Busque Amor novas artes, novo engenho
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde a esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce n~so sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.
Camões, Luís de, 1994. Rimas. Coimbra: Almedina
O sujeito poético lança um desafio ao amor: «Busque Amor novas artes, novo engenho (novas artimanhas)/ para matar-me, e novas esquivanças» (novas estratégias desdenhosas, arrogantes). Quer pagar com desdém, o desdém com que o amor o tem tratado; no entanto, esta atitude manifesta uma segurança aparente porque está alicerçada no sofrimento que o amor (personificado) lhe infligiu ao longo da vida, como comprovam os adjetivos «novas» e «novo» que precedem «artes», «engenho» e «esquivanças». A determinação do Eu em mostrar-se indiferente às maldades do amor é, sobretudo, resignação, aceitação da sua incapacidade para transformar o desamor, de que tem sido vítima, na plenitude amorosa desejada.
Como o amor se tem empenhado em dificultar-lhe a vida, o sujeito poético avisa-o de que, não tendo já expectativas, nada tem a perder, como explicam os «que» que iniciam anaforicamente os versos 3 e 4:
«que não pode tirar-me as esperanças,/ que mal me tirará o que eu não tenho»
E, visto que o amor não pode destruir esperanças inexistentes, o sofrimento amoroso não poderá voltar a afetar o sujeito poético no presente, contrariamente ao que sucedeu no passado, tempo de desilusões amorosas de que parece estar curado.
Mas, através dos imperativos «Olhai» e «Vede», nos versos 1 e 2 da 2ª quadra, o sujeito poético interpela o leitor para partilhar com ele a sua verdade mais profunda: o que ficou dito antes não deve ser tomado à letra, a intenção de se mostrar rebelde face ao amor manifesta um desejo de vingança legítimo, mas impossível de realizar porque não se pode viver sem aquilo de que se depende – o amor; neste contexto, as «esperanças» de não voltar a sofrer por razões sentimentais são ilusórias, tudo não passa de «perigosas seguranças» porque uma coisa é pensar sobre o amor e outra bem diferente é sentir o amor e assistir, impotente, ao desmoronamento de qualquer pensamento lógico que aponte ao sujeito que ama uma saída para um sentimento que o mata e simultaneamente e lhe dá vida já que o amor é «o lenho» que permite que o ser humano, «andando em bravo mar», ultrapasse os obstáculos à sua sobrevivência.
Como escreveu Eugénio de Andrade no verso 2 do poema «É urgente o amor», «É urgente um barco no mar»; o amor proporciona orientação, equilíbrio e força anímica necessários à travessia do mar da vida, recheada de «contrastes» e «mudanças» adversas à vontade do navegante e que por isso procura, na relação amorosa, um sentido para a vida e para a sua existência nessa vida.
A interpelação ao leitor revela ainda o desejo do sujeito poético ironizar sobre si próprio pelo facto de confessar um atrevimento que sabe que não terá consequências, e, também, de estabelecer uma relação de cumplicidade com o leitor, não apenas para este último «veja» como a mente humana pode criar ciladas aos pensadores que se convencem de que o ato de pensar oferece soluções para o desconcerto amoroso, mas também para exorcizar, mediante a teatralização, a amargura de ser lúcido para nada ou, talvez, apenas para ter o prazer de se saber lúcido, mesmo sabendo que lúcido ou não, o drama existencial permanece: amar e ser amado não dependem da vontade, mas de circuntâncias que fogem ao controlo da razão.
A verdade é que, mesmo desesperançado, «lá me esconde/ Amor um mal, que mata e não se vê», afirma o sujeito poético no 1º terceto. O amor é um «mal», condena quem ama a um sofrimento interior e tudo isto acontece em segredo, no íntimo do sujeito emocionalmente dependente desse «lenho» que constitui a razão primeira da sua existência e se sabe condenado à morte psicológica pela razão de que a vida não se compadece com o sonho de atingir o patamar, sequer, de uma dimensão superior da existência proporcionadora da felicidade imaginada ou relembrada, de acordo com as ideias de Platão.
Resta-lhe uma esperança vaga de encontrar isso que busca e a que chama «um não sei quê» porque nenhuma palavra consegue descrever as subtilezas do amor nem explicar a necessidade vital de amar. O sujeito poético limita-se a anotar essa necessidade que nasce dentro dele quando pensava estar a salvo de novas desilusões amorosas:
«que nasce não sei onde,/ vem não sei como, e dói não sei porquê.»
E a assertividade da 1ª quadra dá lugar, no último terceto, à expressão sincera da insegurança decorrente da constatação de que o ser humano, em primeiro lugar, sente; poderá revoltar-se contra o objeto do seu sentir, mas quando leva a cabo essa luta da razão contra o sentimento, este último vence porque nos liga ao outro e essa ligação nos torna mais humanos. E, então, outra paisagem se oferece ao nosso olhar e com ela nasce uma nova esperança de reconciliação connosco e com o mundo.
Estudantes portugueses
Quem passa regularmente perto de uma escola, poderá observar, no caso desta se encontrar ladeada por cafés e pastelarias, como os estudantes portugueses mostram uma fome de bolos, panikes e croissants recheados com chocolate, cozidos à pressa em pequenos fornos elétricos para acalmar os jovens estômagos indisciplinados e carecidos de acúcar. A seguir, o alimento é regado com coca-cola, bebida muitas vezes de pé nas esplanadas dos cafés atafulhadas de estudantes que, momentaneamente esquecidos da escola e dos respetivos horários, por lá se deixam ficar mais uns minutos, chegando, depois, afogueados às salas de aula, com o resto da coca-cola na embalagem de lata e um guardanapo de papel com restos de bolo. A desculpa que apresentam pela entrada fora de horas é sempre a mesma: muita fome, hora de lanchar, muita gente para atender, etc., e olham com disfarçada irritação os professores que reclamam, que não compreendem aquela necessidade imperiosa de comer e beber no café da esquina, porque as escolas têm cantina e um bar para servir os alunos e a preços mais módicos. Mas nisto reside a causa da atração que os cafés e pastelarias exercem no imaginário juvenil: fora da escola os lanches e pequenos-almoços são mais caros, é certo que sim, mas por isso mesmo, bem mais apetitosos porque tudo o que é barato é fraco, o que é mais caro é que é de qualidade.
O mesmo raciocínio aplica-se dentro da escola no que respeita ao apoio escolar oferecido pela escola: os professores bem podem publicitar a sua vontade de dar aulas de apoio, que a maioria dos alunos não põe lá os pés. Se essas aulas de apoio fossem pagas, quem sabe, talvez as salas estivessem cheias de alunos desejosos de aprender o que falhou nas aulas, de exercitar o que precisam de saber e de fazer. Acontece, porém, que as aulas de apoio são gratuitas e os alunos, face a este despautério, procuram explicadores a quem os pais pagam à hora, com maior ou menor sacrifício. Os jovens estudantes portugueses, sobretudo os do ensino secundário, gostam de puxar pelas notas dos pais e de pagar. Assim, sentem-se ao abrigo de qualquer falhanço escolar e nem precisam de estar atentos nas aulas porque o explicador dá a mesma aula, mas desta vez uma aula paga, pormenor importante porque sossega as jovens consciências.
É verdade que estar atento nas aulas está completamente fora de moda e por isso os entretenimentos para ocupar 90 minutos de total enfado variam: há quem envie mensagens no telemóvel escondido por debaixo das mesas, há quem insista em manter os headphones «para relaxar, sabe como é», há quem tente cativar a atenção de futuros parceiros para relações amorosas e há, ainda, os «filósofos», os que se escapam lá para fora mentalmente, deixando o olhar perder-se no tom azulado do céu ou numa nuvem empurrada pelo vento e assim ficam, mais ou menos inertes a vaguear mentalmente pelo espaço exterior até que o toque da campainha os desperte.
É verdade, quase nenhum deles ouviu nada e seguramente aqueles 90 minutos foram mais tempo perdido a somar a horas, dias e meses dele. As notas são jeitosas, apesar disso e, se pensarmos bem, não é estranho que assim seja, ainda que para se ter chegado a este milagre que acontece todos os anos nas escolas portuguesas, tenha sido preciso muito esforço por parte do corpo docente, muito empenho, muitas lavagens aos cérebro, muito treino na desistência e, finalmente, na aceitação de uma nova realidade: eles, os alunos, podem não mostrar muitas capacidades (intelectuais, de trabalho, cívicas e outras ainda), mas o potencial está lá, mesmo quando ninguém o enxerga e os que não veem esse potencial que fará deles cidadãos e cidadãs úteis à sociedade, são ceguinhos, são demasiado pessimistas, demasiado tradicionais, enfim, uns chatos. Portugal conta com estes jovens e se os olharmos bem, percebemos que sim, que podemos contar com eles, pelo menos para gastar dinheiro que não ganharam e para conseguir o êxito que não mereceram.
O Ministério da Edudação tem torcido por eles nos últimos anos e por isso, essa tarefa de os avaliar é apenas uma formalidade para encher papel, já que todos têm a passagem de ano garantida a partir do momento em que se matriculam. E, para que isto não sofra desvios, para que não haja nenhum professor chico-esperto a problematizar «a coisa», há que avaliar os professores e ver, bem de perto, os que os sacaninhas andam a tramar contra a indefesa estudantada, a nossa salvação futura! Eu concordo, vigiem os professores e ocupem-lhes as muitas horas vagas (as destinadas ao apoio escolar, por exemplo) com diversa papelada, só para ver se eles sabem preencher cabeçalhos, fazer gráficos, planos curriculares, fazer listagens de conteúdos e objetivos, dossiers virtuais, etc.. Eles queriam dar aulas, mas paciência, acomodem-se, adaptem-se à realidade de que são cada vez mais inúteis, pelo menos os que lecionam em escolas públicas. Não pensem professores. Pensar está fora de moda, ensinar também, aprender nem se fala. É isso, sejam bons na papelada e talvez tenham direito a uma reforma, talvez sobre algum dinheiro para amparar a vossa velhice. Não percam a esperança.
O lado negro do nosso Fado
O Fado é, a partir de hoje, património imaterial da Humanidade. Muito bem, os meus parabéns sinceros aos fadistas nacionais, aos do passado e aos do presente, que contribuíram e contribuem para que Portugal, acabrunhado, empobrecido à força, envergonhado face ao poderoso bloco central europeu, vivesse uns minutos de inquietação positiva e tivesse, depois de algumas horas de ansiosa espera, a confirmação do mérito da canção nacional, além-fronteiras.
É certo que nos daria talvez mais jeito algum património material em lugar do imaterial, por muito bom e prestigioso que este seja. É que os tempos em que vivemos são mais propícios à materialidade, às coisas visíveis, palpáveis, com estrutura definida, enfim, com peso. Ora disso, temos pouco, todos o sabemos, os atentos e os distraídos, e sem grande esforço, basta ligar a TV e ouvir os noticiários.
Confesso que não costumo ouvir cantar Fados e, quando acontece ouvir algum, lembro-me sempre do mito sebastianista e do Quinto Império que ele, o rei D. Sebastião, haveria de fundar para fazer rebrilhar o reino de Portugal, com um império imaterial. Teríamos pois, um prémio imaterial, no caso de do malogrado rei ter podido regressar das Ilhas Afortunadas, ilhas brumosas, perdidas no Atlântico, no mesmo oceano onde, anos antes, os marinheiros portugueses navegaram em busca de prémios materiais. Aparentemente, ambos os prémios imateriais, um ansiado, o outro recentemente conquistado, nada têm a ver um com o outro, exceto na imaterialidade de ambos e nas circunstâncias sociais e económicas em que se desejou um e em que se obteve o outro. No entanto, o Quinto Império e o prémio imaterial concedido a Portugal pela Unesco integram-se na virtualidade e, como tal, existem num plano da realidade que não toca, ou o faz muito ao de leve, a realidade concreta em que os Portugueses vivem todos os dias. E eu não sei definir com muita precisão o que isto me faz sentir, mas parece-me que nós, os Portugueses, temos uma «queda» para os planos da realidade que menos nos convêm, como se de uma atração fatal se tratasse.
E então pergunto-me como conseguimos chegar àquelas paragens longínquas, aos nossos Descobrimentos e o que terá acontecido depois disso à raça portuguesa, depois tão tristonha, tão lamentosa face ao que já tinha sido, a ponto de se ter perdido nessas lamentações e ter esquecido a razão delas. E assim ficou até hoje, a cantar o fado do mau fado que os deuses lhe deram, no princípio em espaços acanhados e sujos e depois, progressivamente, em espaços ainda acanhados, mas muito mais arejados, tão abertos que até chegaram a outros cantos do mundo. A melodia, porém, continua triste, a melancolia e o tom dolente são a sua essência e ouvi-la paraliza: para quê fazer seja o que for, se nada acontece, se tudo ficará como dantes? Ouçamos o fado e calemo-nos, ele fala por nós e a partir de agora todo o mundo sabe que a canção nacional não podia mesmo ser outra coisa, ela é o retrato do país: traições, desavenças, miséria, irracionalismo transbordante, palavreado estonteante como um bom vinho que entorpece a inteligência e a vontade.
Sim, gostamos de Fado, sim, somos fadistas da vida e o nosso problema reside nisso, precisamente: se o fado fosse só a canção, ó que bem que estaríamos! O problema é que o Fado é de nós todos e todos o carregamos em casa e fora dela, está-nos pegado à pele, é o que é. Sugiro, portanto, que cantemos os fado de olhos bem abertos de agora em diante e abramos as janelas para entrar a luz e as ideias que se movem pelo ar e que apenas os mais atentos apanham. E, quem sabe, futuramente, talvez venhamos a ter um premiozito material, enfim, a esperança é a última a morrer.
Médicos à força
Vi e ouvi há poucas horas atrás que Portugal tem mais médicos que a Grã-Bretanha, a Alemanha e, segundo me pareceu, os países nórdicos; fica, no entanto, atrás da Itália e da Grécia, no que respeita ao número de médicos por habitante. Esta realidade, no caso da análise que a comprovou ter sido séria (e acredito que sim) vem mostrar que os países com maiores problemas financeiros, como comprova o facto de terem recorrido ou de terem de eventualmente recorrer à ajuda económica externa, como poderá vir a ser o caso da Itália) são aqueles onde mais se morre, talvez não de morte física, mas de desassossego quotidiano, de incerteza quanto ao futuro, de frustração no presente, de ausência da libertadora luz ao fundo do túnel.
Pois, há médicos em excesso nestes países, mas não chegam para curar as principais maleitas dos povos a que pertencem, países de gente sem dinheiro para pagar a médicos particulares e que se aglomera nos hospitais públicos à espera da consulta, semanas, meses e até anos. Os médicos, esses, concentram-se nas principais cidades, fogem do interior desertificado onde poucos saberiam o seu nome e fariam jus à sua boa prática.
Hoje e desde há alguns anos a esta parte, verifica-se um estranho fenómeno entre as camadas juvenis da sociedade portuguesa: querem (quase todos) vir a ser médicos e para o conseguir não se questionam acerca de uma genuína vocação para a medicina. Não, isso de seguir as vocações era dantes, agora, em tempos de desemprego, há que ser esperto e procurar as profissões com elevada taxa de empregabilidade e que, simultaneamente, conferem êxito financeiro e social. Assim, mal começam a soletrar as primeiras sílabas, os jovens da ex-classe média portuguesa vão sendo lentamente treinados para quererem ser médicos. Não interessa muito às respetivas famílias o que os jovens pensam acerca da profissão que os pais, avós e tios escolheram para eles, mas apenas que eles tenham consciência dessa «ambição» de ser mais importante do que o primo engenheiro agrónomo e do que a prima professora, profissões que não levam a nada, pura e simplesmente inúteis pela razão de que não têm o estatuto social almejado pelo agrupamento familiar que, desde logo, começa a fazer as contas e conclui que os filhos médicos sempre darão uma ajudinha nas finanças lá de casa, no futuro incerto que todos, cada vez mais, têm em mente.
O rapazinho e a rapariginha começam, então, a viver um calvário: têm de se mostrar à altura das ambições familiares que, diga-se, existem apenas para bem deles, dos jovens, claro está. Começam as noitadas de marranço no quarto e a juventude acaba-se aí, para muitos deles. Depois, face às fracas médias obtidas no secundário, há que pressionar os professores e com a mais justa das causas: ele, o Manuelzinho, quer ser médico, sabiam? Ah, então ajudem-no, deem-lhe já o 19 e o 20 porque ele merece, ele quer ser médico…
Os jovens médicos saem às fornadas das universidades, todos os anos. Muitos exprimem-se na língua materna com dificuldade, não tiveram tempo de aprender, nem de escrever, nem de falar porque só se dedicaram à Biologia, à Fisica e Química e à Matemática. Muitos não têm nenhuma sensibilidade para entender outros seres humanos, só se conhecem a eles e não tiveram tempo para camaradagens. Muitos não têm cultura geral. Como ficaram no quarto a decorar os ossinhos todos do corpo humano, não viram um filme, não leram nenhum livro para além dos do curso, nunca visitaram um museu, uma exposição de arte ou assistiram a uma peça de teatro.
Haver um excesso de médicos em Portugal é muito triste porque esta realidade mostra até que ponto este país é visto como miserável pelos próprios Portugueses que se atropelam em cursos orientados para servir os outros e, infelizmente, cresceram no curso a pensar no quanto iam ganhar e não no quanto iam ajudar.
É por estas razões que os países mais desenvolvidos, mais democráticos e mais estáveis financeiramente não têm excesso de médicos: não precisam de tantos médicos e os seus jovens são mais livres de escolher uma outra profissão porque não crescem em meios familiares aflitos com dívidas às finanças e aos bancos que lhe deram crédito, nem precisam, em sociedades mais igualitárias e menos preconceituosas, de alcançar estatuto social pela pertença a um grupo profissional.
Mais literatura, menos rotina
À literatura pertencem os textos que recriam a realidade com as palavras que fazem parte do código linguístico que partilhamos e com o qual comunicamos com os outros; recriar a realidade parte do pressuposto de que existe uma realidade objectiva de que qualquer um de nós tem cabal conhecimento e que o texto se torna literário ao construir-se a partir desse patamar constituído pela tal realidade que nos é familiar. Mas o facto é que a realidade dita objectiva é possivelmente uma ilusão dos nossos sentidos e por isso em lugar de uma realidade consensual, deparamos com várias realidades, tantas quantos os olhares dos sujeitos que observam o mundo circundante já que cada um de nós tem sobre o mundo e o lugar que nele ocupa, uma perspectiva diferente.
A magia do texto literário reside na capacidade de nos fazer ver o mundo que julgamos perfeitamente explorado, de uma outra maneira; nesse momento, não raras vezes precedido de um desconfortável estranhamento, o horizonte familiar abre portas desconhecidas e segue-se o deslumbramento sentido face a algo novo, algo de cuja existência nunca suspeitáramos.
I
Avé-Marias
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
………………………………………………………
O Sentimento dum Ocidental, Cesário Verde
Cesário Verde, o poeta que gostava de deambular pela cidade de Lisboa, deixou registado, nestas duas estrofes que iniciam o longo poema intitulado O Sentimento dum Ocidental, o modo como vê a capital ao entardecer. Não descreve a cidade enquanto espaço físico, mas sim as impressões que esta lhe faz sentir: a cidade torna-se, ao entardecer, num espaço tristonho, escuro e depressivo que faz nascer no poeta caminhante «um desejo absurdo de sofrer», possivelmente porque a morte é encarada como fuga possível à prisão que Lisboa lhe parece ser.
Os vocábulos que sugerem percepções sensoriais visuais, auditivas e até olfactivas fazem-nos visualizar a realidade descrita tal como ela é vista pelo sujeito observador-sofredor que o poeta é quando se serve do que é visível (as ruas, as sombras, o Tejo, …) para falar da sua angústia de homem desajustado de um espaço citadino que fere a sua sensibilidade e até os seus sentimentos patrióticos, como sugere a referência à «cor monótona e londrina».
Poderemos dizer que Lisboa não é «assim», mas o que tomamos por realidade resulta sempre do olhar que sobre ela projectamos e não há outra realidade para além dessa que somos capazes de ver. Por isso, lendo as estrofes do belíssimo poema de Cesário Verde, saímos de nós, abandonamos a visão estereotipada da capital (se por acaso a temos) e sofremos com o poeta nessa cidade que conhecemos e não conhecemos já que a escrita poética nos mostra uma cidade até ao momento desconhecida, agora desvendada graças à partilha com os leitores desta aventura na cidade de Lisboa cujas ruas, apesar de «nossas» e familiares, mostram os seus segredos pela mão talentosa de Cesário Verde.
Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente (…)
Chegavam às primeiras casas de Sintra, havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.
E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas de sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos (…)
Os Maias, Eça de Queiroz, Edições Livros do Brasil, Lisboa (excerto)
A luminosidade da cidade ao amanhecer é sugerida por expressões como «lindo sol», «toda azul e branca», «sem uma nuvem», «claridade dourada»; a claridade da manhã sugere a boa disposição dos amigos viajantes (Carlos e Cruges) que se preparam para deixar a capital, espaço da corrupção, mentira e hipocrisia social; opostamente, Sintra é um espaço natural ainda não manchado pela acção humana e no qual o homem pode regressar às suas raízes, ao convívio reconfortante e regenerador com a mãe-natureza.
A beleza natural da serra de Sintra é descrita como se de um espaço sagrado se tratasse, um local perfeito, harmonioso, paradisíaco e cuja beleza e grandiosidade emudece os dois amigos, impressionados por um cenário natural acolhedor, silencioso, pacífico, puro e no qual os 4 elementos naturais principais (ar, água, terra e fogo) convivem em perfeita harmonia.
Será difícil não acompanhar Carlos e Cruges neste passeio a Sintra e, fazendo-o, possivelmente vamos emudecer também diante de uma paisagem de sonho pintada com tal delicadeza que nos deixa comovidos, não porque sejam raras as paisagens idílicas por esse mundo fora, mas porque nenhuma outra é igual a esta.
Não adormeceu, tem os olhos muito abertos, envolvido na penumbra como um bicho-da-seda no seu casulo, Estás só, ninguém o sabe, cala e finge, murmurou estas palavras em outro tempo escritas, e desprezou-as por não exprimirem a solidão, só o dizê-las, também ao silêncio e ao fingimento, por não serem capazes de mais que dizer, porque elas não são, as palavras, aquilo que declaram, estar só, caro senhor, é muito mais que conseguir dizê-lo e tê-lo dito. (…)
Assustei-me um pouco quando ouvi bater, não me lembrei que pudesse ser você, mas não estava com medo, era apenas a solidão, Ora a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Deixemos a árvore, olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário é estar onde nem nós próprios estamos, Está hoje de péssimo humor, Tenho os meus dias, Não era dessa solidão que eu falava, mas doutra, esta de andar connosco, a suportável, a que nos faz companhia, Até essa tem que se lhe diga, às vezes não conseguimos aguentá-la, suplicamos uma presença, uma voz, outras vezes essa mesma voz e essa presença só servem para a tornar intolerável (…)
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago, Editorial Caminho, 1984 (excertos)
Expressar o que sentimos é difícil. Sabemos que sentimos, sabemos que sabemos e constatamos, desolados, que isso que sentimos e isso que sabemos só pode ser imperfeitamente expresso por palavras pela razão de que elas têm uma missão social, existem as mesmas para todos e cada um de nós, apesar das nossas diferenças, é com elas que comunica a sua singularidade.
Este excerto do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis fala da solidão sentida por Ricardo Reis, o poeta que se esforçou por verbalizar esse sentimento que lhe mina o quotidiano e que tem consciência do fosso existente entre o que se passa no seu íntimo e a incapacidade da língua para o traduzir em palavras porque elas não são, as palavras, aquilo que declaram, estar só, caro senhor, é muito mais que conseguir dizê-lo e tê-lo dito.
Será talvez esta solidão indizível, a mais devastadora pela razão de que é incomunicável e, sendo-o, produz uma clivagem não só no interior do sujeito que a sente como também entre ele e os outros, esses que nunca o hão-de compreender, por muito que tente abrir o «casulo» em que vive irremediavelmente fechado. Como lhe lembra Fernando Pessoa, visitante frequente da casa de Reis, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós.
Vivemos num tempo em que falar de solidão se tornou uma banalidade, mas as banalidades que dizemos, ouvimos e lemos sobre isto em nada ajudam a fazer-nos compreender o que sentimos, se nos sentimos sós ou o que sentem os outros, se são eles quem sente a solidão; pelo contrário, a leitura deste romance do José Saramago convida o leitor a reflectir sobre o mais negativo dos sentimentos e suas consequências. A leitura de obras literárias, seja esta, sejam outras, não promete curas milagrosas para nenhum drama humano, mas promete (e cumpre) o enriquecimento da nossa pessoa a nível intelectual e emocional, o enriquecimento linguístico, o desenvolvimento da nossa imaginação, enfim, torna-nos mais humanos e isto significa mais capazes de nos sentirmos e de sentir os outros, mais aptos a entender a nós e ao mundo.
O drama de Ricardo Reis
A passagem do tempo é, para Ricardo Reis, uma realidade aterradora porque o tempo flui indiferente à vontade do poeta em permanecer vivo eternamente, tal como os deuses do Olimpo, cuja imortalidade inveja; Cronos, o deus grego do tempo «devora» os seus filhos e nenhum ser vivo lhe resiste, faça ele o que fizer para escapar ao mais certo dos destinos.
A passagem contínua do tempo é sentida por Reis como uma injustiça da natureza porque encurta, hora após hora, o seu tempo de vida e transforma em recordação os momentos felizes passados com Lídia ou Neera nos cenários campestres que Reis, graças às lições de mestre Caeiro, aprendeu a fruir também. Reis olha os campos que o rodeiam desolado, não só porque a cada dia que passa se aproxima aquele em que deixará de fruir a natureza circundante, mas também porque o contínuo fluir temporal tudo altera, nada permanece idêntico ao que já foi; Heraclito tinha razão quando afirmou que ninguém se banha no mesmo rio duas vezes: nem o rio é o mesmo, nem é o mesmo quem nele se banha. Reis emprega frequentemente a metáfora do rio para falar da passagem do tempo:
«Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).»
Ricardo Reis ambiciona viver «sossegadamente», mas há um obstáculo que tem de contornar: o medo da morte que a passagem do tempo prenuncia. Sendo um poeta reflexivo, raciocinador e amante da cultura clássica greco-latina, procura ansiosamente uma libertação para o sofrimento que a passagem do tempo nele provoca, na leitura das odes do poeta latino Horácio e nos princípios defendidos pelos filósofos epicuristas e estóicos. Sob influência de Horácio defende o «carpe diem», o prazer do momento porque quem vive intensamente o presente, esquece o passado e não pensa no futuro; também, imitando Horácio, decide viver para o cultivo das suas rosas, deliciar-se com o vinho e a companhia de mulheres belas, recusar a participação na vida pública e isolar-se no campo, bem longe das cidades barulhentas.
Com os filósofos epicuristas e estóicos aprende a sossegar a mente através da prática da ataraxia ou ausência de qualquer perturbação face aos imprevistos da vida, positivos ou negativos. O caminho para a ataraxia diferia em ambas as escolas filosóficas mas o objectivo pretendido era idêntico: tornar o homem feliz livrando-o da influência perturbadora das contingências da vida. O segredo para a felicidade que ambas as escolas filosóficas propunham aos homens e mulheres do seu tempo residia na conformidade entre o homem e a natureza, no investimento pleno no «aqui e agora» e na capacidade de auto-domínio resultante de treino mental; os estóicos sabiam que ninguém tem poder para alterar os infortúnios que acontecem a todos ao longo da vida, mas, diziam, se não podemos alterar os acontecimentos, podemos mudar a perspectiva a partir da qual os analisamos. Este é o princípio fundamental do «sábio» estóico e explica a sua independência relativamente a tudo o que lhe acontece na vida porque não permite que nada o afecte, tornando-se, assim, «rei» de si próprio, um ser independente que aceita com indiferença a vida tal como ela se lhe apresenta, sem distinguir entre «bom» e «mau».
Reis tentou gerir o medo da passagem do tempo e da morte a ela associada através do recurso aos princípios epicuristas e estóicos; na ode que dedica a Caeiro, afirma, na 2ª estrofe:
«Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver.»
E noutra ode, escreve:
«Não tenhas nada nas mãos
……………………………….
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.»
No entanto, por muitas leituras filosóficas que tenha feito, por muito que tenha tentado imitar a alegria de viver que o poeta Horácio evidencia nas suas odes, Ricardo Reis vive amarguradamente a passagem do tempo e aterroriza-o a ideia da morte. A certeza de «O pouco que duramos», «a hora fugidia», a opressão que nele desencadeia a ideia de «entrar pela noite dentro» são mais fortes que as leituras dos filósofos que dedicaram a vida à busca do prazer de viver e, por isso, Ricardo Reis vê-se como um joguete nas mãos de um destino que não escolheu e para o qual não encontra saída possível:
«Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem
E nós não desejamos.»
Está muito longe da independência mental defendida pelos estóicos e o prazer que, segundo os epicuristas, a natureza lhe devia proporcionar a ponto de “estancar” ou pelo menos reduzir o sofrimento de viver, também não produz o efeito desejado. Ricardo Reis é incapaz de esquecer o tempo e a morte; torna-se um poeta pessimista, abúlico e melancólico a quem nada no mundo interessa porque a passagem inexorável do tempo e a certeza da morte minam todos os momentos da vida a ponto de lhe fazerem desejar a «sorte» dos mortos, dos que foram obrigados a desistir da luta contra o tempo:
«Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem na húmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.
Verta Éolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Lance Neptuno, em cheias mãos, ao alto
As ondas estoirando.
Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,
Não sabe que os seus passos vão cobrindo
O que podia ser,
Se a vida fosse sempre a vida, a glória
De uma beleza eterna.»
Álvaro de Campos no Exame de Português de 2011
Vou deixar aqui algumas sugestões de análise do poema de Álvaro de Campos que saiu hoje, dia 20 de Junho, no Exame Nacional de Português, considerando apenas as questões que foram colocadas pelos autores do exame.
O poema de Álvaro de Campos foi este:
Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.
As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.
As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.
Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta –
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.
Que grande felicidade não ser eu!
Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.
Nada? Não sei…
Um nada que dói…
Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Assírio e Alvim, 2002
A pergunta nº1 pedia duas sensações representadas nas quatro primeiras estrofes.
Nas estrofes apontadas, há a registar sensações (expressões e vocábulos sugestivos de percepções sensoriais) ….
visuais: «Moram ali pessoas (…) que já vi (…)»; «As crianças, que brincam às sacadas altas,/ Vivem entre vasos de flores»;
auditivas: «As vozes que sobem do interior doméstico,/ Cantam sempre, (…)/Sim, devem cantar.// Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.» (visuais e auditivas).
Na pergunta nº2, pede-se aos alunos para caracterizarem o tempo da infância tal como é apresentado na terceira estrofe do poema.
A infância é considerada pelo sujeito poético observador, como uma fase da vida marcada pelo prazer de viver e pela despreocupação face ao futuro; a plenitude existencial que é associada à infância é sugerida pela referência às brincadeiras das crianças nas «sacadas altas», embelezadas com «vasos de flores», expressão que conota os aspectos afáveis da vida e a ausência de obstáculos a enfrentar, visto que as crianças «Vivem entre vasos de flores», isto é, sendo inocentes, desconhecem as agruras que a vida apresenta aos adultos; e, devido a essa ingenuidade infantil, crêem que a alegria sentida no presente em que brincam se irá eternizar, razão pela qual não a questionam: « Sem dúvida, eternamente». As formas verbais empregues no presente do indicativo («brincam» e «vivem») sugerem o carácter intemporal e universal da crença na vida e visão positiva da mesma por parte das crianças já que a pouca experiência de vida de que dispõem não lhes ensinou mais nada. O tempo da infância caracteriza-se, portanto, pelo prazer de sentir e agir livremente, pela espontaneidade, pela ligeireza e despreocupação, pela inocência, pela fé no futuro, enfim, pela alegria de viver.
Na pergunta nº3, pedia-se aos alunos para explicarem a relação que o sujeito poético estabelece com «os outros», tendo em consideração as 6 primeiras estrofes do poema. A explicação deveria ser fundamentada com excertos textuais, como sempre acontece.
Ao longo das estrofes apontadas, o sujeito poético estabelece uma oposição entre ele próprio e «os outros»; assim, «os outros», grupo humano de que fazem parte crianças e adultos e cuja felicidade é exteriorizada quer através das brincadeiras despreocupadas das crianças na varanda quer através do tom melodioso das vozes que se ouvem na rua quer pela integração harmoniosa desses «outros» no espaço físico e social em que se inserem:
«Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta –
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.»
Assim, o homem, a natureza e a cidade são vistos como parte de um Todo harmonioso e propiciador de felicidade já que a interacção entre as «partes» do Todo é positiva.
A ideia da suposta felicidade alheia nasce do desconhecimento que o sujeito poético tem sobre a vida d’ «os outros»: «Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.» Os «outros» foram observados distraidamente e por isso, embora tenham sido objecto do olhar do Eu, não foram «vistos» na medida em que não foram alvo de uma observação atenta, crítica, imparcial e, sobretudo, interessada; o reconhecimento deste facto, leva o sujeito poético a auto- corrigir-se: «que já vi mas não vi»;
O grupo humano detentor da suposta felicidade que o sujeito poético lhe atribui não existe porque resulta de um acto de imaginação do Eu que, desajustado de si próprio e da vida, projecta nos outros os sentimentos positivos de que carece. Os advérbios de tempo «sempre» e «eternamente» contribuem para reforçar a ideia de que não só a felicidade alheia resulta da capacidade de idealizar realidades diferentes daquela que vive no seu íntimo, como também deixa transparecer a necessidade de perspectivar uma realidade sonhada, como contraponto ao vazio existencial que o habita. «Os outros» valem, portanto, como espaço no qual se projecta o desejo de recuperação do paraíso perdido, tempo de harmonia existencial que ficou confinado ao tempo da infância e a racionalidade e a lucidez fizeram perder.
Por outro lado, «os outros» e a felicidade que parecem ter aos olhos do sujeito poético, propiciam a mágoa de não ser como eles: «São felizes, porque não são eu.» E a lucidez do sujeito poético, se por um lado lhe permite ostentar uma pose de certa altivez relativamente ao «vulgo» incapaz de «ver» o sem-sentido da existência, por outro lado, está na base da depressão, do pessimismo que caracteriza a obra poética de Campos, na 3ª fase. Assim, consciente da falsidade do cenário idílico em que envolveu «os outros» (idílico porque desajustado da realidade), o sujeito poético exclama ironicamente:
Que grande felicidade não ser eu!
O tom irónico desta frase exclamativa sugere, por um lado, o prazer de se saber imune a sonhos e desejos impossíveis (como o de ser feliz) e a distância intelectual que o separa dos «outros», aqueles que poderão ser “contaminados” pelo conceito de felicidade, devido ao facto de serem menos lúcidos, reflexivos e pensadores e de, em consequência, aceitarem o que têm sem o pôr em causa. Mas, por outro lado, a frase exclamativa sugere também que se trata de uma auto-ironia, isto é, reconhece que o sentimento de felicidade lhe está interdito e que a única maneira de sentir um arremedo de felicidade é apenas possível enquanto acto de imaginação e com outros actores e num outro espaço:
Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!
A pergunta nº4 do exame pedia aos alunos para relacionarem o conteúdo da última estrofe com as reflexões apresentadas nas duas estrofes anteriores.
Nas duas estrofes anteriores, o sujeito poético nega a existência dos «outros»:
Quais outros? Não há outros.
Não nega «os outros» em termos de existência física, mas pelo facto de que cada ser humano é prisioneiro de si próprio e, consequentemente, sempre que olhamos para os outros, é a nós que continuamos a ver. «Os outros» são, por isso, desconhecidos no que respeita ao modo como vêem a vida e a modo como a sentem. Como a osmose eu-eles é impossível, atribuímos os sentimentos aos outros que somos ou fomos capazes de sentir; por isso,
Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós.
Sendo impraticável aceder à realidade íntima dos outros, eles são, metaforicamente, «uma casa com a janela fechada». A imagem sugere fechamento, mistério, algo impossível de conhecer na sua verdade profunda e do qual apenas conhecemos aquilo que é exteriorizado:
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Portanto, cada ser humano sente de modo singular: «Até eu, que neste momento não estou sentindo nada»
Mas esta afirmação dá lugar à dúvida expressa na última estrofe: «Nada? Não sei…» porque o sujeito poético sabe que é precisamente na capacidade de sentir que encontra matéria para os seus poemas e ainda porque não sentir nada é sentir alguma coisa como, por exemplo, o desejo de se sentir feliz, por muito inacessível que lhe pareça. E, aliás, só vê a felicidade alheia quem é incapaz de a viver no seu íntimo. Assim, as reticências poderiam ser substituídas por expressões e vocábulos tais como nostalgia do paraíso perdido, ânsia de absoluto, desejo de unidade interior, capacidade de adaptação à vida,… nenhuma destas metas foi ainda atingida; e, por muito que a sua lucidez e racionalidade de pensador lhe ensinem que as metas anteriormente mencionadas não são mais que sonhos inalcançáveis, a verdade é que é precisamente a falta destes «nadas» que magoa o sujeito poético:
Um nada que dói…
Amigos indesejáveis
Hoje em dia, muitas pessoas de ambos os sexos procuram encontrar «alguém» em «dating sites» ou sítios de amigos para sessões de chat online, troca de mensagens, enfim, os objectivos variam de acordo com os interesses dos surfistas da internet. A procura de «dating sites» parte, muitas vezes, da necessidade de expandir os conhecimentos por esse mundo fora e nada melhor que o recurso à internet para o fazer: é rápido, é barato ou, pelo menos, bastante acessível à maioria das bolsas, é seguro, é anónimo e é prático (não é preciso sair de casa para travar conhecimento com aquela ou aquelas pessoas que vivem em países longínquos e que parecem tão amigáveis, tão interessantes; quando nos fartamos da conversa, basta um clic e pronto! No que respeita aos e-mails, esses podem se lidos e respondidos em qualquer altura do dia, semana, mês, etc.)
Mas procurar «alguém» para conversar ou para um flirt online ou para troca e partilha de informações sobre os mais diversos assuntos pode trazer dores de cabeça àquele(a) que encontrou a a tal pessoa fantástica ou interessante ou sedutora como poucas/nenhumas e à qual vai doravante atribuir alguma importância, dependendo o grau desta da resposta que o(a) amig0(a) online foi capaz de dar às necessidades de quem decidiu dar-lhe esse estatuto de amigo(a) online, evidentemente.
As necessidades de quem busca comunicar com desconhecidos na internet variam e pouco têm a ver com o real grau de inserção social dessa pessoa, isto é, não é o facto da pessoa A ter um marido (mulher, namorado(a)), ter muitos amigos (as), o suporte emocional de uma família e um emprego que a levará a afastar-se dessa busca. Esta tem frequentemente raiz na necessidade sentida por alguém em contactar com realidades diferentes das conhecidas, no desejo de aventura, no gosto pelo risco que vai aligeirar a monotonia diária, na curiosidade em saber como outras pessoas vivem, que mentalidade têm, como vêem a sociedade que integram, que valores defendem, etc. No entanto, parece-me que são as pessoas que sofrem de alguma ou muita instabilidade emocional aquelas que mais assiduamente procuram conhecer outras através da internet, recorrendo a sites de amizades online, portugueses e estrangeiros. Devido à urgência destas últimas em encontrar alguém que responda às suas necessidades emocionais (desejo de serem ouvidas, compreendidas, aceites, amadas, respeitadas em função daquilo que efectivamente são ou pensam ser, integrar uma comunidade de pessoas com interesses na vida afins, etc.) tornam-se o alvo fácil de actividades fraudulentas por parte de receptores pouco ou nada escrupulosos que parecem quase sempre inocentes e bem intencionadas.
Desconfie de quem lhe dá o endereço de e-mail pouco depois de o/a ter conhecido online e ainda mais daqueles/daquelas que querem falar consigo de imediato, sobretudo se o chat for no Yahoo (o Yahoo congrega grande parte dos homens e mulheres que se dedicam a fraudes online, no planeta; não estou a dizer que todas as pessoas com endereços de e-mail no Yahoo se dedicam a fraudes, mas que estas gostam do Yahoo não há dúvida, sobretudo no caso de pessoas estrangeiras; mas também há endereços de e-mail de gente cuja profissão é defraudar outros no Gmail, Hotmail, etc. Consulte aqui a lista conhecida (uma parte dela…):
http://www.419baiter.com/_scam_emails/scammer-email-addresses_0001.html
A lista de endereços de e-mail que este site lhe oferece é um dos vários à disposição para consulta, fornecidos pelas «vítimas» das pessoas que pareciam boazinhas e afinal queriam saber o seu número de conta, ficar com o seu e-mail, enviar-lhe spam, fazer-se passar por desgraçadinho e pedir-lhe ajuda monetária … enfim, os métodos variam mas o objectivo é o mesmo. Outros endereços que aconselho a visitar:
http://www.fraudes.org/showpage1.asp?pg=67
http://alexandreconte.blogspot.com/2011/06/e-mails-de-fraude-usam-o-iphone-5-como.html
Habitualmente estas pessoas que se dedicam à fraude na internet recorrem a endereços de IP anónimos (recorrem a proxies anónimos e se quiser saber quem lhe enviou aquele e-mail do qual desconfia é possível que o endereço se situe em pleno oceano Atlântico…); se quiser saber a origem dos e-mails que lhe foram enviados por pessoas que não conhece pessoalmente e cuja identidade lhe parece duvidosa, pode consultar este site:
http://www.ip-adress.com/ip_tracer/
Não só fica a saber qual é o seu endereço IP, caso ainda o desconheça, como também poderá verificar a localização do IP da mensagem que lhe foi enviada. Para obter o IP e saber o que esta sigla significa, consulte o site seguinte, um dos muitos à disposição que lhe explicam muito melhor que eu o significado do IP (o endereço a partir do qual acede à internet):
http://pt.kioskea.net/contents/internet/ip.php3
Se quiser saber o que é isso de servidores «proxy», consulte o site seguinte:
http://www.forum-hacker.com.br/forum/showthread.php/47547-Anonimato-Lista-de-proxy
Nota: a tradução portuguesa deste último site que lhe indiquei é péssima, mas entende-se…
Fica a perceber como é fácil esconder os dados pessoais (IP + verdadeira localização do autor do e-mail que recebeu) e, já agora, se também deseja tornar-se anónimo na internet, poderá encontrar aqui uma lista de servidores proxy para o conseguir); o recurso aos servidores proxy apresenta a vantagem do anonimato na rede, mas também explica por que razão o seu «amigo(a)» online vive num local estranho para humanos como, por exemplo, em pleno oceano ou o leva a acreditar que lhe escreve dos Estados Unidos quando, na verdade, se encontra na Nigéria ou no Gana…
Para aceder a estas informações acerca do e-mail que recebeu e do qual desconfia (ou talvez ainda não) tem que visitar as «traseiras» do e-mail que lhe enviaram, isto é, o cabeçalho (o «header», em inglês); é lá que está a verdade acerca da origem do seu e-mail ainda que os cabeçalhos falsos também proliferem; de qualquer modo, há sinais registados nos cabeçalhos ou headers que permitem concluir acerca das intenções de quem os envia, por muito agradáveis que os textos dos e-mails lhe pareçam; para aceder aos cabeçalhos/ headers no Gmail, clique em «responder» e depois em «mostrar original»; se tiver uma conta no Hotmail, clique em responder e depois em «mostrar origem»; para encontrar o cabeçalho/ header no Yahoo:
http://help.yahoo.com/l/br/yahoo/mail/yahoomail/basics/basics-31.html
No cabeçalho ou header pode encontrar informações surpreendentes como o facto de que a mensagem que lhe foi enviada ter passado por muita gente, visto que há vários endereços de IP no cabeçalho; a questão é esta: quem lhe enviou a mensagem? Imaginemos que encontrava algo parecido com isto:
Received: from nm10.bullet.mail.sp2.yahoo.com (nm10.bullet.mail.sp2.yahoo.com [98.139.91.80])
by mx.google.com with SMTP id f2si528236fah.120.2011.05.28.09.41.57;
Sat, 28 May 2011 09:41:58 -0700 (PDT)
Received-SPF: pass (google.com: best guess record for domain of nova_scape7@yahoo.com designates 98.139.91.80 as permitted sender) client-ip=98.139.91.80;
Authentication-Results: mx.google.com; spf=pass (google.com: best guess record for domain of nova_scape7@yahoo.com designates 98.139.91.80 as permitted sender) smtp.mail=nova_scape7@yahoo.com; dkim=pass (test mode) header.i=@yahoo.com
Received: from [98.139.91.66] by nm10.bullet.mail.sp2.yahoo.com with NNFMP; 28 May 2011 16:41:56 -0000
Received: from [98.139.91.43] by tm6.bullet.mail.sp2.yahoo.com with NNFMP; 28 May 2011 16:41:56 -0000
Received: from [127.0.0.1] by omp1043.mail.sp2.yahoo.com with NNFMP; 28 May 2011 16:41:56 -0000
X-Yahoo-Newman-Property: ymail-3
X-Yahoo-Newman-Id: 665398.62416.bm@omp1043.mail.sp2.yahoo.com
Received: (qmail 47113 invoked by uid 60001); 28 May 2011 16:41:55 -0000
DKIM-Signature: v=1; a=rsa-sha256; c=relaxed/relaxed; d=yahoo.com; s=s1024; t=1306600915; bh=bkGcPv00tSfNrzthxO1pBj4pR1LaruxYOyxDaYW9GwI=; h=Message-ID:X-YMail-OSG:Received:X-Mailer:Date:From:Subject:To:MIME-Version:Content-Type; b=eOVZ88gSyBlTi/qRHLmky/WF0/fYyye/ZfG/ZTK9+wnANv5o9ofHGJpuDP83p7tNe7Q/MlZBQlnKV9bedJo7Xp0K0fZr/d4Ag9TD0Kk0uhIKKiS+7oqXy07WAtXbLyZEMpReA0SbbUo0eWfB802wzwlDF0c81/uzMqIHpg0+arM=
DomainKey-Signature:a=rsa-sha1; q=dns; c=nofws;
s=s1024; d=yahoo.com;
h=Message-ID:X-YMail-OSG:Received:X-Mailer:Date:From:Subject:To:MIME-Version:Content-Type;
b=ogQQU/uzd1N5gsZqf9SCIYuIKAHgdAHHjUTZfOsBJ12R9ARWmhJYrtJSdwFYR5+OXBTJBPqRdXQrVaUwsePKhAdueEr1zvpy1KHOTmo4spgHA9GJ8qhTxpKbhmX4Qse4FHQQeYXeJJTMlCU2w1fRqa6C8psIfF5AU+spnpY0Gos=;
Message-ID: <867754.45144.qm@web111416.mail.gq1.yahoo.com>
X-YMail-OSG: MYVhVEAVM1l_aAkj7pxuaOWePNWidEnHCOJ2LlK_G5XwxNz
L8Bw33zoxbF_Rh0Mxy6WgTsov0D_EMC96hseBQWxK1JvE5bbhtgb0symrL6K
F7CM9264zs9Q6fPmbQfhLzgd94pybYX1Bn74hXicH4rK8uQHHGT9le4dJzJQ
LAxi9CPQ5ZuxmKMxycuTUJkGUyxPumj6fe2YxrNiK_SDa7pVXOaurlP6yOf7
7lC.jCwBSTrUJNCGj0ztmTr0xTm6URSc2WoRs9PQQ6RZIe4CMWxVH2wDsXmW
kQF3yezRA7gT5CSwgBG1.K90Kna3M2s8WRNJbLtqpbd87GXE10.YQzMgVbFj
7Ofz7yrRfE81LIhLizM.8Oin7ah0-
Received: from [68.35.226.177] by web111416.mail.gq1.yahoo.com via HTTP; Sat, 28 May 2011 09:41:55 PDT
X-Mailer: YahooMailClassic/14.0.1 YahooMailWebService/0.8.111.303096
Date: Sat, 28 May 2011 09:41:55 -0700 (PDT)
Os endereços de IP estão entre parênteses rectos e são diferentes porque cada IP pertence a diferentes computadores; normalmente, o cabeçalho deve ser lido de baixo para cima e portanto o IP verdadeiro seria o último da lista, mas tenho dúvidas porque as pessoas que enviam e-mails deste tipo sabem isso e não estão interessadas em tornar a sua identidade conhecida. Para além disso, esta linha (h=Message-ID:X-YMail-OSG:Received:X-Mailer:Date:From:Subject:To:MIME-Version:Content-Type;) diz o quê? Nada que se perceba. Caso queira fazer de detective e verificar a localização destes IPs, pode facilmente satisfazer a sua curiosidade em vários sites, como, por exemplo, este:
http://www.ip2location.com/emailtracer.aspx
O que tem a fazer é colar o cabeçalho da sua mensagem de e-mail no rectângulo e esperar alguns segundos para obter a localização do IP ou dos IPs, se forem vários. No entanto deve ter em atenção o seguinte: os endereços que lhe são fornecidos por este ou outro site não significam que a pessoa que lhe escreveu viva nessa região ou país porque o IP ou Ips podem ter sido atribuídos por servidores proxies; neste caso, a pessoa pode jurar que vive no Reino Unido e o IP confirmar essa localização, mas viver, de facto, noutro país qualquer.
Há uns meses atrás, uma amiga minha estabeleceu uma relação de amizade online com um homem que dizia viver na Escócia; a amizade entre ambos desenvolveu-se a partir do dia em que o pretenso escocês lhe enviou um e-mail no qual mencionava a vida triste que tinha desde que a sua mulher morrera de cancro, dois anos antes; para além desta desgraça, acresce que o senhor ficou com uma filha de 8 anos, miúda que ele ia criando com algumas dificuldades pelo facto de ser um homem «tradicional», pouco habituado a lides domésticas e a entender as necessidades afectivas de uma criança do sexo feminino. Ora bem, este homem, que na verdade ninguém sabe se efectivamente o é, teve o desplante de falar à minha amiga na sua vida passada em… Vila Real de Trás-os-Montes! Como foi um escocês parar a Vila Real na infância e anos depois fazer amizade com uma mulher portuguesa que vive no norte? Exactamente, parece estranho, mas apenas para aqueles que se esquecem de que através de um motor de busca como o Google, por exemplo, é facílimo dizer coisas acertadas sobre qualquer lugar do planeta! É só procurar e a informação está disponível, seja sobre Vila Real seja sobre o lugar mais remoto de um país qualquer. Mas como este homem sabia o que estava a fazer, após ter percebido que a minha amiga era católica, não hesitou em dizer que conhecia bem Fátima e que até tinha feito promessa de ir lá quando encontrasse uma «nova» mãe para a filha… ora bem, a minha amiga, viúva, tal como o seu amigo online, teve a «sorte» de encontrar no mundo intrincado da net um homem escocês, é certo, mas que tinha passado a infância em Portugal por motivos desconhecidos (não teve tempo para arranjar uma explicação decente para isto) e que, além disso, era devoto de Nossa Senhora de Fátima… era, aliás, no Santuário de Fátima que desejaria casar de novo caso fosse «abençoado» com uma «esposa fiel, compreensiva, alegre, de confiança e atraente» como a era a minha amiga, a mãe perfeita para a filha de um escocês desesperado que não teve pejo em afirmar que «quem quiser encontrar mulheres fiéis e submissas na Europa, deve concentrar a busca em… Portugal»!
Bom, seguiram-se semanas de chat no Messenger e, claro está, as «afinidades» entre ambos foram endo cada vez maiores. Um belo dia, o escocês informou a minha amiga de que tinha que partir para a Nigéria… enfim, tratava-se de uma viagem imprevista mas que podia ele fazer? Era construtor civil (muitos destes indivíduos que escolhem práticas fraudulentas dizem trabalhar na construção civil) e tinha um projecto de construção de uma ponte na Nigéria… pouco tempo após ter chegado à Nigéria, telefona à minha amiga para a informar de que a filha tinha sido raptada e que os raptores exigiam uma avultada soma de dinheiro para a restituir ao pai, com vida.
O resto desta história é fácil de adivinhar: a ajuda financeira pedida à minha amiga deveria ser enviada através do Western Union, banco líder mundial nas transferências de dinheiro. Foi só a partir do pedido de resgate que ela percebeu que estava a ser alvo de fraude; o dinheiro pedido pelo escocês (afinal um nigeriano) nunca chegou a partir, mas o desgaste emocional que esta história provocou na vida da minha amiga, esse, ficou para sempre.
A sociedade portuguesa após 1850: a época da Regeneração
A partir de meados do século XIX, Portugal é governado por um movimento político conhecido pelo nome de Regeneração. Trata-se de um período que vai de 1851 até à implantação da República, em 1910.
A Regeneração ou o movimento político regenerador divide o século XIX em 2 partes distintas: separa o período das ideias revolucionárias que caracterizam a época do chamado 1º Romantismo (cujos expoentes máximos na literatura portuguesa foram Alexandre Herculano e Almeida Garrett), época esta dominada pela instabilidade política, social e económica, da época seguinte – a Regeneração – caracterizada pela estabilidade associada ao pré-industrialismo.
Os políticos regeneradores pretendiam, numa 1ª fase, aproximar Portugal, país atrasado a todos os níveis relativamente aos restantes países europeus, do progresso que se fazia sentir “lá fora”; no entanto, essas tentativas de modernizar o país foram, em geral, malogradas e o progresso apregoado pelos políticos, mais aparente que real visto que se limitou à construção de linhas férreas que agora ligavam Portugal à Europa e ao desenvolvimento dos transportes, em geral.
A verdade é que os políticos regeneradores foram sobretudo demagógicos na medida em que prometeram uma nova era de «bem-estar para todos» à burguesia descontente com a lenta evolução das estruturas económicas da altura, que não passou de miragem devido à elevada corrupção existente entre os políticos nacionais. Assim, os deputados, divididos em dois grandes partidos constitucionais, ignoravam comodamente o estado da nação e, recrutados entre engenheiros, doutores, professores e bacharéis, iludiam o povo com banalidades porque sabiam argumentar a seu favor e deturpar, através de um discurso rebuscado, as maiorias iletradas, contribuindo para a centralização política e administrativa do país.
A nível económico, Portugal estava dependente do empréstimo estrangeiro, sobretudo inglês, e a riqueza nacional aproveitava mais aos estrangeiros residentes no país do que aos portugueses. Consequentemente, o país caiu no marasmo económico, salvando-se apenas a burguesia capitalista.
A nível cultural, o pretenso progresso apregoado pelo movimento regenerador nada trouxe de novo, proporcionando, assim, a instauração da mediocridade entre os intelectuais apoiados pelo regime político do governo; neste clima degradado, o tédio invadia tudo e todos e a grande preocupação dos portugueses letrados da época era poder imitar o que se fazia no estrangeiro, sobretudo em França, país do qual Portugal estava dependente em matéria de moda, cultura e pensamento.
A política levada a cabo pelos regeneradores será alvo de ataques cerrados por parte de um grupo de jovens intelectuais formados em Coimbra e que farão parte da célebreGeração de 70, à qual pertenceu Eça de Queirós, entre outros nomes ilustres das Letras portuguesas.
Lisboa, séc. XIX
*«Chegara o momento em que a burguesia portuguesa, após trinta anos de confrontações políticas e ideológicas, num clima de grande instabilidade que forçosamente impediu um desenvolvimento do capitalismo em Portugal ao ritmo europeu, toma consciência da urgência de encontrar uma plataforma conciliadora dos interesses das várias classes detentoras do poder económico e uma forma de governo capaz de ser estável, de modo a viabilizar um projecto expansionista da economia nacional que permitisse o fomento material, necessário ao próprio avanço do capitalismo. (…) Havia que, de uma forma mais ou menos demagógica, encontrar uma fórmula nova para governar Portugal; essa fórmula, como bem notou Oliveira Martins, tem o seu modelo na França do Segundo Império (…) e chamou-se entre nós Regeneração. Havia que «regenerar» Portugal, dar-lhe ou fingir dar-lhe, vida nova, num espírito de concórdia nacional (…)
Rua lisboeta, séc. XIX
Paz política, conciliação nacional, estabilidade social são estes os pressupostos da acção regeneradora, o que obrigou a um certo esvaziamento ideológico da vida política, em favor da integração dos técnicos e dos especialistas (é o caso evidente de Fontes Pereira de Melo), esvaziamento consagrado, primeiro, no Acto Adicional à Carta de 1852, pela fusão de setembristas e cartistas no novo Partido Progressista e, depois, na chamada Fusão, em 1865, quando históricos e regeneradores admitem a inutilidade do rotativismo entre eles e se unem num partido único que visa apenas «melhoramentos materiais». (…) A política fontista de lançamento das grandes infra-estruturas de comunicação, caminhos-de-ferro e rede rodoviária – Fontes declara-se «fanático pelas vias de comunicação» – integrava-se, evidentemente, naquele objectivo ao facilitar o comércio interno, ao permitir a penetração das relações capitalistas no campo e ao terminar com os pequenos monopólios locais, o que não foi conseguido sem algumas resistências. (…) O fomento da rede de comunicação foi possível graças ao endividamento em relação ao capital estrangeiro, sobretudo inglês (…)
Fruto deste projecto político unanimemente aceite, assiste-se, de facto, durante os primeiros quinze anos da Regeneração, a uma certa expansão, quer industrial quer agrícola e a uma certa euforia do progresso e dos «melhoramentos materiais». (…) tendo conseguido um substancial aumento da riqueza colectiva, a verdade é que a riqueza criada aproveitava apenas a estrangeiros, ou então, a uma estreita camada de privilegiados e não à Nação no seu conjunto (…)
Uma política de tão grande dependência em relação a Inglaterra fazia de Portugal e, particularmente, do nosso império colonial, presa fácil da ganância britânica, num momento em que as potências capitalistas se lançavam avidamente na partilha de África, em busca de novos mercados e de matérias-primas. É assim que o Ultimatum de 1890 e a crise política e nacional que se lhe seguiu não constituiu uma surpresa para os espíritos mais lúcidos. (…)»
*As Máscaras do Desengano, Isabel Pires de Lima, ed. Caminho, 1987 (excerto)
a 2ª Geração Romântica (o ultra-romantismo)
Imagem alusiva ao poema ultra-romântico “O Noivado do Sepulcro” de Soares de Passos.
O aparecimento da chamada 2ª Geração Romântica coincide genericamente com o surgimento da Regeneração, no campo da política nacional. Desta 2ª Geração Romântica fazem parte escritores que ficaram conhecidos na história da literatura por “Ultra-românticos”; estes literatos sucederam aos que fizeram parte da chamada 1ª Geração Romântica, marcada pelas personalidades literárias dos escritores que introduziram o Romantismo nas Letras portuguesas: Alexandre Herculano e Almeida Garrett, romancistas, novelistas e poetas da 1ª metade do século XIX que lutaram pela instituição do movimento político liberal e que pagaram com o exílio em França e Inglaterra essa adesão partidária.
Contrariamente aos escritores da geração literária que os precedeu, os ultra-românticosforam escritores em grande parte comprometidos com o regime político da Regeneração que elogiavam e que, em troca, os recompensava com cargos na política, no jornalismo e na função pública. Gerou-se, assim, o fenómeno da literatura oficial, cuja característica principal foi o conservadorismo (apego excessivo ao passado literário e contestação das ideias novas) e fraca qualidade literária. Fortemente apreciados na época em que escreveram, os poetas ultra-românticos comoviam um público pouco letrado e informado com versos tristonhos, pessimistas, mórbidos e excessivamente sentimentais e pouco criativos. Soares de Passos foi o poeta ultra-romântico mais lido e o poeta António Feliciano de Castilho o mais influente no panorama literário português, devido à protecção governamental de que gozava e que lhe permitia decidir quais os escritores que deveriam ser promovidos. Contra ele, irão insurgir-se os jovens da chamada Geração de 70, sobretudo o poeta Antero de Quental, como veremos mais adiante.
A Geração de 70
Costuma designar-se por Geração de 70 (1870) um grupo de jovens intelectuais que alteraram o panorama literário português, na segunda metade do século XIX. A Geração de 70 surge em Coimbra, cidade onde estudavam e se formaram aqueles que a ela irão pertencer, como é o caso do poeta e pensador açoriano Antero de Quental (cabeça do grupo), do romancista Eça de Queirós, dos historiadores Teófilo Braga e Oliveira Martins, do escritor Ramalho Ortigão e do poeta Guerra Junqueiro.
Eça (à direita) e Ramalho Ortigão
A partir de 1864 Coimbra fica ligada a Paris por linha férrea e esta abertura à Europa influenciou os jovens estudantes de Coimbra que puderam, assim, ter acesso às ideias e obras publicadas no estrangeiro.
Este conhecimento do panorama intelectual, social e político europeu, consciencializou-os do atraso cultural e económico português, facto que os levou a tentar a mudança. De facto, apenas renovam o panorama cultural, embora tivessem pretendido alterar a mentalidade portuguesa em geral. Idealistas, acreditavam que as revoluções sociais aconteceriam por si mesmas.
Estes jovens intelectuais começaram a sua actividade contestária em Lisboa, em reuniões onde expunham os seus ideiais reformistas; juntaram-se, então, em casa de um dos elementos do grupo e estas sessões conjuntas de carácter intelectual ficaram conhecidas pelas reuniões do “Cenáculo”, termo que significa reunião de pessoas que professam as mesmas ideias.
Foi no Cenáculo que nasceu a ideia por parte dos seus elementos de realizar as chamadas Conferências do Casino Lisbonense. Mas a primeira manifestação contestatária da Geração de 70 consistiu no papel que desempenharam, sobretudo Antero de Quental, na polémica que se arrastou nos jornais durante largo tempo e que ficou conhecida na História da Literatura portuguesa por Questão Coimbrã.

Retrato de família da Geração de 70 (Eça de Queiroz é o 1º a contar da esquerda; ao centro, Antero de Quental)
A 1ª Conferência do Casino: o texto proferido por Antero de Quental
Programa Das Conferências Democráticas
Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social.
Sob cada um dos partidos que lutam na Europa, como em cada um dos grupos que constituem a sociedade de hoje, há uma ideia e um interesse que são a causa e o porquê dos movimentos.
Pareceu que cumpria, enquanto os povos lutam nas revoluções, e antes que nós mesmos tomemos nelas o nosso lugar, estudar serenamente a significação dessas ideias e a legitimidade desses interesses; investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; como as Nações têm sido, e como as pode fazer hoje a liberdade; e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.
Não se pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.
Abrir uma tribuna, onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este momento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos.
Ligar Portugal com o movimento, moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada;
Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa;
Agitar na opinão pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna;
Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa:
Tal é o fim das Conferências Democráticas.
Têm elas uma imensa vantagem, que nos cumpre especialmente notar: preocupar a opinião com o estudo das ideias que devem presidir a uma revolução, do modo que para ela a consciência pública se prepare e ilumine, é dar não só uma segura base à constituição futura, mas também, em todas as ocasiões, uma sólida garantia à ordem.
Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquelas pessoas que ainda que não partilhem as nossas opiniões, não recusam a sua atenção aos que pretendem ter uma acção – embora mínima – nos destinos do seu país, expondo pública mas serenamente as suas convicções e o resultado dos seus estudos e trabalhos.
Lisboa, 16 de Maio de 1871
A 3ª Conferência esteve a cargo de Eça de Queirós e nela destacam-se os princípios definidores do movimento estético e literário designado por Realismo:
«É a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas;
É a abolição da retórica considerada arte de promover a emoção, usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos;
É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o Realismo é a reacção contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento,o Realismo é a anatomia do carácter, é a crítica do Homem.
É a arte que nos pinta os nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mau na nossa sociedade.» (excerto)
Pela boca de Eça propunha-se uma arte que respondesse às aspirações do espírito dos tempos, que agisse como regeneradora da consciência social e que, desterrando o falso, pintasse a realidade, procedendo pela observação e pela experiência (as novas descobertas cientificas de Darwin, as teorias de Marx e Engels, a crítica segundo Taine são o ponto de partida para o Realismo).
Charles Darwin
A 2ª Conferência do Casino foi escrita e proferida por Antero de Quental que a intitulou
Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos

Antero de Quental
«Meus Senhores:
A decadência dos povos da Península nos últimos três séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história (…) Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva?
(…)
A história dos últimos três séculos perpetua-se ainda hoje entre nós em opiniões, em crenças, em interesses, em tradições, que a representam na nossa sociedade e a tornam de algum modo actual.
Há em todos nós uma voz íntima que protesta em favor do passado, quando alguém o ataca: a razão pode condená-lo: o coração tenta ainda absolvê-lo. É que nada há no homem mais delicado, mais melindroso do que as ilusões: e são as nossas ilusões o que a razão critica; discutindo o passado, ofende sobretudo em nós.
(…)
Já o disse há dias, inaugurando e explicando o pensamento destas Conferências: não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão; (…)
Meus Senhores: a Península, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, apresenta-nos um quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quanto contrasta dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do papel que desempenhámos no primeiro período da Renascença, durante toda a Idade Média, e ainda nos últimos séculos da Antiguidade. (…)
Deste mundo brilhante, criado pelo génio peninsular na sua livre expansão, passamos quase sem transição para um mundo escuro, inerte, pobre, ininteligente e meio desconhecido. Dir-se-á que entre um e outro se meteram dez séculos de decadência: pois bastaram para essa total transformação de 50 ou 60 anos! (…)
O povo emudece; negam-lhe a palavra, fechando-lhes as Cortes; não o consultam, nem se conta já com ele. Com quem se conta é com a aristocracia palaciana, com uma nobreza cortesã, que cada vez se separa mais do povo (…) Nunca povo algum absorveu tantos tesouros, ficando ao mesmo tempo tão pobre! (…)
Tais temos sido nos últimos três séculos: sem vida, sem liberdade, sem riqueza, sem ciência, sem invenção, sem costumes.
(…)
Baixámos sobretudo, pela religião. Da decadência moral é esta a causa dominante! (…) Já não cremos, certamente, com o ardor apaixonado e cego de nossos avós, nos dogmas católicos: mas continuamos a fechar os olhos às verdades descobertas pelo pensamento livre. (…) Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando francamente esse espírito. O seu nome é Revolução: revolução não quer dizer guerra, mas sim paz: não quer dizer licença, mas sim ordem, ordem verdadeira pela verdadeira liberdade. (…)»
Antero de Quental, 27 de Maio de 1871, na sala do Casino Lisbonense
Entrevista a Eça de Queiroz:

in “Diálogo com Eça de Queirós” – A. Campos Matos
(Entrevistador): Como comentou as Conferências do Casino, acontecimento dos mais relevantes do seu tempo, que o governo viria a proibir?
Eça de Queirós: (…) As conferências hão-de encontrar resistências. Em primeiro lugar o nosso público inteligente e literário ama o bel-esprit, a oratória, a frase. Moda peninsular. Ora as conferências, pela sua natureza científica, experimental – exigem justamente o contrário dos aparatos retóricos. São a demonstração, não são a apóstrofe; são a ciência, não são a eloquência. As declamações têm tirado à democracia o seu carácter privativo de realidade e de ciência. Temos ouvido cantar a democracia, berrá-la, soluçá-la: é tempo de a vermos demonstrar. Deixemos no bengaleiro a nossa perpétua inclinação nacional de escutar odes – e entremos só com a tendência humana de resolver problemas.
E, depois das Conferências fechadas, como foi o teor do seu protesto?
Que se quis fazer calar nas Conferências? Foi a crítica política? Para que se deixa então circular no país os livros de Proudhon, de Girardin, de Luis Blanc, de Vacherot? Foi a crítica religiosa? Para que se consente então que atravessem a fronteira ou a alfândega os livros de Renan, de Strauss, de Salvador, de Michelet?
Queremos a revolução preparada serenamente na região das ideias e da ciência; espalhada pela influência pacífica de uma opinião esclarecida; realizada pelas concessões sucessivas dos poderes conservadores; – enfim, uma revolução pelo governo, tal qual ela se faz lentamente e fecundamente na sociedade inglesa.
É assim que queremos a revolução. Detestamos o facho tradicional, o sentimental rebate de sinos; e parece-nos que um tiro é um argumento que penetra o adversário – um tanto de mais!
Como funcionava o Casino por ocasião das Conferências?
Antes de haver conferências no Casino havia ali cançonetas. Mulheres decotadas até ao estômago, com os braços nus, a pantorrilha ao léu, a boca avinhada, cantavam, entre toda a sorte de gestos desbragados, um reportório de cantigas impuras, obscenas, imundas!
(…)
Como lhe pareceu a literatura em Portugal, no ano das Conferências do Casino, ou seja, 1871?
Convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência colectiva da sociedade, nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. É como um trovador gótico que acordasse de um sono secular numa fábrica de cerveja.
Fala do ideal, do êxtase, da febre, de Laura, de rosas, de liras, de primaveras, de virgens pálidas – e em torno dela o mundo industrial, fabril, positivo, prático, experimental, pergunta meio espantado, meio indignado:
- Que quer esta tonta? – Que faz aqui? – Emprega-se na vadiagem – levem-na à polícia.
Excerto de Diálogo com Eça de Queirós, A. Campos Matos, ed. Caminho, 1998
Acerca do Realismo e do Naturalismo na literatura e na pintura
O Realismo e o Naturalismo foram movimentos estéticos que tiveram expressão nas artes plásticas e na literatura. Ambos nasceram em França por volta de 1850 e, apesar das semelhanças, são tendências estéticas diferentes e correspondem a escolas literárias diferentes.
O Realismo e o Naturalismo preocuparam-se com a fidelidade à realidade física, social e psíquica observada pelos artistas que a elas aderiram no tempo histórico e nas sociedades em que viveram; foram, portanto, correntes estéticas que tiveram como objectivo principal imitar a “realidade” e, simultaneamente, rejeitar o movimento estético precedente – o Romantismo, acusado de ser excessivamente imaginativo, subjectivo e sentimental, para além de expressar mais a personalidade do artista do que a realidade social na qual esse artista vivia.
Para os escritores realistas e naturalistas, os românticos mentem porque deturpam a realidade com os próprios sentimentos, desejos, sonhos, etc. Mentindo, falseiam a imagem do tempo em que viveram, contribuindo para o alheamento dessa realidade concreta por parte dos leitores. Ora, segundo os escritores defensores das novas ideias, as sociedades evoluem através do reconhecimento da verdade e não através da fuga permanente a essa realidade pela via da ilusão.
Imitar a realidade é, assim, a palavra de ordem para os realistas e naturalistas, mas o grau em que se processa essa imitação varia e vai fazer distinguir uma corrente estética da outra.
Enquanto que o Realismo pretende copiar o mais fielmente possível a realidade, oNaturalismo, surgido depois do Realismo, vai mais longe ao defender que o indivíduo é, quer queira quer não, o produto de leis imutáveis e inexoráveis que são, por isso, determinantes naquilo em que esse ser humano há-de vir a ser; essas “leis” apoiaram-se nos progressos realizados pela medicina e conhecimentos científicos da época (biologia, física, psicologia) e defendiam o seguinte ponto de vista: qualquer ser humano é produto de três factores determinantes na sua vida, a saber:
- factores hereditários;
- meio social em que cresce;
- educação recebida.
Tentando trazer a ciência para dentro das obras artísticas, os temas naturalistaspreferidos eram o alcoolismo, a prostituição, o adultério, as taras hereditárias, o vício do jogo, enfim, os problemas de natureza psíquica e ou social comuns a muitos indivíduos e que, na perspectiva naturalista, era preciso denunciar para corrigir a sociedade.
Tanto o Realismo como o Naturalismo são anti-idealistas e preocupam-se em retratar a vida contemporânea com precisão e fidelidade. Ambos os movimentos se interessam pela verdade, pela análise minuciosa da realidade social, pela observação dos factos e pelo rigor descritivo do mundo observado. Os romances são as formas literárias privilegiadas pelos escritores realistas e naturalistas que analisam a vida burguesa na cidade, pólo de tensões políticas, sociais e económicas.
Três nomes e três correntes de pensamento estão por detrás das novas correntes estéticas: o positivismo de A. Comte, o evolucionismo de Darwin e o determinismo de Taine.
O termo “realismo” já era conhecido pelos membros da Geração de 70 na altura da Questão Coimbrã; na Conferência do Casino proferida por Eça de Queirós a palavra aparece no título «O Realismo como Nova Expressão da Arte»; no entanto, Eça não distingue o Realismo do Naturalismo e os dois conceitos surgem com idêntico significado.
Eça de Queirós escreveu a propósito do Realismo/ Naturalismo (não distingue as duas correntes estéticas, como foi dito antes) no texto da sua Conferência:
«Por outro lado, o realismo é uma reacção contra o romantismo: o romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter, é a crítica do homem. (…) A norma agora são as narrativas a frio, deslizando como as imagens na superfície de um espelho, sem intromissão do narrador. O romance tem de nos transmitir a natureza em quadros exactíssimos, flagrantes, reais.»

E ainda:
«Na carta a Rodrigues de Freitas (30 de Março de 1878), em que agradece penhoradamente um artigo elogioso sobre o Primo Basílio, faz uma calorosa defesa da sua escola:
«O que lhe agradeço profundamente é a sua defesa geral do «Realismo». Os meus romances importam pouco; está claro que são medíocres; o que importa é o triunfo do Realismo – que, ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século e destinada a ter nas sociedades e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase a dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc. (…)»
In Eça, Discípulo de Machado?, Alberto Machado da Rosa, ed. Presença, 2ª edição (excerto)
«De uma maneira ou de outra, a concepção do realismo exposta por Eça no Casino deve ter causado sensação pela sua originalidade e pelo seu carácter «suis generis», explicados por tudo o que dissemos e, indubitavelmente também, porque se trata de uma concepção integradora ou antecipadora do naturalismo. Por isso, dizíamos, o seu realismo é desde a primeira hora de cariz claramente naturalista.
E um texto posterior, datado de 1879 e mantido inédito pelo autor, «Idealismo e Realismo» – projectado para ser um prefácio à 2ª edição de O Crime do Padre Amaro, de leitura fundamental para a compreensão do conceito de realismo em Eça – é de certo modo a confirmação daquela dimensão original, «suis generis» e primitivamente naturalista do realismo queirosiano. Nele, o autor recusa-se a aceitar o naturalismo como uma «escola, com a sua retórica própria» e a atribuir a sua paternidade a Zola:
«Não – perdoem-me – não há escola realista. Escola é a imitação sistemática dos processos dum mestre. Pressupõe uma origem individual, uma retórica ou uma maneira consagrada. Ora o naturalismo não nasceu da estética peculiar dum artista; é um movimento geral da arte, num certo momento da sua evolução. (…) O naturalismo é a forma científica que toma a arte, como a república é a forma política que toma a democracia, como o positivismo é a forma experimental que toma a filosofia. (…)»
in As Máscaras do Desengano, Isabel Pires de Lima, Caminho
Síntese das características do Realismo/ Naturalismo*:
- Os escritores e artistas em geral deverão expressar conteúdos ideológicos com profundidade, baseados na reflexão sobre as condutas sociais e sobre as leis que as determinam; como questionou Antero de Quental aquando da polémica da Questão Coimbrã:
«Será possível viver sem ideias? Esta é que é a grande questão.»
A literatura deverá inspirar-se nas grandes questões contemporâneas a nível político, social, cultural, religioso e científico.
- o escritor pretende ser impassível/objectivo e isento face à realidade descrita, seja de natureza física, seja de carácter social ou moral.
A busca da impassibilidade corresponde à tentativa de refrear a expressão das emoções e sentimentos individuais; assim, a realidade poderá ser “transportada” para a obra tal como é, fielmente retratada por artistas que conservam a neutralidade perante o que observam; serão evitados os juízos de valor (considerações sobre a moralidade ou imoralidade das acções humanas, sobre o que é bem ou o que é mal, o feio ou o belo, o vício e a virtude, etc.).
- a impassibilidade enunciada no ponto anterior não significa que o artista desista da crítica social e da tentativa de alterar os costumes/ mentalidades/ tendências que impedem a reforma social pretendida pelos escritores realistas. A crítica social e de costumes é o principal objectivo a atingir e os realistas não hesitam em transformar em discurso literário as cenas e aspectos sociais degradantes que antes se encontravam completamente arredados da “boa literatura”.
Aliando-se ao Naturalismo, os romances realistas são construídos para comprovar “teses”, sendo, por isso, deterministas, isto é, o comportamento social tem causas que o explicam e essas causas estão relacionadas com a genética, o meio em que os indivíduos se desenvolvem e com a educação (valores, conceitos) que lhes foram ensinados desde a infância.
Consequentemente, o romance tipicamente naturalista vai defender que, por exemplo, um indivíduo alcoólico o é em função das tais causas anteriormente referidas. Não haverá saída para este indivíduo cuja vida de adulto é determinada por factores que ele não controla.
- busca do rigor no discurso escrito: as acções deverão ser referidas sem convencionalismo e com naturalidade, já que a literatura espelha a realidade. Os escritores realistas procuram desenhar com palavras os espaços físicos, o retrato físico, psicológico e moral das personagens, recorrendo a abundantes pormenores descritivos que se aglomeram em fragmentos textuais descritivos normalmente longos.
No entanto, não são os espaços físicos os privilegiados nos romances realistas/naturalistas, mas o espaço social, devido à tentativa de reformar os costumes.

O fim da Geração de 70
- Os Vencidos da Vida
Os Vencidos da Vida
Esta é a designação atribuída à 2ª fase da Geração de 70 após terem desistido da acção política e ideológica que antes propunham levar a cabo.
O grupo, profundamente insatisfeito com o cenário político, social e cultural português, surgiu em 1887, à mesa do restaurante lisboeta “Tavares”, mas a maioria dos encontros passou a realizar-se no Hotel Bragança que foi o primeiro grande hotel construído em Lisboa, nas primeiras décadas do século XIX.
As finalidades desta associação de intelectuais lisboetas e personalidades de relevo na vida política e social eram de convívio de mentalidades afins e de diversão; eram conhecidos pela designação de «os onze do Bragança» e o carácter fechado, exclusivo e snob destas reuniões provocou algum ressentimento na vida intelectual lisboeta que se traduziu em ataques e críticas contra os membros desta “aristocracia” intelectual e mundana.
O grupo separou-se por volta de 1894, devido à morte de alguns dos seus membros e/ ou a diferentes rumos de vida e, também, devido à situação política que o país atravessava.

«Há, assim, a primeira fase, a de uma linha ideológica nitidamente evolutiva, que vai do período polémico, antes da década de 70, do «Bom Senso e Bom Gosto» – polémica de Antero, ainda ao lado de Teófilo Braga, em Coimbra, contra o provincianismo cultural da degenerescência romântica dominada por António Feliciano de Castilho (…) A segunda fase, que é a fase final e que corresponde ao fim do século, é a fase dos Vencidos da Vida. É a fase em que Eça (como, aliás, Antero e Oliveira Martins) renuncia à acção política e ideológica imediata. Surge então a idealização vaga de uma aristocracia iluminada, contraponto do socialismo utópico. (…) É a fase também da suprema ironia queirosiana. Do mesmo ano de 1889, note-se outro texto de Eça, publicado anonimamente no nº 29 do jornal O Tempo, em resposta a um comentário que, na véspera, Pinheiro Chagas fizera, no Correio da Manhã, à designação de «Vencidos da Vida». O escritor começa por caricaturar, referindo-se ao «grupo jantante» que todas as semanas se reunia no Hotel Bragança:
«Homens que assim se reúnem poderiam logo, neste nosso bem amado país, ser suspeitados de constituir um sindicato, uma filarmónica ou um partido. Tais suposições seriam desagradáveis a quem se honra de costumes comedidos; o respeito próprio obriga-os a especificar bem claramente, em locais, que, se em certo dia se congregam, e apenas para destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares».
Logo adiante, o tom é mais dramático, definindo bem o espírito da Geração de 70 nesta sua fase final do grupo dos «Vencidos da Vida»:
«…para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava.»
Que este «ideal íntimo», a que os mais importantes representantes da Geração de 70 aspiravam, não foi historicamente atingido prova-o ainda o suicídio de Antero, em 1891. Entretanto, a burguesia fin-de-siècle, indiferente às aspirações dos «Vencidos da Vida», prepara-se para uma nova fase da sua história, a da instauração da República, uma república que nasceu da pequena burguesia e que foi, como disse António Sérgio, «meramente formal, sem ideias, saída de uma romântica dramatização da política e sem nada melhorar no que é estrutural e básico.»
A Geração de 70 – uma revolução cultural e literária, por Álvaro Manuel Machado, ed. Biblioteca Breve.
Ideias – 1ª parte
- Psicologia das personagens;
- Decadência nacional;

Psicologia das personagens*
«A autenticidade psicológica das personagens queirosianas tem sido posta em causa por mais de uma vez por alguns críticos da obra do romancista. A seu ver, o narrador omnisciente nem sempre mantém no desenrolar da narrativa a impassibilidade necessária e desejável, carregando o traço na descrição de certas figuras de tal modo que as diminui ou desumaniza, tornando-as francamente grotescas ou até mesmo ridículas. Eça manifestaria, assim, uma parcialidade e uma tomada de posição na sua escrita, que condicionaria o espírito do leitor, influindo o juízo que, sobre elas, este pudesse eventualmente formar, levando-o a aderir a um ponto de vista que é sensivelmente o do próprio autor. (…)
Mas os tipos e as figuras secundárias que se encontram na ficção de Eça, desempenham uma função específica. Elas incluem-se, efectivamente, no campo de visão do realismo crítico. Para Eça a sociedade portuguesa da Regeneração deve ser observada com todos os vícios e defeitos da sua educação ultra-romântica. Ela deve ser entendida e verberada no que tem de caduco, de inadequado aos valores do mundo moderno. A ironia, que implica o distanciamento crítico, impõe a perspectiva correcta de análise, constituindo para Eça e para os ficcionistas que se integram na mesma corrente, um processo eficaz de conseguir a objectividade narrativa. (…)
De Taine, no plano teórico, Eça não herda apenas as noções gerais da doutrina psicológica e as pistas a seguir no descobrimento da vida psíquica. O romancista tem decerto conhecimento do estudo daquele autor, intitulado De l’ideal dans l’art (Paris, 1867), porque as suas técnicas de caracterização das personagens e o fio condutor da fábula romanesca pautam-se, em larga escala, pela orientação aí definida como essencial na avaliação de uma obra de arte. Taine sustentava que só a convergência de efeitos, convenientemente doseados, permitia ao autor atingir na sua obra aquela integridade que lhe conferia a qualidade artística. O processo que levava a essa convergência, desenvolvia-se seguindo três linhas fundamentais: o estudo dos caracteres; as situações e acontecimentos que constituem a acção e o estilo.
Ora, na análise dos caracteres, Eça detém-se nos chamados factores inatos e nos condicionamentos que os moldam. (…) A inteligência e a vontade são, porém, as faculdades mestras que definem o carácter. Ora, a vontade varia, na sua intencionalidade, de acordo com a têmpera moral de cada personagem. Se as condições em que se forma o carácter de Amélia e o de Amaro, por um lado, e o de Luísa e o de Basílio, por outro, não têm comparação com as que assistem à formação de um Carlos da Maia, a verdade é que a educação sentimental de cada um deles acusa, em momentos de crise, efeitos muito semelhantes. Os dois primeiros formam-se num meio provinciano, devoto e hipócrita; os segundos movem-se num meio urbano, que é a extensão da comédia daquele. Mas já o último conhece uma educação completamente diferente, moldada no padrão britânico da acção e de um pensamento pragmático, voltado para realidades concretas. Contudo, o ambiente não é propício. Carlos abre um consultório médico, mas, em lugar de doentes, quem o procura são os amigos. Gradualmente a sua vontade de realização profissional vai sendo embotada. Ideia, então, com os amigos, grandes projectos de intervenção social que, escorada em sólida propriedade fundiária, vive de grossas rendas, gera a disponibilidade para a aventura amorosa e a satisfação do capricho pessoal como panaceia contra o tédio. É neste contexto que aparece Maria Eduarda. A sua presença causa sensação no estreito círculo mundano lisboeta. Porque a sua beleza, além do halo cosmopolita que lhe confere o trato das grandes cidades, faz dela um ser singular, colocando-a muito acima da mediania. Carlos enamora-se desta formosura ímpar.
Ora, Mª Eduarda é, de certo modo, o produto de uma selecção sexual que mostra uma vertente darwiniana até hoje não detectada no enredo d’Os Maias. A sua compleição de mulher sadia, a beleza que irradia e transmite à filha, os traços físicos, como a pupila azul de Rosa que leva Carlos a interrogar-se acerca da sua possível origem, são alguns dos indicadores que alertam o leitor para esta pista.
Carlos, ser eugenicamente perfeito, tal como Mª Eduarda, vai ser corroído na sua força de vontade pelo meio, enleado cada vez mais naquela paixão que porá todo o seu ser a uma grande prova: a descoberta de que Mª Eduarda é sua irmã. O seu intenso conflito interior, os seus sucessivos adiamentos em consumar a inevitável ruptura, o prolongar das relações entre eles, calando o segredo, até sentir a repulsa física que o afasta do corpo dela, nada têm a ver, como às vezes se tem alegado, com qualquer determinismo biológico. Toda essa experiência é o caminho para a autenticidade psicológica e a tomada de consciência de ter vivido apenas aparências e ilusões no amor, nos seus objectos e aspirações. O Acaso, que sela esta tragédia, é uma monstruosidade absurda.
Mas o acaso tem raízes longínquas e complexas, que se podem entender como um conflito mais amplo dentro da perspectiva da selecção sexual definida por Darwin. EmThe Descent of Man and Selection in Relation to Sex (1871), sustenta este que, em todas as espécies tirante o género humano, a fêmea exerce geralmente o poder de selecção. Nas sociedades humanas domina a escolha do homem, embora nos «países civilizados as mulheres tenham uma escolha livre, ou quase livre», sendo a beleza o factor primacial que a governa. (…)»
*Luís de Sousa Rebelo, Graciliano Ramos e Eça; Psicologia das Personagens (excertos)
Decadência

«E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! Desde esse momento, a dúvida fora nele como que a névoa que o sol, este radiante sol português, desfaz nos ares… E agora, apesar de todas as ironias da ciência, apesar dos escárnios orgulhosos de um Renan, de um Littré e de um Spencer, ele, que recebera a confidência divina, podia ali, com a mão sobre o coração, afirmar bem alto – havia um Céu!
- Apoiado! – mugiu da coxia um padre sebento.
E por todo o salão, no aperto e no calor do gás, os cavalheiros das Secretarias, da Arcada, da Casa Havanesa, berrando, batendo as mãos, afirmaram soberbamente o Céu! (…)
– Faz nojo! – rugiu surdamente o poeta.
Tremia, revoltado! Numa noite daquelas, toda de poesia, quando os homens de letras deviam mostrar como são, filhos da Democracia e da Liberdade, vir aquele pulha pôr-se ali a lamber os pés à família real… Era simplesmente ascoroso!»
Os Maias, cap. XVI, pp. 590, 591
«O tema da decadência das sociedades e, em particular, da sociedade portuguesa atravessa de um modo recorrente e obsessivo a ficção de E.Q. bem como as suas crónicas e textos de jornalismo. Tema marcante na cultura portuguesa oitocentista, embora com raízes muito anteriores (…) Conceito vincadamente ideológico, decadência pressupõe a memória de um passado grandioso (ou, pelo menos, de um passado em que se afirmaram feitos e qualidades que se perderam), o contraste entre um presente de deterioração, de dissolução e mediocridade e um passado de progresso em que se evidenciavam nobres virtudes (…) A ideia de decadência, muito em voga em alguns países da Europa na segunda metade do século passado e nas primeiras décadas do século XX, prende-se nessa época com as correntes do evolucionismo (segundo o qual a evolução é a lei geral dos seres, não apenas do ponto de vista físico mas espiritual e social), o biologismo social e o organicismo, que encaram as sociedades como organismos análogos a seres vivos que, percorrendo um ciclo vital, do nascimento à decadência e morte, passam por um período áureo, de acordo com leis semelhantes às leis biológicas. Naturalmente, tais doutrinas não são estranhas à emergência do positivismo, à definição e desenvolvimento da sociologia como nova ciência, à definição de métodos positivos no domínio das ciências naturais, baseados na observação dos fenómenos e na introdução de leis. Lembre-se que Herculano, personificando Portugal, considerava-o num estado de «velhice aborrida e decrépita» (…) Também Eça, nos textos de jornalismo, se referiu metaforicamente ao «inválido-Portugal», esse «doente» que não tinha ninguém que o curasse ou lhe desse «uma vida proveitosa», a um estado em que o país vegetava «na sua sonolência animal», ao «corpo exangue deste malfadado país», à «febre» da sua decadência. (…)
Mas a ideia de decadência só faz sentido ao admitir o seu reverso, isto é, ao trazer habitualmente implícito, ou pelo menos ao pressupor, por antítese, determinado modelo ideal de perfeição (…) lembre-se o perfil vertical de Afonso da Maia, presença forte em todo o romance, a acentuar o contraste com o meio dissoluto em que se movia, que acabou por sucumbir, vítima desse mesmo meio.
Noutros textos do Jornal de Évora, a decadência surgirá associada a «inércia», a «consciências maculadas», a «espíritos enegrecidos» (…) Outros termos associados a decadência são «morte», «abaixamento de Portugal», «indolência», «perversidade», «desmoralização», «pobreza», «infâmia», «vileza», «crise», «inferioridade». De tão longa e excessiva relação de palavras directamente associadas a decadência, podemos aferir a complexidade desta ideia-chave. Decadência é algo de íntimo, profundamente enraizado nas consciências, algo de aviltante entorpecedor, arrastando consigo ideias ditatorais. É um sentimento dissolvente que há muito penetrou na sociedade portuguesa, um movimento regressivo, desorganizador e anarquizante, no sentido de uma entropia máxima: «Vivemos há muito tempo nesta anarquia de todos os abusos, de todas as licenças, de todas as corrupções: é necessário ordenar e regularizar o país.» (E.Q., Páginas de Jornalismo, 1867).
Outros ingredientes do declínio são para o jovem Eça a preguiça e a esterilidade da juventude burguesa «abonecada, bem composta e vazia de ideias e de sentimentos», o «falso janotismo», a dependência do Estado e do patrocinato, «as educações atrofiadoras, o sentimentalismo mórbido» e, como se já não chegassem estes vícios bem portugueses, impiedosamente farpeados por Eça e Ramalho em As Farpas, acrescenta-lhes «o desleixo dos interiores domésticos, a religião por chique, a porcaria inveterada, etc.» (…) outra componente do ideia queirosiana de decadência: a degenerescência da raça em Portugal (por contraste implícito com a inglesa): «Quando chego a Portugal, depois de um ano em Inglaterra – além de tanta, tanta coisa que estranho – há uma coisa que me deslumbra, e outra que me desola: deslumbram-me as fachadas caiadas, e desola-me a população anémica. Que figuras! O andar desengonçado, o olhar mórbido e acarneirado, cores pele de galinha, um derreamento de rins, o aspecto de humores linfáticos, a passeata triste de uma raça caquética em corredores de hospital: e depois um ar de vadiagem, de ora aqui vou,sim senhor, de madrice, olhando em redor com fadiga, o crânio exausto, e a unha comprida, para quebrar a cinza do cigarro, à catita.»
in Carta a Joaquim de Araújo, 1878
«Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o Eusebiozinho. Parecia mais fúnebre, mais tísico, dando o braço a uma senhora muito forte, muito corada, que estalava num vestido de seda cor de pinhão. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusébio nem os viu, descaído e molengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da sua sombra.
- Aquela aventesma é a mulher – contou o Ega.»
Os Maias, cap. XVIII, p. 705
Numa outra carta, desta vez a Fialho de Almeida, o romancista caracteriza o perfil do português que retrata na sua ficção, «sob os seus costumes diversos», como «um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mole de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias» (Notas Contemporâneas)
Repare-se que para Eça, de acordo aliás com os princípios do naturalismo, a própria política era condicionada pelo meio, ou seja, pela raça, pelo clima, pela ascendência e pela natureza, aquilo a que ele chama «condições de constituição que actuam fatalmente». (Páginas de Jornalismo, 1867)
Adoptando esta concepção determinista, não é de admirar que afirme sobre o carácter dos portugueses: «A nossa preguiça natural é bem conhecida, o nosso carácter meridional é bem meridional.» (Páginas de Jornalismo, 1867)
Por outro lado, o carácter «bom» e «sofredor» dos portugueses seria produto da beleza do nosso meio natural. A própria dinâmica do progresso, a «lei do progresso» a que Eça se refere noutros textos, seria, na sua opinião determinada pelo factor rácico: «… por toda a parte onde apareceu a raça gaulesa, raça fácil e simpática, a civilização deu alguns passos. E devemos dizê-lo com verdade: onde tem aparecido a raça ibérica, raça arrogante e violenta, o movimento social tem-se retardado». (in Ciências Sociais e Políticas, 1867)
A que distância nos encontramos ainda do seu antifrancesismo da maturidade (expresso em tantas crónicas e na correspondência a partir dos anos 80), dessa reacção à excessiva e perniciosa influência da cultura francesa em Portugal, em domínios tão diversos como a moda ou a culinária! (…)
A decadência que ele define como um processo (trata-se de uma ideia essencialmente dinâmica) no sentido de «um estado de ruína e de miséria incurável» (Páginas de Jornalismo), teria como epílogo, muito provavelmente, uma invasão estrangeira, uma simples anexação (…) «O povo poderá sacrificar-se, mas não poderá resisitir. As nações enfraquecidas e doentes estão à mercê de qualquer abalo».
Pensamos que esta atitude pessimista, este quase apelo da catástrofe em que, apesar de tudo, a honra e a coragem se salvariam, só poderá entender-se cabalmente no quadro do determinismo sociológico que Eça já teoriza aos 21 anos. (…) De qualquer modo e independentemente da aferição da verdade contida em certas reflexões queirosianas sobre Portugal e o seu porvir, importa realçar que para Eça tudo se passa como se o «doente-Portugal» estivesse, de há longa data, submetido a um destino inelutável, a determinados factos e processos necessários e inevitáveis, a leis sociais, de acordo com mecanismos semelhantes aos que regem os fenómenos naturais.
Subjacente à maior parte das obras de ficção, encontramos mais ou menos explícita, por vezes apenas implícita ou subtilmente acentuada, a obsessão decadentista. O seu expoente máximo será sem dúvida, Os Maias, essa «história simbólica da ruína de uma família que, a seu modo, na sucessão das suas gerações desde o antigo regime até ao Portugal contemporâneo de Eça, representa o destino e até os períodos da história de um país – Portugal», «história de uma degenerescência», do malogro trágico de uma ds melhores famílias da sociedade portuguesa. Irremediável parece ser essa «fatal e dissolvente decadência que amarfanha o país e destrói a fibra nacional» (J. Medina, O Niilismo de E.Q. n’Os Maias, E.Q. e a Geração de 70)
Irremediável fora igualmente o incesto de Carlos e Mª Eduarda, como que a reforçar a ideia central do romancista: a fatalidade, o destino amargo que empurrava Portugal para um processo de dissolução, para um falhanço inevitável.» *

«Carlos ria-se desta ideia do Ega. Três mulheres de gosto e de luxo, em Lisboa, para adornar um cenáculo! Lamentável ilusão de um homem de Celorico! O marquês de Souselas tinha tentado, e para só uma vez só, uma coisa bem mais simples – um jantar no campo com actrizes. Pois fora o escândalo mais engraçado e mais característico (…) Depois, os chulos, os queridos, os polhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam ser convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos, fizeram-se intrigas – enfim, esta coisa banal, um jantar com actrizes, resultou em o Tarquínio do Ginásio levar uma facada…
- E aqui tens tu Lisboa.
- Enfim – exclamou o Ega – se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos da Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas… Nós julgamo-nos civilizados como os negros de São Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão…Isto é uma choldra torpe.»
Os Maias, cap. IV
- Abandonei-a – disse o Ega. – Era feroz de mais… E além disso fazia-me remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sarjeta humana …Afligia-me...»
- Portugal vs Inglaterra
«Os paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. (…) E as discussões metafísicas, as próprias certezas revolucionárias adquiriam um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes.
Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas intactas, os seus expositores de medicina. A Literatura e a Arte, sob todas as formas, absorveram-no deliciosamente.
Publicou sonetos no «Instituto» – e um artigo sobre o Parténon: tentou num atelier improvisado, a pintura a óleo; e compôs contos arqueológicos, sob a influência de «Salambô». Além disso todas as tardes passeava os seus dois cavalos. No segundo ano levaria um R se não fosse tão conhecido e rico. (…) tinha nas veias o veneno do diletantismo e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um desses médicos literários que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer!»
Os Maias, cap. IV
«As semanas foram passando nestes planos de instalação. Carlos trazia realmente resoluções sinceras de trabalho: a ciência como mera ornamentação interior do espírito, mais inútil para os outros que as próprias tapeçarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de solitário: desejava ser útil. Mas as suas ambições flutuavam, intensas e vagas; ora pensava numa larga clínica; ora na composição maciça de um livro iniciador; algumas vezes em experiências fisiológicas, pacientes e reveladoras…Sentia em si, ou supunha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha de aplicação. «Alguma coisa de brilhante», como ele dizia: e isto para ele, homem de luxo e homem de estudo, significava um conjunto de representação social e de actividade científica; o remexer profundo de ideias entre as influências delicadas da riqueza; os elevados vagares da filosofia entremeados com requintes de sport e de gosto; um Claude Bernard que fosse também um Morny… No fundo era um diletante.»
Os Maias, cap. IV
«Carlos já falava a sério da sua carreira. Escrevera com laboriosos requintes de estilista, dois artigos para a «Gazeta Médica», e pensava fazer um livro de ideias gerais que se devia chamar «Medicina Antiga e Moderna».
De resto ocupava-se sempre dos seus cavalos, do seu luxo, do seu bricabraque. E através de tudo isto, em virtude dessa fatal dispersão de curiosidade que, no meio do caso mais interessante de patologia, lhe fazia voltar a cabeça se ouvia falar de uma estátua ou de um poeta, atraía-o singularmente a antiga ideia do Ega, a criação de uma revista, que dirigisse o gosto, pesasse na política, regulasse a sociedade, fosse a força pensante de Lisboa…
Era porém inútil lembrar ao Ega este belo plano. Abria o olho vago, respondia:
- Ah, a revista…Sim, está claro, pensar nisso! Havemos de falar, eu aparecerei…»
Os Maias, cap. V
Diletantismo:
«Qualidade própria do indivíduo que se dedica a uma arte de forma ligeira, sem se preocupar com o estudo e a reflexão permanentes, por considerar que a arte deve ser uma forma de puro lazer, onde a vocação e o trabalho não têm lugar.
(…)
O diletante, com efeito, corre entre as ideias e os factos como as borboletas (a quem é desde séculos comparado) correm entre as flores, para pousar, retomar logo o voo estouvado, encontrando nessa fugidia mutabilidade o deleite supremo.»
Carlos Ceia, Dicionário de Termos Literários
A influência britânica em Os Maias:
«- É um inglês, uma espécie de doido?…
Ega encolheu os ombros. Um doido!…Sim, era essa a opinião da Rua dos Fanqueiros o indígena, vendo uma originalidade tão forte como a de Craft, não podia explicá-la senão pela doidice. O Craft era um rapaz extraordinário!…Agora tinha ele chegado da Suécia, de passar três meses com os estudantes de Upsala. Estava também na Foz…Uma individualidade de primeira ordem!
- É um negociante do Porto, não é?
- Qual negociante do Porto! – exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face, enojado de tanta ignorância. – O Craft é filho de um clergyman da igreja inglesa do Porto. (…) Tem viajado por todo o universo, colecciona obras de arte, bateu-se como voluntário na Abissínia e em Marrocos, enfim vive, vive na grande, na forte, na heróica acepção da palavra. É necessário conhecer o Craft. Vais-te babar por ele…»
Os Maias, cap. IV
«Carlos tranquilizou Miss Sara. Oh, ela via bem que mademoiselle estava boa. (…)Oh, se fosse uma criança inglesa saía com ela para o ar… Mas estas meninas estrangeiras, tão débeis, tão delicadas… E o labiozinho gordo da inglesa traía um desdém compassivo por estas raças inferiores e deterioradas.»
Os Maias, cap. IX
A teoria mais viável para explicar a extraordinária incidência de aspectos ingleses n’Os Maias parece ser a de que, após mais de uma década de vida em Inglaterra, Eça se tornou vítima daquilo a que se pode chamar «o efeito da ausência» – um fenómeno por ele pressentido e lamentado já em 1878, quando em 8 de Abril desse ano, se queixa a Ramalho da dificuldade em descrever Portugal e os portugueses «longe do grande solo de observação», ou quando, em carta a Luís de Magalhães, de 26/10/1888, reconhece a «desnacionalização dos caracteres» d’Os Maias.
Dois temas importantes do romance – a educação e o gentleman – são de óbvia influência inglesa. (…)
|Eusebiozinho| é a caricatura de uma criancinha deslambida e molengona educada num ambiente de senhoras muito religiosas de província, que lhe proíbem uma vida natural e sadia e o obrigam a declamar poemas ultra-românticos fazendo dele a personificação do menino-prodígio. (…) Carlos detestava-o. (…) Eça parece ter querido demonstrar o resultado de uma educação obsoleta, falsamente religiosa. É Afonso da Maia quem caracteriza tal educação, fortemente contrastante com a que o próprio Afonso dera ao seu neto Carlos. (…)»
*Dicionário de Eça de Queiroz, A. Campos Matos, ed. Caminho, 1988
Educação portuguesa versus educação inglesa
« - Mas enfim os clássicos – arriscou timidamente o abade.
- Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo de uma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois… A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande…»
Os Maias, cap. III, p. 63
«Não havia verdadeiramente senão uma coisa digna de se estudar, eram as línguas. Parecia insensato que se torturasse uma criança com botânica, astronomia, física… Para quê? Coisas inúteis na sociedade. Assim, o pequeno dela, agora, tinha lições de química… Que absurdo! Era o que o pai dizia – para quê, se ele o não queria boticário?»
Os Maias, cap. IX, p. 294






