rei, a dos jovens conselheiros presunçosos que pretendiam dar lições aos veteranos das conquistas:

 

Favorecei-os logo e alegrai-os

Com a presença e leda humanidade;

De rigorosas leis desalivai-os,

Que assi se abre o caminho à santidade.

Os mais esprimentados levantai-os,

Se com a experiência tem bondade,

Pera vosso conselho, pois que sabem

O como, o quando, e onde as cousas cabem.  (X, 149)

(…)

Para esta expedição |a Marrocos| que ele desejava, embora receando que fosse mal conduzida e acarretasse funestas consequências, Camões oferecia o seu duplo concurso de soldado e de poeta:

 

Pera servir-vos, braço  às armas feito;

Pera cantar-vos, mente às Musas dada;

Só me falece ser de vós aceito,

De quem virtude deve ser prezada.

Se me isto o Céu concede, e o vosso peito

Dina empresa tomar de ser cantada,

Como a pressaga mente vaticina,

Olhando a vossa inclinação divina.    (X, 155)

(…)»

Camões, Georges Le Gentil, Portugália Editora, 1969 (excerto com supressões)

 

Luís de Sousa Rebelo (1923-2010)

 

«(…) Camões sentia com orgulho a obra de civilização, que são indubitavelmente os descobrimentos portugueses, e só de um modo contraditório se ia apercebendo da chaga colonial que eles deixavam. As apreensões do Velho do Restelo, onde apenas se tem querido ver um espírito conservador e passadista, manifestam, sim, a consciência dos riscos e dos males, que o império traria consigo, e põem audaciosamente em causa a ideia de progresso, que por via de regra se lhe atribuiu:

 

A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhes destinas,

Debaixo de algum nome preminente?

Que promessas de reinos e de minas

De ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? Que histórias?

Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?     (IV, 97)

 

 

O alto preço, que a comunidade portuguesa teria de pagar em vidas e sacrifícios sem nome, é proclamado com uma veemência, que mostra que o poeta jamais ignorou a outra face da expansão e do domínio colonial. A hermenêutica tradicional tem procurado dar deste passo uma lição atenuada do seu verdadeiro significado, ao conotá-lo com subsequentes episódios da narrativa do descobrimento, o que nos levaria a ver nele a expressão de uma atitude única e isolada, decidida a manter o status quo existente no Reino, e merecedora decerto da reprovação do poeta. Ora esta leitura esquece que n’Os Lusíadas há contradições e ambiguidades, comuns, no geral, às grandes obras de arte. Tais ambiguidades reflectem a complexidade do pensamento camoniano e não devem ser jamais diluídas ou minimizadas, se quisermos apreender o conteúdo da mensagem que o poema nos transmite. Cumpre, por isso, referenciar o plano da narrativa histórica a outros níveis da estrutura interna do poema, em particular ao plano mitológico.

 

É já sabido que o debate que se trava no Concílio dos Deuses, e tem como tema de discórdia a viagem marítima dos Portugueses, vai levar ao triunfo de Vénus, a protectora dos Lusitanos. (…)

 

Vénus opõe-se a Baco, como a força do progresso se opõe  ao velho tradicionalismo. Mas a questão de se saber qual deles foi mais vantajoso e benéfico para a humanidade fica inteiramente em aberto, pois o poeta não lhe dá resposta. (…) Vénus é a deusa do Amor, no sentido lato do neoplatonismo renascentista; e a Ilha dos Amores, cúpula e fecho do poema, implica que este progresso só será considerado como tal, na medida em que um elevado código de valores morais se impuser e for respeitado nas regiões em que os portugueses se encontram. (…)

 

Mas a ideia da comunidade nacional é uma das que está mais firmemente arreigadas no seu espírito. Fora de Portugal, Camões vê-se «em terra alheia degradado» longe «do pátrio ninho amado», e as terras do Oriente, onde vive, e até mesmo Goa, constituem para ele o desterro. Aí, longe da autoridade central, os homens de mando e poder sentiam-se inclinados a seguir o seu próprio livre-arbítrio contra a Lei, não hesitando em desafiá-la. Movidos pela «cobiça e pela ambição», procuram satisfazer apenas os seus desejos em detrimento do bem comum. (…) o problema do justo governo e da liberdade cívica são para Camões um problema fulcral. A submissão ao interesse geral e a sua defesa constituem para ele a base de uma unidade, que é a garantia da independência da nação, e se torna ainda mais evidente quando vista longe da pátria. (…)»

 

 

Camões e o sentido da comunidade, Luís de Sousa Rebelo, in

Camões e o pensamento filosófico do seu tempo

Egídio Namorado, Luís de Sousa Rebelo, Roger M. Walker, João Mendes

Estudos e ensaios, Lisboa, 1979 (excerto com supressões)

 

Hernâni Cidade (1887-1975)

« Os Lusíadas são um poema épico, na medida em que o seu Autor nele se interessa mais pela história do seu povo, do que pelos sucessos ou estados de alma que afectam sua vida individual.

É claro que a realidade objectiva, por mais concreta e alheia, sempre de certo modo se subjectiva, logo que reflectida na sensibilidade e captado o seu reflexo na imagem que dela nos transmite em expressão poética. Assim se pode dizer que a poesia épica é fundamentalmente, radicalmente subjectiva, ou seja – lírica. (…)

Ele |o discurso do Velho do Restelo| exprime não apenas, como se tem dito, a reprovação da empresa indiana, quando a de Marrocos seria mais fácil e igualmente lucrativa, mas a condenação da dura inquietação,/ Fonte de desamparos e adultérios,/ Sagaz consumidora conhecida/ De fazendas, de reinos e de impérios.

O Velho evoca as empresas mitológicas em que o homem, ardido no fogo de altos desejos, que Prometeu ajuntou ao peito humano e o mundo em armas acendeu, em mortes e desonras, tentou ultrapassar os seus limites. E termina:

Nenhum cometimento alto e nefando,

Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração.

Mísera sorte! Estranha condição!         (IV, 104)

 

A fala tem significado tanto nacional como humano; abrange o passado, o presente e o futuro, pois ainda hoje, apesar de todos os perigos e clamores, nenhum cometimento alto e nefando fica por tentar…

Na segunda metade do século, era natural que as dolorosas experiências sofridas e registadas na História trágico-marítima, não permitissem evocar mesmo os próprios episódios mais felizes, sem lembrar o preço em sacrifícios, lágrimas e lutos por que nos tinha ficado.

 

É certo que Camões não encontrava, em suas experiências pessoais pelo Oriente, motivos que lhe avivassem as emoções que, ao menos pelos seus vinte anos, teria sentido, por exemplo, perante o 2º cerco de Dio, por D. João de Castro. O feito ressoara pela Europa, sobretudo em Roma, como triunfo cristão no demorado duelo entre a Cruz e o Crescente, que sem tal vitória decerto não teria terminado pela derrota dos Turcos em Lepanto. Mas a própria decadência a que se havia descido, suscitava o patriota à obra que retivesse, para a perpetuidade dos séculos, os clarões da glória que se apagava, e estimulasse os epígonos dos heróis à continuação dos feitos de seus ilustres avoengos. (…)»

 

Luís de Camões, Colecção A obra e o Homem, Hernâni Cidade, Editora Arcádia, 1961 (excerto com supressões)

 

António José Saraiva (1917-1993)

Óscar Lopes (1917 – )

 

«(…) Esta vitória dos homens sobre os deuses é uma ideia adequada ao impulso do Renascimento, que assistiu a um importante avanço no domínio da natureza por parte do Homem. É, aliás, também um ideal da Antiguidade, simbolizado pelo mito de Prometeu, o herói que roubou o lume divino para erguer os homens ao nível dos deuses. Camões realça-o, contrastando a heroicidade revolucionária com a sensatez do Velho do Restelo, que exprime o ponto de vista oposto, segundo lugares-comuns dos coros trágicos clássicos: o Velho alude ao mito de Ícaro, castigado pela ambição de querer elevar-se nos ares, ao mito de Prometeu, e o que é mais (e seria extremamente audacioso se não fosse feito por forma tão discreta), aproxima tudo isto, aproxima a própria viagem de Vasco da Gama, tema central da epopeia, da desobediência de Adão.

A viagem do Gama, os Descobrimentos em geral aparecem assim, num relance, como renovação do Pecado Original: o da autodeterminação humana. Este orgulho humanista, de que a seguir encontraremos outros aspectos, verifica-se sobretudo nos lineamentos gerais do poema: repare-se que o humano Gama alcança, com a posse de Tétis, símbolo do domínio dos mares, aquilo que fora negado a Adamastor, um titã semidivino. (…)

Talvez possa, por isso, falar-se de uma tensão entre dois sentimentos opostos: o da dignidade do Homem, quebrantador impenitente de todos os vedados términos, colectivamente candidato à divinização, e o da sua insignificância de bicho da terra tão pequeno.

O primeiro destes sentimentos alimenta-se da maravilha de todo um mundo geográfico recém-descoberto e de toda a funda apetência carnal camoniana; o segundo, daquela austera, apagada e vil tristeza em que o poeta asfixia, daquela decadência nacional cuja lúcida previsão se atribui ao Velho do Restelo, e de uma cosmologia ptolemaica cujas esferas o Homem não conseguiria nunca atravessar sem se dividir em corpo e alma, sem se render à divindade. (…)»

História da Literatura Portuguesa, 8ª edição, António José Saraiva, Óscar Lopes, Porto Editora, Limitada, Porto, 1975 (excerto com supressões)

 

Amélia Pinto Pais (1943 – )

«(…) Dirige este Velho estranhas palavras aos que partem: o seu discurso é fundamentalmente uma crítica daquilo a que ele chama «estranha condição» do homem. Segundo ele, o que está na base desta viagem é a vontade de obter a «glória de mandar»; esta partida é fruto da «vã cobiça», da vaidade «a quem chamamos Fama». Tais impulsos vãos não passam de «fraudulento gosto». A «Fama» e a «Glória» com que vêm sendo designados tais impulsos vãos não passam de designações desprovidas de sentido, que servem para enganar «o povo néscio», isto é, inconsciente da diferença entre o ser e o parecer; são impulsos que só acarretarão consigo desgraças: desamparos, adultérios, ruína económica, perigos, mortes. O tom das palavras deste Velho é pontuado de apóstrofes, interrogações, exclamações (logo, altamente emotivo). Mas, afinal de contas, que fazer, se é próprio da condição humana ser insatisfeito, inquieto – «dura inquietação da alma e da vida»?

Porque assim é, fora Adão «insano» expulso do Paraíso, da «Idade de Ouro» se passará á do «ferro»; por isso, sejam malditos: o primeiro que navegou e também Prometeu e Ícaro – símbolos do querer ir mais além dos próprios limites, ao tentarem deixar o seu elemento natural, a Terra, para conquistar outros elementos que não são os seus – a Água, o Fogo, o Ar.

A voz do Velho é, pois, a do simples bom senso de quem já tem uma longa experiência que lhe diz que se não deve avançar, mais ou menos às cegas, para empreendimentos que vão para além da pequenez do «bicho da terra tão pequeno» de que se falara no final do Canto I. (…)

Lúcido como é, o Velho sabe que as suas palavras não vão ser ouvidas. Procura, então, delinear outro caminho que seja um mal menor: se assim é, se impulsos vãos conduzem o homem para além do que «prometia a força humana», então que estes que vão partir mudem de rumo e vão para mais perto, para o Norte de África, onde, com menos riscos, possam lutar pela Fé, ficar ricos e famosos. Para além do mais, combater no Norte de África poderia contribuir para maior segurança do reino, constantemente ameaçado pelo inimigo maometano.

Este episódio é, sem dúvida, o mais controverso do Poema. Quem é este Velho, que voz é a sua, de quem é a voz que por ele fala? (…)

Aparentemente, porque não condena as palavras do Velho, porque insiste por diversas vezes em que se trata de um velho digno de respeito e dotado de autoridade, Camões identificar-se-ia com as suas palavras, condenando, assim, de certo modo, a viagem de Vasco de Gama.

Tal geraria uma contradição dificilmente explicável, num Poema destinado a glorifica aquilo que, no conjunto da História de Portugal, constituía a maior glória: justamente a viagem de Vasco da Gama, escolhida para acção central do Poema.  (…)

Ora, independentemente de saber qual a posição de Camões face ao rumo que deveria ser ou ter sido o da nossa expansão, parece-me que a solução desta contradição aparente está no próprio poema: os navegadores, em nome da lealdade ao rei e à pátria, não se deixam demover e partem, apesar de tudo.

Herói é aquele que é movido por um impulso de grandeza tal que não escuta a voz do bom senso e da razão prática. Herói é aquele que, consciente embora do aspecto irracional de um empreendimento, para ele avança, cheio de força interior, bastante para vencer todos os obstáculos que se lhe deparem. Porque, dirá mais tarde Camões, em contraponto às palavras do Velho do Restelo, a imortalidade conquista-se

Pelo trabalho imenso que se chama

Caminho da virtude, alto e fragoso,

Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso      (IX, 90)

 

O progresso do homem faz-se na luta, muitas vezes ilógica, absurda, contra os obstáculos que lhe move o «Céu sereno».

(…)

Luís de Camões, Os Lusíadas, Amélia Pinto Pais (organização, introdução e notas), Areal Editores, 3ª edição (excerto com supressões)

 

Finalmente, eu queria acrescentar o seguinte:

A leitura das estrofes respeitantes ao discurso do Velho do Restelo, homem idoso que subitamente se destaca entre a multidão das esposas, filhos e amigos dos nautas prestes a embarcar para a Índia, leva o leitor a estabelecer um contraste entre a multidão lamentosa que se aglomera na praia e a presença solitária e altiva do Velho que, posteriormente, prenderá a atenção do Gama, narrador neste passo, como afirmei no início.

A estrofe imediatamente anterior àquela em o Velho começa a falar, termina num tom bastante emotivo (refiro-me à estrofe 93 do Canto IV); nesta, o próprio Gama confessa (na retrospetiva que apresenta ao rei de Melinde) não se ter despedido da família, tendo, assim, partido «Sem o despedimento costumado»; e justifica esta indiferença fingida com a razão de que tinha que se libertar das emoções que o contacto físico com a família lhe causaria, caso se tivesse despedido como teria acontecido em circunstâncias diferentes daquelas em que ali se encontrava. Assim, e na qualidade de chefe da armada, mostra autodomínio e determinação em embarcar sem olhar para trás: «Determinei de assi nos embarcarmos»;

Ora, parece-me curioso que Vasco da Gama, que se mostrou pouco antes tão alheio ao choro e lamentações dos que ficaram na praia, tenha ouvido atentamente a fala do Velho do Restelo, tanto mais que já se encontrava na altura dentro de uma das naus; Vasco da Gama não só repara que o Velho olha para a armada «meneando três vezes a cabeça, descontente», como também lhe ouve a «voz pesada» com clareza: «Que nós no mar ouvimos claramente»; se pensarmos no ruído das vozes dos que assistiram à partida e no barulho do mar, poder-se-á concluir que houve grande vontade, por parte de Vasco da Gama, de prestar toda a atenção a este homem velho, que ninguém ali parecia conhecer, e que começa a discursar contra eles, nautas, de modo grandemente desmoralizador; determinado como era e convencido como estava a obedecer ao seu rei, porque haveria Vasco da Gama de ouvir todas as críticas que o Velho lhe(s) dirigiu?

O Velho do Restelo não é identificado, não tem nome e, para além disso, além de homem experiente (poder-se-á perguntar que factos comprovam a experiência deste homem, visto que ninguém parece conhecê-lo) mostra ainda conhecimentos culturais ao nível da mitologia que seriam impensáveis num homem simples que se encontrasse na praia por mero acaso. Vasco da Gama, a quem Camões irá chamar inculto mais adiante, no Canto V, reproduz fielmente as palavras do Velho do Restelo e apresenta-as em discurso direto, facto este que acentua a importância atribuída por Camões à fala do Velho;

Este último acusa Vasco da Gama e restantes nautas, (ainda que não os mencione diretamente no seu discurso) de:

- partirem motivados pelo desejo de alcançar o mérito por meios ética e moralmente condenáveis, como são a vaidade, o gosto pelo poder, a cobiça;

- acusa-os de serem os responsáveis morais pela situação fragilizada em que ficarão as respetivas famílias: «desamparos e adultérios»;

- acusa-os de desbaratarem o erário público;

- acusa-os de se deixarem enganar pela miragem da «Fama e Glória», engano este próprio de gente estupidificada;

- acusa-os de conduzir o reino e os seus habitantes à desgraça completa, à ruína moral e económica e de virarem as costas aos infiéis de África, deixando «criar às portas o inimigo».

O Velho do Restelo continua, num discurso marcado pela emotividade, a acusar os nautas de virem a ser responsáveis pelo futuro negro do reino, visto que não é admissível que ele o faça para a multidão que se encontra na praia e que, ao que parece, se deve ter calado e ouvido, também, o discurso excitado e agressivo do Velho do Restelo.

Nem Camões, nem Vasco da Gama se mostram incomodados com as palavras do Velho; Vasco da Gama, no início do Canto V, continua a contar, tranquilamente, o final da cena acontecida na praia, ao rei de Melinde. É certo que os elogios ao Velho do Restelo não faltam: ele é, no início do episódio, «um velho de aspeito venerando», «cum saber só de experiências feito» e, no final desta cena, na estrofe 1 do Canto V, ele é «o velho honrado» que «Vociferando estava». Estranhamente, Vasco da Gama não se incomoda e por isso partiu pelo mar fora, gozando o oceano calmo e, prazenteiro, deseja boa viagem aos companheiros:

(…), quando abrimos

As asas ao sereno e sossegado

Vento, e do porto amado nos partimos.

E, como é já no mar costume usado

A vela desfraldando, o céu ferimos,

Dizendo: Boa viagem! – logo o vento

Nos troncos fez o usado movimento.   (V,1)

Concluindo, este episódio sempre me pareceu insólito e espero que, aqueles que pensam como eu, tenham encontrado uma explicação para ele entre as diferentes abordagens que dele fizeram os pensadores, ensaístas e professores que aqui foram referidos.

 

 

 

Requiem por um pássaro e um autocarro perdido

Abril 7, 2012

Foi ao ler o poema Requiem por um pássaro e um autocarro perdido que dei conta de que havia um nome para a massa informe dos dias que me acontecem (e acontecem também, decerto, a muitas outras pessoas); esses dias são «em forma de pássaro morto», eles têm, afinal, uma forma e um nome que os identifica e percebi, então, que o que era vagamente sentido e inominável se tinha transformado em imagem com título à espera de ganhar vida na mente daqueles leitores que, como eu, reparam nos pássaros que estão na mira da agressividade do espaço urbano, estranho a pássaros e a outras manifestações de vida genuínas.

Requiem por um pássaro e um autocarro perdido

Mais um dia

em forma de pássaro morto.

Uma amálgama ainda quente

de manhã que nasce, espécie de beleza

desmanchada a que nem o nosso olhar

consegue servir de pietà. O vento

teima em agitar uma ou outra pena,

mas não há golpe de asa que o arranque

agora ao asfalto negro.

 

Partilhamos, no fundo, a impotência:

o destino que o esmagou

é o mesmo que esperamos para

embarcar sem surpresas, sem direito a atrasos.

A essa indiferença cansada prefiro

a do outro pássaro que, lá muito em cima,

hoje ainda mais, refaz a traços negros

a vida. É por estes instantes

de voo que aceito continuar a perder.

 

Requiem por um pássaro e um autocarro perdido, Inês Dias, in Resumo a poesia em 2011, edição Documenta, poemas escolhidos por Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós, Manuel de Freitas, Edição 4004, Março 2012.

Para o pássaro que jaz desfeito sobre o «asfalto negro», a viagem pelo céu da cidade chegou ao fim e nem o vento que lhe agita as penas ilude a rigidez do pequeno corpo, dessa «espécie de beleza desmanchada» à qual o Eu poético presta uma última homenagem com as palavras do poema.

Mas a cidade, buliçosa e mecanizada, organiza secreta, diária e subtilmente a morte de todos os seus habitantes ao crescer sozinha e marginalmente aos dramas dos seres que nela vivem; dia após dia nasce-lhe mais um tentáculo que submeterá em nome do progresso e/ou da modernidade, tal com os outros já existentes, os animais, as árvores e, sobretudo, as pessoas e as suas vidas, esvaziando-as de todo o conteúdo humano e, consequentemente, robotizando-as.

A natureza e a diversidade que a caracteriza não interessam à cidade moderna, mais apta a encurralar as gentes que nela vivem nas exíguas celas que lhes foram distribuídas e nas quais terão que entrar e das quais sairão à hora programada e nunca para perder tempo a olhar, saudosamente, os pássaros, os agentes da rebeldia contra o betão, poluição e ordem instituída e que, por isso mesmo, vão sendo abatidos pelos meios de transporte que rolam estressadamente no asfalto; nas cidades que conhecemos, há profissionais da inquietação cujo principal mérito reside em propiciar o estado de alienação geral por que ansiamos para esquecermos que engendrámos espaços destrutivos da nossa identidade, liberdade pessoal e espírito solidário com todos os seres que connosco o partilham.

Assim, este dia foi «Mais um dia/ em forma de pássaro morto», não a exceção de «um dia», mas «Mais um dia» a somar aos que o antecederam, todos produzidos em série na cidade-fábrica incapaz de distinguir entre «Uma amálgama ainda quente» que arrefece no «asfalto negro» e o lixo que lá fica depositado, os restos dos restos deixados por transeuntes apressados, adaptáveis à desumanização e controláveis, meros assistentes passivos da morte lenta das formas de vida que teimam em persistir.

No lado oposto ao do «asfalto negro» existe, «lá muito em cima», o espaço livre e sonhado por um Eu que vislumbra no pássaro que observa o seu próprio destino de ser humano privado de «surpresas» e «sem direito a atrasos» no cumprimento dos horários do gigantesco carrocel citadino e que, agarrado ao sonho de libertação como se de um precioso tesouro se tratasse, devolve a vida ao pássaro, que «refaz a traços negros a vida», através das palavras do poema, finalmente livre dos obstáculos que os homens lhe criaram; e acho até que o pássaro, se pudesse falar, agradeceria ao poeta que, no meio da indiferença geral, rejeitou «essa indiferença cansada», tantas vezes responsável pelo espesso véu que separa os homens da natureza e, pior ainda, deles próprios.

Ecos de Álvaro de Campos em Jorge de Sena

Abril 3, 2012

Dois poetas diferentes, que viveram em períodos históricos, políticos e sociais também diferentes, que o (irremediável) cansaço  de viver aproxima nestes poemas que vou transcrever e que o confessam em estrofes longas, à medida do cansaço sentido, desordenadas, repetitivas, febris, talvez com a expetativa de se livrarem dele, do cansaço, depois de concluído o poema, como se escrever muitas vezes «cansaço» tivesse sido a maneira encontrada para lhe destruirem o significado, deixando o significante vazio como eco do vazio que sentem .

Sentir  cansaço de tudo foi certamente dramático para quem escreveu sobre ele, mas é dramático também para quem o lê nos poemas que nunca teria podido escrever, como eu, leitora do início do século XXI que compreendo, ao lê-los, que o tempo passa e o cansaço fica, que afinal as mudanças que vejo acontecer fora de mim, não produzem mudanças dentro de mim e, então, sou levada a concluir que nada tem acontecido de realmente importante, visto que qualquer acontecimento «acontece» para alguém que o valida ou não. E se me vierem dizer que somos nós os únicos responsáveis pela realidade sentida, eu responderei que as ilhas em que vivemos são banhadas pelo oceano coletivo e que todos os ilhéus passeiam à beira-mar, apanham conchas de vez em quando e olham os navios que passam no horizonte, os aviões que riscam os céus; além disso, nas ilhas em que vivemos há televisão, jornais e, no café da praia, trocam-se impressões sobre o estado do mar, as tempestades que se aproximam e partilham-se as preocupações sobre pequenos e grandes dramas individuais.

Pergunto-me se a sensação de «desfeito de cansaço» de que fala Jorge de Sena num poema de 1970, e se o cansaço «não disto nem daquilo/ nem sequer de tudo ou de nada» de que fala Álvaro de Campos, num poema escrito em 1934, terá a ver com este país (e não me apetece responder ao antever o cansaço que seria pensar nisso, num país tão estagnado e cansativo como este) ou se isso tem a ver com Tudo, o mundo e eu como parte integrante dele, ou se, porventura,eu, os poetas mencionados e mais algumas pessoas nascemos com uma deficiência que ainda não foi objeto de estudo dos neurocientistas.

 Jorge de Sena (1919-1978)

É tarde, muito tarde da noite,

trabalhei hoje muito, tive de sair, falei com vária gente,

voltei, ouço música, estou terrivelmente cansado.

Exactamente terrivelmente com a sua banalidade

É o que pode dar a medida do meu cansaço.

Como estou cansado. De ter trabalhado muito,

Ter feito um grande esforço para

Depois interessar-me por outras pessoas

quando estou cansado demais para me interessarem as pessoas.

E é tarde, devia ter-me deitado mais cedo,

Há muito que devera estar a dormir.

Mas estou acordado com o meu cansaço

e a ouvir música. Desfeito de cansaço,

incapaz de pensar, incapaz de olhar,

totalmente incapaz até de repousar à força de

cansaço. Um cansaço terrível

da vida, das pessoas, de mim, de tudo.

E fumo cigarro após cigarro no desespero

de estar tão cansado. E ouço música

(por sinal a sonata para violino e piano

de César Franck, e depois os Wesendonck Lieder)

num puro cansaço de dissolver-me

como Brunhilda ou como Isolda

no que não acreditarei nunca,

l’amor che move il sole e l’altre stelle.

Nada há de comum entre esse amor de que estou cansado,

e o outro que não ama, apenas queima e passa, e de cuja

dissolução no espaço e no tempo em que vivo

estou mais cansado ainda. Dissolvam-se essas damas

que eram princesas ou valquírias, se preferem, no eterno.

Eu estou cansado de não me dissolver

Continuamente em cada instante da vida,

ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.

Qu’ai-je à faire de l’etérnel? I live here.

Non abbiamo confusion. E aqui é que

morrerei danado de cansaço, como hoje estou

tão terrivelmente cansado.

 

Jorge de Sena, Obras Completas, Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço

 

Álvaro de Campos (1890-1935)

O que há em mim é sobretudo cansaço –

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

 

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas –

Essas e o que falta nelas eternamente – ;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

 

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada –

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser…

 

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço…

 

Obras Completas de Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos, colecção Poesia, Edições Ática.

 

 

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