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O contexto político, social e cultural d’ OS MAIAS (Eça de Queiroz)

Junho 2, 2011

A sociedade portuguesa após 1850: a época da Regeneração

A partir de meados do século XIX, Portugal é governado por um movimento político conhecido pelo nome de Regeneração. Trata-se de um período que vai de 1851 até à implantação da República, em 1910.

A Regeneração ou o movimento político regenerador divide o século XIX em 2 partes distintas: separa o período das ideias revolucionárias que caracterizam a época do chamado 1º Romantismo (cujos expoentes máximos na literatura portuguesa foram Alexandre Herculano e Almeida Garrett), época esta dominada pela instabilidade política, social e económica, da época seguinte – a Regeneração – caracterizada pela estabilidade associada ao pré-industrialismo.

Os políticos regeneradores pretendiam, numa 1ª fase, aproximar Portugal, país atrasado a todos os níveis relativamente aos restantes países europeus, do progresso que se fazia sentir “lá fora”; no entanto, essas tentativas de modernizar o país foram, em geral, malogradas e o progresso apregoado pelos políticos, mais aparente que real visto que se limitou à construção de linhas férreas que agora ligavam Portugal à Europa e ao desenvolvimento dos transportes, em geral.

A verdade é que os políticos regeneradores foram sobretudo demagógicos na medida em que prometeram uma nova era de «bem-estar para todos» à burguesia descontente com a lenta evolução das estruturas económicas da altura, que não passou de miragem devido à elevada corrupção existente entre os políticos nacionais. Assim, os deputados, divididos em dois grandes partidos constitucionais, ignoravam comodamente o estado da nação e, recrutados entre engenheiros, doutores, professores e bacharéis, iludiam o povo com banalidades porque sabiam argumentar a seu favor e deturpar, através de um discurso rebuscado, as maiorias iletradas, contribuindo para a centralização política e administrativa do país.

A nível económico, Portugal estava dependente do empréstimo estrangeiro, sobretudo inglês, e a riqueza nacional aproveitava mais aos estrangeiros residentes no país do que aos portugueses. Consequentemente, o país caiu no marasmo económico, salvando-se apenas a burguesia capitalista.

A nível cultural, o pretenso progresso apregoado pelo movimento regenerador nada trouxe de novo, proporcionando, assim, a instauração da mediocridade entre os intelectuais apoiados pelo regime político do governo; neste clima degradado, o tédio invadia tudo e todos e a grande preocupação dos portugueses letrados da época era poder imitar o que se fazia no estrangeiro, sobretudo em França, país do qual Portugal estava dependente em matéria de moda, cultura e pensamento.

A política levada a cabo pelos regeneradores será alvo de ataques cerrados por parte de um grupo de jovens intelectuais formados em Coimbra e que farão parte da célebreGeração de 70, à qual pertenceu Eça de Queirós, entre outros nomes ilustres das Letras portuguesas.



  Lisboa, séc. XIX

*«Chegara o momento em que a burguesia portuguesa, após trinta anos de confrontações políticas e ideológicas, num clima de grande instabilidade que forçosamente impediu um desenvolvimento do capitalismo em Portugal ao ritmo europeu, toma consciência da urgência de encontrar uma plataforma conciliadora dos interesses das várias classes detentoras do poder económico e uma forma de governo capaz de ser estável, de modo a viabilizar um projecto expansionista da economia nacional que permitisse o fomento material, necessário ao próprio avanço do capitalismo. (…) Havia que, de uma forma mais ou menos demagógica, encontrar uma fórmula nova para governar Portugal; essa fórmula, como bem notou Oliveira Martins, tem o seu modelo na França do Segundo Império (…) e chamou-se entre nós Regeneração. Havia que «regenerar» Portugal, dar-lhe ou fingir dar-lhe, vida nova, num espírito de concórdia nacional  (…)

Rua lisboeta, séc. XIX

Paz política, conciliação nacional, estabilidade social são estes os pressupostos da acção regeneradora, o que obrigou a um certo esvaziamento ideológico da vida política, em favor da integração dos técnicos e dos especialistas (é o caso evidente de Fontes Pereira de Melo), esvaziamento consagrado, primeiro, no Acto Adicional à Carta de 1852, pela fusão de setembristas e cartistas no novo Partido Progressista e, depois, na chamada Fusão, em 1865, quando históricos e regeneradores admitem a inutilidade do rotativismo entre eles e se unem num partido único que visa apenas «melhoramentos materiais». (…) A política fontista de lançamento das grandes infra-estruturas de comunicação, caminhos-de-ferro e rede rodoviária – Fontes declara-se «fanático pelas vias de comunicação» – integrava-se, evidentemente, naquele objectivo ao facilitar o comércio interno, ao permitir a penetração das relações capitalistas no campo e ao terminar com os pequenos monopólios locais, o que não foi conseguido sem algumas resistências. (…) O fomento da rede de comunicação foi possível graças ao endividamento em relação ao capital estrangeiro, sobretudo inglês (…)

Fruto deste projecto político unanimemente aceite, assiste-se, de facto, durante os primeiros quinze anos da Regeneração, a uma certa expansão, quer industrial quer agrícola e a uma certa euforia do progresso e dos «melhoramentos materiais». (…) tendo conseguido um substancial aumento da riqueza colectiva, a verdade é que a riqueza criada aproveitava apenas a estrangeiros, ou então, a uma estreita camada de privilegiados e não à Nação no seu conjunto (…)

Uma política de tão grande dependência em relação a Inglaterra fazia de Portugal e, particularmente, do nosso império colonial, presa fácil da ganância britânica, num momento em que as potências capitalistas se lançavam avidamente na partilha de África, em busca de novos mercados e de matérias-primas. É assim que o Ultimatum de 1890 e a crise política e nacional que se lhe seguiu não constituiu uma surpresa para os espíritos mais lúcidos. (…)»

*As Máscaras do Desengano, Isabel Pires de Lima, ed. Caminho, 1987 (excerto)

 

a 2ª Geração Romântica (o ultra-romantismo)


Imagem alusiva ao poema ultra-romântico “O Noivado do Sepulcro” de Soares de Passos.

O aparecimento da chamada 2ª Geração Romântica coincide genericamente com o surgimento da Regeneração, no campo da política nacional. Desta 2ª Geração Romântica fazem parte escritores que ficaram conhecidos na história da literatura por “Ultra-românticos”; estes literatos sucederam aos que fizeram parte da chamada 1ª Geração Romântica, marcada pelas personalidades literárias dos escritores que introduziram o Romantismo nas Letras portuguesas: Alexandre Herculano e Almeida Garrett, romancistas, novelistas e poetas da 1ª metade do século XIX que lutaram pela instituição do movimento político liberal e que pagaram com o exílio em França e Inglaterra essa adesão partidária.

Contrariamente aos escritores da geração literária que os precedeu, os ultra-românticosforam escritores em grande parte comprometidos com o regime político da Regeneração que elogiavam e que, em troca, os recompensava com cargos na política, no jornalismo e na função pública. Gerou-se, assim, o fenómeno da literatura oficial, cuja característica principal foi o conservadorismo (apego excessivo ao passado literário e contestação das ideias novas) e fraca qualidade literária. Fortemente apreciados na época em que escreveram, os poetas ultra-românticos comoviam um público pouco letrado e informado com versos tristonhos, pessimistas, mórbidos e excessivamente sentimentais e pouco criativos. Soares de Passos foi o poeta ultra-romântico mais lido e o poeta António Feliciano de Castilho o mais influente no panorama literário português, devido à protecção governamental de que gozava e que lhe permitia decidir quais os escritores que deveriam ser promovidos. Contra ele, irão insurgir-se os jovens da chamada Geração de 70, sobretudo o poeta Antero de Quental, como veremos mais adiante.

 

A Geração de 70


A Torre da Universidade de Coimbra

Costuma designar-se por Geração de 70 (1870) um grupo de jovens intelectuais que alteraram o panorama literário português, na segunda metade do século XIX. A Geração de 70 surge em Coimbra, cidade onde estudavam e se formaram aqueles que a ela irão pertencer, como é o caso do poeta e pensador açoriano Antero de Quental (cabeça do grupo), do romancista Eça de Queirós, dos historiadores Teófilo Braga e Oliveira Martins, do escritor Ramalho Ortigão e do poeta Guerra Junqueiro.

Eça (à direita) e Ramalho Ortigão

A partir de 1864 Coimbra fica ligada a Paris por linha férrea e esta abertura à Europa influenciou os jovens estudantes de Coimbra que puderam, assim, ter acesso às ideias e obras publicadas no estrangeiro.

Este conhecimento do panorama intelectual, social e político europeu, consciencializou-os do atraso cultural e económico português, facto que os levou a tentar a mudança. De facto, apenas renovam o panorama cultural, embora tivessem pretendido alterar a mentalidade portuguesa em geral. Idealistas, acreditavam que as revoluções sociais aconteceriam por si mesmas.

Estes jovens intelectuais começaram a sua actividade contestária em Lisboa, em reuniões onde expunham os seus ideiais reformistas; juntaram-se, então, em casa de um dos elementos do grupo e estas sessões conjuntas de carácter intelectual ficaram conhecidas pelas reuniões do “Cenáculo”, termo que significa reunião de pessoas que professam as mesmas ideias.

Foi no Cenáculo que nasceu a ideia por parte dos seus elementos de realizar as chamadas Conferências do Casino Lisbonense. Mas a primeira manifestação contestatária da Geração de 70 consistiu no papel que desempenharam, sobretudo Antero de Quental, na polémica que se arrastou nos jornais durante largo tempo e que ficou conhecida na História da Literatura portuguesa por Questão Coimbrã.

  Retrato de família da Geração de 70 (Eça de Queiroz é o 1º a contar da esquerda; ao centro, Antero de Quental)

A 1ª Conferência do Casino: o texto proferido por Antero de Quental

Programa Das Conferências Democráticas

Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social.

         Sob cada um dos partidos que lutam na Europa, como em cada um dos grupos que constituem a sociedade de hoje, há uma ideia e um interesse que são a causa e o porquê dos movimentos.

         Pareceu que cumpria, enquanto os povos lutam nas revoluções, e antes que nós mesmos tomemos nelas o nosso lugar, estudar serenamente a significação dessas ideias e a legitimidade desses interesses; investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; como as Nações têm sido, e como as pode fazer hoje a liberdade; e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.

         Não se pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.

         Abrir uma tribuna, onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este momento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos.

         Ligar Portugal com o movimento, moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada;

         Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa;

         Agitar na opinão pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna;

         Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa:

Tal é o fim das Conferências Democráticas.

         Têm elas uma imensa vantagem, que nos cumpre especialmente notar: preocupar a opinião com o estudo das ideias que devem presidir a uma revolução, do modo que para ela a consciência pública se prepare e ilumine, é dar não só uma segura base à constituição futura, mas também, em todas as ocasiões, uma sólida garantia à ordem.

Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquelas pessoas que ainda que não partilhem as nossas opiniões, não recusam a sua atenção aos que pretendem ter uma acção – embora mínima – nos destinos do seu país, expondo pública mas serenamente as suas convicções e o resultado dos seus estudos e trabalhos.

    Lisboa, 16 de Maio de 1871

A 3ª Conferência esteve a cargo de Eça de Queirós e nela destacam-se os princípios definidores do movimento estético e literário designado por Realismo:

«É a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas;

É a abolição da retórica considerada arte de promover a emoção, usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos;

É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o Realismo é a reacção contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento,o Realismo é a anatomia do carácter, é a crítica do Homem.

É a arte que nos pinta os nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mau na nossa sociedade.» (excerto)

Pela boca de Eça propunha-se uma arte que respondesse às aspirações do espírito dos tempos, que agisse como regeneradora da consciência social e que, desterrando o falso, pintasse a realidade, procedendo pela observação e pela experiência (as novas descobertas cientificas de Darwin, as teorias de Marx e Engels, a crítica segundo Taine são o ponto de partida para o Realismo).

    

Charles Darwin

2ª Conferência do Casino foi escrita e proferida por Antero de Quental que a intitulou

Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos

Antero de Quental

«Meus Senhores:

A decadência dos povos da Península nos últimos três séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história (…) Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva?

(…)

A história dos últimos três séculos perpetua-se ainda hoje entre nós em opiniões, em crenças, em interesses, em tradições, que a representam na nossa sociedade e a tornam de algum modo actual.

Há em todos nós uma voz íntima que protesta em favor do passado, quando alguém o ataca: a razão pode condená-lo: o coração tenta ainda absolvê-lo. É que nada há no homem mais delicado, mais melindroso do que as ilusões: e são as nossas ilusões o que a razão critica; discutindo o passado, ofende sobretudo em nós.

(…)

Já o disse há dias, inaugurando e explicando o pensamento destas Conferências: não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão; (…)

Meus Senhores: a Península, durante os séculos XVII, XVIII e XIX, apresenta-nos um quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quanto contrasta dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do papel que desempenhámos no primeiro período da Renascença, durante toda a Idade Média, e ainda nos últimos séculos da Antiguidade. (…)

Deste mundo brilhante, criado pelo génio peninsular na sua livre expansão, passamos quase sem transição para um mundo escuro, inerte, pobre, ininteligente e meio desconhecido. Dir-se-á que entre um e outro se meteram dez séculos de decadência: pois bastaram para essa total transformação de 50 ou 60 anos! (…)

O povo emudece; negam-lhe a palavra, fechando-lhes as Cortes; não o consultam, nem se conta já com ele. Com quem se conta é com a aristocracia palaciana, com uma nobreza cortesã, que  cada vez se separa mais do povo (…) Nunca povo algum absorveu tantos tesouros, ficando ao mesmo tempo tão pobre! (…)

Tais temos sido nos últimos três séculos: sem vida, sem liberdade, sem riqueza, sem ciência, sem invenção, sem costumes.

(…)

Baixámos sobretudo, pela religião. Da decadência moral é esta a causa dominante! (…) Já não cremos, certamente, com o ardor apaixonado e cego de nossos avós, nos dogmas católicos: mas continuamos a fechar os olhos às verdades descobertas pelo pensamento livre. (…) Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando francamente esse espírito. O seu nome é Revolução: revolução não quer dizer guerra, mas sim paz: não quer dizer licença, mas sim ordem, ordem verdadeira pela verdadeira liberdade. (…)»

Antero de Quental, 27 de Maio de 1871, na sala do Casino Lisbonense

Entrevista a Eça de Queiroz:

in “Diálogo com Eça de Queirós” – A. Campos Matos

(Entrevistador): Como comentou as Conferências do Casino, acontecimento dos mais relevantes do seu tempo, que o governo viria a proibir?

Eça de Queirós: (…) As conferências  hão-de encontrar resistências. Em primeiro lugar o nosso público inteligente e literário ama o bel-esprit, a oratória, a frase. Moda peninsular. Ora as conferências, pela sua natureza científica, experimental – exigem justamente o contrário dos aparatos retóricos. São a demonstração, não são a apóstrofe; são a ciência, não são a eloquência. As declamações têm tirado à democracia o seu carácter privativo de realidade e de ciência. Temos ouvido cantar a democracia, berrá-la, soluçá-la: é tempo de a vermos demonstrar. Deixemos no bengaleiro a nossa perpétua inclinação nacional de escutar odes – e entremos só com a tendência humana de resolver problemas.

E, depois das Conferências fechadas, como foi o teor do seu protesto?

Que se quis fazer calar nas Conferências? Foi a crítica política? Para que se deixa então circular no país os livros de Proudhon, de Girardin, de Luis Blanc, de Vacherot? Foi a crítica religiosa? Para que se consente então que atravessem a fronteira ou a alfândega os livros de Renan, de Strauss, de Salvador, de Michelet?

Queremos a revolução preparada serenamente na região das ideias e da ciência; espalhada pela influência pacífica de uma opinião esclarecida; realizada pelas concessões sucessivas dos poderes conservadores; – enfim, uma revolução pelo governo, tal qual ela se faz lentamente e fecundamente na sociedade inglesa.

É assim que queremos a revolução. Detestamos o facho tradicional, o sentimental rebate de sinos; e parece-nos que um tiro é um argumento que penetra o adversário – um tanto de mais!

Como funcionava o Casino por ocasião das Conferências?

Antes de haver conferências no Casino havia ali cançonetas. Mulheres decotadas até ao estômago, com os braços nus, a pantorrilha ao léu, a boca avinhada, cantavam, entre toda a sorte de gestos desbragados, um reportório de cantigas impuras, obscenas, imundas!

(…)

Como lhe pareceu a literatura em Portugal, no ano das Conferências do Casino, ou seja, 1871?

Convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência colectiva da sociedade, nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. É como um trovador gótico que acordasse de um sono secular numa fábrica de cerveja.

Fala do ideal, do êxtase, da febre, de Laura, de rosas, de liras, de primaveras, de virgens pálidas – e em torno dela o mundo industrial, fabril, positivo, prático, experimental, pergunta meio espantado, meio indignado:

        – Que quer esta tonta? – Que faz aqui? – Emprega-se na vadiagem – levem-na à polícia.

Excerto de Diálogo com Eça de Queirós, A. Campos Matos, ed. Caminho, 1998

 

Acerca do Realismo e do Naturalismo na literatura e na pintura

O Realismo e o Naturalismo foram movimentos estéticos que tiveram expressão nas artes plásticas e na literatura. Ambos nasceram em França por volta de 1850 e, apesar das semelhanças, são tendências estéticas diferentes e correspondem a escolas literárias diferentes.

Realismo e o Naturalismo preocuparam-se com a fidelidade à realidade física, social e psíquica observada pelos artistas que a elas aderiram no tempo histórico e nas sociedades em que viveram; foram, portanto, correntes estéticas que tiveram como objectivo principal imitar a “realidade” e, simultaneamente, rejeitar o movimento estético precedente – o Romantismo, acusado de ser excessivamente imaginativo, subjectivo e sentimental, para além de expressar mais a personalidade do artista do que a realidade social na qual esse artista vivia.

Para os escritores realistas e naturalistas, os românticos mentem porque deturpam a realidade com os próprios sentimentos, desejos, sonhos, etc. Mentindo, falseiam a imagem do tempo em que viveram, contribuindo para o alheamento dessa realidade concreta por parte dos leitores. Ora, segundo os escritores defensores das novas ideias, as sociedades evoluem através do reconhecimento da verdade e não através da fuga permanente a essa realidade pela via da ilusão.

Imitar a realidade é, assim, a palavra de ordem para os realistas e naturalistas, mas o grau em que se processa essa imitação varia e vai fazer distinguir uma corrente estética da outra.

   

Enquanto que o Realismo pretende copiar o mais fielmente possível a realidade, oNaturalismo, surgido depois do Realismo, vai mais longe ao defender que o indivíduo é, quer queira quer não, o produto de leis imutáveis e inexoráveis que são, por isso, determinantes naquilo em que esse ser humano há-de vir a ser; essas “leis” apoiaram-se nos progressos realizados pela medicina e conhecimentos científicos da época (biologia, física, psicologia) e defendiam o seguinte ponto de vista: qualquer ser humano é produto de três factores determinantes na sua vida, a saber:

factores hereditários;

- meio social em que cresce;

- educação recebida.

Tentando trazer a ciência para dentro das obras artísticas, os temas naturalistaspreferidos eram o alcoolismo, a prostituição, o adultério, as taras hereditárias, o vício do jogo, enfim, os problemas de natureza psíquica e ou social comuns a muitos indivíduos e que, na perspectiva naturalista, era preciso denunciar para corrigir a sociedade.

Tanto o Realismo como o Naturalismo são anti-idealistas e preocupam-se em retratar a vida contemporânea com precisão e fidelidade. Ambos os movimentos se interessam pela verdade, pela análise minuciosa da realidade social, pela observação dos factos e pelo rigor descritivo do mundo observado. Os romances são as formas literárias privilegiadas pelos escritores realistas e naturalistas que analisam a vida burguesa na cidade, pólo de tensões políticas, sociais e económicas.

Três nomes e três correntes de pensamento estão por detrás das novas correntes estéticas: o positivismo de A. Comte, o evolucionismo de Darwin e o determinismo de Taine.

O termo “realismo” já era conhecido pelos membros da Geração de 70 na altura da Questão Coimbrã; na Conferência do Casino proferida por Eça de Queirós a palavra aparece no título «O Realismo como Nova Expressão da Arte»; no entanto, Eça não distingue o Realismo do Naturalismo e os dois conceitos surgem com idêntico significado.

Eça de Queirós escreveu a propósito do Realismo/ Naturalismo (não distingue as duas correntes estéticas, como foi dito antes) no texto da sua Conferência:

«Por outro lado, o realismo é uma reacção contra o romantismo: o romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter, é a crítica do homem. (…) A norma agora são as narrativas a frio, deslizando como as imagens na superfície de um espelho, sem intromissão do narrador. O romance tem de nos transmitir a natureza em quadros exactíssimos, flagrantes, reais.»

 Pintura realista: Monet, França, séc. XIX

E ainda:

«Na carta a Rodrigues de Freitas (30 de Março de 1878), em que agradece penhoradamente um artigo elogioso sobre o Primo Basílio, faz uma calorosa defesa da sua escola:

«O que lhe agradeço profundamente é a sua defesa geral do «Realismo». Os meus romances importam pouco; está claro que são medíocres; o que importa é o triunfo do Realismo – que, ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século e destinada a ter nas sociedades e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase a dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc. (…)»

In Eça, Discípulo de Machado?, Alberto Machado da Rosa, ed. Presença, 2ª edição (excerto)

«De uma maneira ou de outra, a concepção do realismo exposta por Eça no Casino deve ter causado sensação pela sua originalidade e pelo seu carácter «suis generis», explicados por tudo o que dissemos e, indubitavelmente também, porque se trata de uma concepção integradora ou antecipadora do naturalismo. Por isso, dizíamos, o seu realismo é desde a primeira hora de cariz claramente naturalista.

E um texto posterior, datado de 1879 e mantido inédito pelo autor, «Idealismo e Realismo» – projectado para ser um prefácio à 2ª edição de O Crime do Padre Amaro, de leitura fundamental para a compreensão do conceito de realismo em Eça – é de certo modo a confirmação daquela dimensão original, «suis generis» e primitivamente naturalista do realismo queirosiano. Nele, o autor recusa-se a aceitar o naturalismo como uma «escola, com a sua retórica própria» e a atribuir a sua paternidade a Zola:

«Não – perdoem-me – não há escola realista. Escola é a imitação sistemática dos processos dum mestre. Pressupõe uma origem individual, uma retórica ou uma maneira consagrada. Ora o naturalismo não nasceu da estética peculiar dum artista; é um movimento geral da arte, num certo momento da sua evolução. (…) O naturalismo é a forma científica que toma a arte, como a república é a forma política que toma a democracia, como o positivismo é a forma experimental que toma a filosofia. (…)»

in As Máscaras do Desengano, Isabel Pires de Lima, Caminho

Síntese das características do Realismo/ Naturalismo*:

- Os escritores e artistas em geral deverão expressar conteúdos ideológicos com profundidade, baseados na reflexão sobre as condutas sociais e sobre as leis que as determinam; como questionou Antero de Quental aquando da polémica da Questão Coimbrã:

«Será possível viver sem ideias? Esta é que é a grande questão

A literatura deverá inspirar-se nas grandes questões contemporâneas a nível político, social, cultural, religioso e científico.

o escritor pretende ser impassível/objectivo e isento face à realidade descrita, seja de natureza física, seja de carácter social ou moral.

A busca da impassibilidade corresponde à tentativa de refrear a expressão das emoções e sentimentos individuais; assim, a realidade poderá ser “transportada” para a obra tal como é, fielmente retratada por artistas que conservam a neutralidade perante o que observam;  serão evitados os juízos de valor (considerações sobre a moralidade ou imoralidade das acções humanas, sobre o que é bem ou o que é mal, o feio ou o belo, o vício e a virtude, etc.).

- a impassibilidade enunciada no ponto anterior não significa que o artista desista da crítica social e da tentativa de alterar os costumes/ mentalidades/ tendências que impedem a reforma social pretendida pelos escritores realistas. A crítica social e de costumes é o principal objectivo a atingir e os realistas não hesitam em transformar em discurso literário as cenas e aspectos sociais degradantes que antes se encontravam completamente arredados da “boa literatura”.

Aliando-se ao Naturalismo, os romances realistas são construídos para comprovar “teses”, sendo, por isso, deterministas, isto é, o comportamento social tem causas que o explicam e essas causas estão relacionadas com a genética, o meio em que os indivíduos se desenvolvem e com a educação (valores, conceitos) que lhes foram ensinados desde a infância.

Consequentemente, o romance tipicamente naturalista vai defender que, por exemplo, um indivíduo alcoólico o é em função das tais causas anteriormente referidas. Não haverá saída para este indivíduo cuja vida de adulto é determinada por factores que ele não controla.

busca do rigor no discurso escrito: as acções deverão ser referidas sem convencionalismo e com naturalidade, já que a literatura espelha a realidade. Os escritores realistas procuram desenhar com palavras os espaços físicos, o retrato físico, psicológico e moral das personagens, recorrendo a abundantes pormenores descritivos que se aglomeram em fragmentos textuais descritivos normalmente longos.

No entanto, não são os espaços físicos os privilegiados nos romances realistas/naturalistas, mas o espaço social, devido à tentativa de reformar os costumes.

   Gustave Courbet
*O Naturalismo difere do Realismo na medida em que faz da narrativa literária um meio de demonstração de teses científicas. Controlando ou pondo de lado a sua sensibilidade, o escritor naturalista analisa as feridas sociais por mais desagradáveis que sejam com um rigor técnico mais próprio de um livro científico do que literário. Devido a esta confusão entre obra literária e científica, o movimento naturalista teve curta duração relativamente ao Realismo.

O fim da Geração de 70

Os Vencidos da Vida

  Os Vencidos da Vida

Esta é a designação atribuída à 2ª fase da Geração de 70 após terem desistido da acção política e ideológica que antes propunham levar a cabo.

O grupo, profundamente insatisfeito com o cenário político, social e cultural português, surgiu em 1887, à mesa do restaurante lisboeta “Tavares”, mas a maioria dos encontros passou a realizar-se  no Hotel Bragança que foi o primeiro grande hotel construído em Lisboa, nas primeiras décadas do século XIX.

As finalidades desta associação de intelectuais lisboetas e personalidades de relevo na vida política e social eram de convívio de mentalidades afins e de diversão; eram conhecidos pela designação de «os onze do Bragança» e o carácter fechado, exclusivo e snob destas reuniões provocou algum ressentimento na vida intelectual lisboeta que se traduziu em ataques e críticas contra os membros desta “aristocracia” intelectual e mundana.

O grupo separou-se por volta de 1894, devido à morte de alguns dos seus membros e/ ou a diferentes rumos de vida e, também, devido à situação política que o país atravessava.

«Há, assim, a primeira fase, a de uma linha ideológica nitidamente evolutiva, que vai do período polémico, antes da década de 70, do «Bom Senso e Bom Gosto» – polémica de Antero, ainda ao lado de Teófilo Braga, em Coimbra, contra o provincianismo cultural da degenerescência romântica dominada por António Feliciano de Castilho (…) A segunda fase, que é a fase final e que corresponde ao fim do século, é a fase dos Vencidos da Vida. É a fase em que Eça (como, aliás, Antero e Oliveira Martins) renuncia à acção política e ideológica imediata. Surge então a idealização vaga de uma aristocracia iluminada, contraponto do socialismo utópico. (…) É a fase também da suprema ironia queirosiana. Do mesmo ano de 1889, note-se outro texto de Eça, publicado anonimamente no nº 29 do jornal O Tempo, em resposta a um comentário que, na véspera, Pinheiro Chagas fizera, no Correio da Manhã, à designação de «Vencidos da Vida». O escritor começa por caricaturar, referindo-se ao «grupo jantante» que todas as semanas se reunia no Hotel Bragança:

«Homens que assim se reúnem poderiam logo, neste nosso bem amado país, ser suspeitados de constituir um sindicato, uma filarmónica ou um partido. Tais suposições seriam desagradáveis a quem se honra de costumes comedidos; o respeito próprio obriga-os a especificar bem claramente, em locais, que, se em certo dia se congregam, e apenas para destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares».

Logo adiante, o tom é mais dramático, definindo bem o espírito da Geração de 70 nesta sua fase final do grupo dos «Vencidos da Vida»:

«…para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava.»

Que este «ideal íntimo», a que os mais importantes representantes da Geração de 70 aspiravam, não foi historicamente atingido prova-o ainda o suicídio de Antero, em 1891. Entretanto, a burguesia fin-de-siècle, indiferente às aspirações dos «Vencidos da Vida», prepara-se para uma nova fase da sua história, a da instauração da República, uma república que nasceu da pequena burguesia e que foi, como disse António Sérgio, «meramente formal, sem ideias, saída de uma romântica dramatização da política e sem nada melhorar no que é estrutural e básico.»

A Geração de 70 – uma revolução cultural e literária, por Álvaro Manuel Machado, ed. Biblioteca Breve.

Ideias – 1ª parte

- Psicologia das personagens;

- Decadência nacional;

Rafel Bordalo Pinheiro:  Zé Povinho

Psicologia das personagens*

«A autenticidade psicológica das personagens queirosianas tem sido posta em causa por mais de uma vez por alguns críticos da obra do romancista. A seu ver, o narrador omnisciente nem sempre mantém no desenrolar da narrativa a impassibilidade necessária e desejável, carregando o traço na descrição de certas figuras de tal modo que as diminui ou desumaniza, tornando-as francamente grotescas ou até mesmo ridículas. Eça manifestaria, assim, uma parcialidade e uma tomada de posição na sua escrita, que condicionaria o espírito do leitor, influindo o juízo que, sobre elas, este pudesse eventualmente formar, levando-o a aderir a um ponto de vista que é sensivelmente o do próprio autor. (…)

Mas os tipos e as figuras secundárias que se encontram na ficção de Eça, desempenham uma função específica. Elas incluem-se, efectivamente, no campo de visão do realismo crítico. Para Eça a sociedade portuguesa da Regeneração deve ser observada com todos os vícios e defeitos da sua educação ultra-romântica. Ela deve ser entendida e verberada no que tem de caduco, de inadequado aos valores do mundo moderno. A ironia, que implica o distanciamento crítico, impõe a perspectiva correcta de análise, constituindo para Eça e para os ficcionistas que se integram na mesma corrente, um processo eficaz de conseguir a objectividade narrativa. (…)

De Taine, no plano teórico, Eça não herda apenas as noções gerais da doutrina psicológica e as pistas a  seguir no descobrimento da vida psíquica. O romancista tem decerto conhecimento do estudo daquele autor, intitulado De l’ideal dans l’art (Paris, 1867), porque as suas técnicas de caracterização das personagens e o fio condutor da fábula romanesca pautam-se, em larga escala, pela orientação aí definida como essencial na avaliação de uma obra de arte. Taine sustentava que só a convergência de efeitos, convenientemente doseados, permitia ao autor atingir na sua obra aquela integridade que lhe conferia a qualidade artística. O processo que levava a essa convergência, desenvolvia-se seguindo três linhas fundamentais: o estudo dos caracteres; as situações e acontecimentos que constituem a acção e o estilo.

Ora, na análise dos caracteres, Eça detém-se nos chamados factores inatos e nos condicionamentos que os moldam. (…) A inteligência e a vontade são, porém, as faculdades mestras que definem o carácter. Ora, a vontade varia, na sua intencionalidade, de acordo com a têmpera moral de cada personagem. Se as condições em que se forma o carácter de Amélia e o de Amaro, por um lado, e o de Luísa e o de Basílio, por outro, não têm comparação com as que assistem à formação de um Carlos da Maia, a verdade é que a educação sentimental de cada um deles acusa, em momentos de crise, efeitos muito semelhantes. Os dois primeiros formam-se num meio provinciano, devoto e hipócrita; os segundos movem-se num meio urbano, que é a extensão da comédia daquele. Mas já o último conhece uma educação completamente diferente, moldada no padrão britânico da acção e de um pensamento pragmático, voltado para realidades concretas. Contudo, o ambiente não é propício. Carlos abre um consultório médico, mas, em lugar de doentes, quem o procura são os amigos. Gradualmente a sua vontade de realização profissional vai sendo embotada. Ideia, então, com os amigos, grandes projectos de intervenção social que, escorada em sólida propriedade fundiária, vive de grossas rendas, gera a disponibilidade para a aventura amorosa e a satisfação do capricho pessoal como panaceia contra o tédio. É neste contexto que aparece Maria Eduarda. A sua presença causa sensação no estreito círculo mundano lisboeta. Porque a sua beleza, além do halo cosmopolita que lhe confere o trato das grandes cidades, faz dela um ser singular, colocando-a muito acima da mediania. Carlos enamora-se desta formosura ímpar. 

Ora, Mª Eduarda é, de certo modo, o produto de uma selecção sexual que mostra uma vertente darwiniana até hoje não detectada no enredo d’Os Maias. A sua compleição de mulher sadia, a beleza que irradia e transmite à filha, os traços físicos, como a pupila azul de Rosa que leva Carlos a interrogar-se acerca da sua possível origem, são alguns dos indicadores que alertam o leitor para esta pista.

Carlos, ser eugenicamente perfeito, tal como Mª Eduarda, vai ser corroído na sua força de vontade pelo meio, enleado cada vez mais naquela paixão que porá todo o seu ser a uma grande prova: a descoberta de que Mª Eduarda é sua irmã. O seu intenso conflito interior, os seus sucessivos adiamentos em consumar a inevitável ruptura, o prolongar das relações entre eles, calando o segredo, até sentir a repulsa física que o afasta do corpo dela, nada têm a ver, como às vezes se tem alegado, com qualquer determinismo biológico. Toda essa experiência é o caminho para a autenticidade psicológica e a tomada de consciência de ter vivido apenas aparências e ilusões no amor, nos seus objectos e aspirações. O Acaso, que sela esta tragédia, é uma monstruosidade absurda.

Mas o acaso tem raízes longínquas e complexas, que se podem entender como um conflito mais amplo dentro da perspectiva da selecção sexual definida por Darwin. EmThe Descent of Man and Selection in Relation to Sex (1871), sustenta este que, em todas as espécies tirante o género humano, a fêmea exerce geralmente o poder de selecção. Nas sociedades humanas domina a escolha do homem, embora nos «países civilizados as mulheres tenham uma escolha livre, ou quase livre», sendo a beleza o factor primacial que a governa. (…)»

*Luís de Sousa Rebelo, Graciliano Ramos e Eça; Psicologia das Personagens (excertos)

 Decadência

«E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! Desde esse momento, a dúvida fora nele como que a névoa que o sol, este radiante sol português, desfaz nos ares… E agora, apesar de todas as ironias da ciência, apesar dos escárnios orgulhosos de um Renan, de um Littré e de um Spencer, ele, que recebera a confidência divina, podia ali, com a mão sobre o coração, afirmar bem alto – havia um Céu!

   - Apoiado! – mugiu da coxia um padre sebento.

E por todo o salão, no aperto e no calor do gás, os cavalheiros das Secretarias, da Arcada, da Casa Havanesa, berrando, batendo as mãos, afirmaram soberbamente o Céu! (…)

  – Faz nojo! – rugiu surdamente o poeta.

Tremia, revoltado! Numa noite daquelas, toda de poesia, quando os homens de letras deviam mostrar como são, filhos da Democracia e da Liberdade, vir aquele pulha pôr-se ali a lamber os pés à família real… Era simplesmente ascoroso!»

Os Maias, cap. XVI, pp. 590, 591

«O tema da decadência das sociedades e, em particular, da sociedade portuguesa atravessa de um modo recorrente e obsessivo a ficção de E.Q. bem como as suas crónicas e textos de jornalismo. Tema marcante na cultura portuguesa oitocentista, embora com raízes muito anteriores (…) Conceito vincadamente ideológico, decadência pressupõe a memória de um passado grandioso (ou, pelo menos, de um passado em que se afirmaram feitos e qualidades que se perderam), o contraste entre um presente de deterioração, de dissolução e mediocridade e um passado de progresso em que se evidenciavam nobres virtudes (…) A ideia de decadência, muito em voga em alguns países da Europa na segunda metade do século passado e nas primeiras décadas do século XX, prende-se nessa época com as correntes do evolucionismo (segundo o qual a evolução é a lei geral dos seres, não apenas do ponto de vista físico mas espiritual e social), o biologismo social e o organicismo, que encaram as sociedades como organismos análogos a seres vivos que, percorrendo um ciclo vital, do nascimento à decadência e morte, passam por um período áureo, de acordo com leis semelhantes às leis biológicas. Naturalmente, tais doutrinas não são estranhas à emergência do positivismo, à definição e desenvolvimento da sociologia como nova ciência, à definição de métodos positivos no domínio das ciências naturais, baseados na observação dos fenómenos e na introdução de leis. Lembre-se que Herculano, personificando Portugal, considerava-o num estado de «velhice aborrida e decrépita» (…) Também Eça, nos textos de jornalismo, se referiu metaforicamente ao «inválido-Portugal», esse «doente» que não tinha ninguém que o curasse ou lhe desse «uma vida proveitosa», a um estado em que o país vegetava «na sua sonolência animal», ao «corpo exangue deste malfadado país», à «febre» da sua decadência. (…)

Mas a ideia de decadência só faz sentido ao admitir o seu reverso, isto é, ao trazer habitualmente implícito, ou pelo menos ao pressupor, por antítese, determinado modelo ideal de perfeição (…) lembre-se o perfil vertical de Afonso da Maia, presença forte em todo o romance, a acentuar o contraste com o meio dissoluto em que se movia, que acabou por sucumbir, vítima desse mesmo meio.

Noutros textos do Jornal de Évora, a decadência surgirá associada a «inércia», a «consciências maculadas», a «espíritos enegrecidos» (…) Outros termos associados a decadência são «morte», «abaixamento de Portugal», «indolência», «perversidade», «desmoralização», «pobreza», «infâmia», «vileza», «crise», «inferioridade». De tão longa e excessiva relação de palavras directamente associadas a decadência, podemos aferir a complexidade desta ideia-chave. Decadência é algo de íntimo, profundamente enraizado nas consciências, algo de aviltante entorpecedor, arrastando consigo ideias ditatorais. É um sentimento dissolvente que há muito penetrou na sociedade portuguesa, um movimento regressivo, desorganizador e anarquizante, no sentido de uma entropia máxima: «Vivemos há muito tempo nesta anarquia de todos os abusos, de todas as licenças, de todas as corrupções: é necessário ordenar e regularizar o país.» (E.Q., Páginas de Jornalismo, 1867).

Outros ingredientes do declínio são para o jovem Eça a preguiça e a esterilidade da juventude burguesa «abonecada, bem composta e vazia de ideias e de sentimentos», o «falso janotismo», a dependência do Estado e do patrocinato, «as educações atrofiadoras, o sentimentalismo mórbido» e, como se já não chegassem estes vícios bem portugueses, impiedosamente farpeados por Eça e Ramalho em As Farpas, acrescenta-lhes «o desleixo dos interiores domésticos, a religião por chique, a porcaria inveterada, etc.» (…) outra componente do ideia queirosiana de decadência: a degenerescência da raça em Portugal (por contraste implícito com a inglesa): «Quando chego a Portugal, depois de um ano em Inglaterra – além de tanta, tanta coisa que estranho – há uma coisa que me deslumbra, e outra que me desola: deslumbram-me as fachadas caiadas, e desola-me a população anémica. Que figuras! O andar desengonçado, o olhar mórbido e acarneirado, cores pele de galinha, um derreamento de rins, o aspecto de humores linfáticos, a passeata triste de uma raça caquética em corredores de hospital: e depois um ar de vadiagem, de ora aqui vou,sim senhor, de madrice, olhando em redor com fadiga, o crânio exausto, e a unha comprida, para quebrar a cinza do cigarro, à catita.» 

in Carta a Joaquim de Araújo, 1878

«Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o Eusebiozinho. Parecia mais fúnebre, mais tísico, dando o braço a uma senhora muito forte, muito corada, que estalava num vestido de seda cor de pinhão. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusébio nem os viu, descaído e molengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da sua sombra.

  – Aquela aventesma é a mulher – contou o Ega

Os Maias, cap. XVIII, p. 705

Numa outra carta, desta vez a Fialho de Almeida, o romancista caracteriza o perfil do português que retrata na sua ficção, «sob os seus costumes diversos», como «um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mole de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias» (Notas Contemporâneas)

Repare-se que para Eça, de acordo aliás com os princípios do naturalismo, a própria política era condicionada pelo meio, ou seja, pela raça, pelo clima, pela ascendência e pela natureza, aquilo a que ele chama «condições de constituição que actuam fatalmente». (Páginas de Jornalismo, 1867)

Adoptando esta concepção determinista, não é de admirar que afirme sobre o carácter dos portugueses: «A nossa preguiça natural é bem conhecida, o nosso carácter meridional é bem meridional.» (Páginas de Jornalismo, 1867)

Por outro lado, o carácter «bom» e «sofredor» dos portugueses seria produto da beleza do nosso meio natural. A própria dinâmica do progresso, a «lei do progresso» a que Eça se refere noutros textos, seria, na sua opinião determinada pelo factor rácico: «… por toda a parte onde apareceu a raça gaulesa, raça fácil e simpática, a civilização deu alguns passos. E devemos dizê-lo com verdade: onde tem aparecido a raça ibérica, raça arrogante e violenta, o movimento social tem-se retardado». (in Ciências Sociais e Políticas, 1867)

A que distância nos encontramos ainda do seu antifrancesismo da maturidade (expresso em tantas crónicas e na correspondência a partir dos anos 80), dessa reacção à excessiva e perniciosa influência da cultura francesa em Portugal, em domínios tão diversos como a moda ou a culinária! (…)

A decadência que ele define como um processo (trata-se de uma ideia essencialmente dinâmica) no sentido de «um estado de ruína e de miséria incurável» (Páginas de Jornalismo), teria como epílogo, muito provavelmente, uma invasão estrangeira, uma simples anexação (…) «O povo poderá sacrificar-se, mas não poderá resisitir. As nações enfraquecidas e doentes estão à mercê de qualquer abalo».

Pensamos que esta atitude pessimista, este quase apelo da catástrofe em que, apesar de tudo, a honra e a coragem se salvariam, só poderá entender-se cabalmente no quadro do determinismo sociológico que Eça já teoriza aos 21 anos. (…) De qualquer modo e independentemente da aferição da verdade contida em certas reflexões queirosianas sobre Portugal e o seu porvir, importa realçar que para Eça tudo se passa como se o «doente-Portugal» estivesse, de há longa data, submetido a um destino inelutável, a determinados factos e processos necessários e inevitáveis, a leis sociais, de acordo com mecanismos semelhantes aos que regem os fenómenos naturais.

Subjacente à maior parte das obras de ficção, encontramos mais ou menos explícita, por vezes apenas implícita ou subtilmente acentuada, a obsessão decadentista. O seu expoente máximo será sem dúvida, Os Maias, essa «história simbólica da ruína de uma família que, a seu modo, na sucessão das suas gerações desde o antigo regime até ao Portugal contemporâneo de Eça, representa o destino e até os períodos da história de um país – Portugal», «história de uma degenerescência», do malogro trágico de uma ds melhores famílias da sociedade portuguesa. Irremediável parece ser essa «fatal e dissolvente decadência que amarfanha o país e destrói a fibra nacional» (J. Medina, O Niilismo de E.Q. n’Os Maias, E.Q. e a Geração de 70)

Irremediável fora igualmente o incesto de Carlos e Mª Eduarda, como que a reforçar a ideia central do romancista: a fatalidade, o destino amargo que empurrava Portugal para um processo de dissolução, para um falhanço inevitável.» *


*Campos Matos, Dicionário de Eça de Queirós, ed. Caminho (excertos)
Uma visão crítica e pessimista de Portugal

«Carlos ria-se desta ideia do Ega. Três mulheres de gosto e de luxo, em Lisboa, para adornar um cenáculo! Lamentável ilusão de um homem de Celorico! O marquês de Souselas tinha tentado, e para só uma vez só, uma coisa bem mais simples – um jantar no campo com actrizes. Pois fora o escândalo mais engraçado e mais característico (…) Depois, os chulos, os queridos, os polhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam ser convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos, fizeram-se intrigas – enfim, esta coisa banal, um jantar com actrizes, resultou em o Tarquínio do Ginásio levar uma facada…

  – E aqui tens tu Lisboa.

  – Enfim – exclamou o Ega – se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos da Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas… Nós julgamo-nos civilizados como os negros de São Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão…Isto é uma choldra torpe.»

Os Maias, cap. IV

« – E a propósito, a tua comédia, o «Lodaçal»? – perguntou Carlos, que entrara um instante para a alcova de banho.
– Abandonei-a – disse o Ega. – Era feroz de mais… E além disso fazia-me remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sarjeta humana …Afligia-me..
Os Maias, cap. XII, p. 383

- Portugal vs Inglaterra

«Os paços de Celas, sob a sua aparência preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. (…) E as discussões metafísicas, as próprias certezas revolucionárias adquiriam um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes.

Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas intactas, os seus expositores de medicina. A Literatura e a Arte, sob todas as formas, absorveram-no deliciosamente.

Publicou sonetos no «Instituto» – e um artigo sobre o Parténon: tentou num atelier improvisado, a pintura a óleo; e compôs contos arqueológicos, sob a influência de «Salambô». Além disso todas as tardes passeava os seus dois cavalos. No segundo ano levaria um R se não fosse tão conhecido e rico. (…) tinha nas veias o veneno do diletantismo e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um desses médicos literários que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer!»

Os Maias, cap. IV

«As semanas foram passando nestes planos de instalação. Carlos trazia realmente resoluções sinceras de trabalho: a ciência como mera ornamentação interior do espírito, mais inútil para os outros que as próprias tapeçarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de solitário: desejava ser útil. Mas as suas ambições flutuavam, intensas e vagas; ora pensava numa larga clínica; ora na composição maciça de um livro iniciador; algumas vezes em experiências fisiológicas, pacientes e reveladoras…Sentia em si, ou supunha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha de aplicação«Alguma coisa de brilhante», como ele dizia: e isto para ele, homem de luxo e homem de estudo, significava um conjunto de representação social e de actividade científicao remexer profundo de ideias entre as influências delicadas da riqueza; os elevados vagares da filosofia entremeados com requintes de sport e de gosto; um Claude Bernard que fosse também um Morny… No fundo era um diletante.»

Os Maias, cap. IV

«Carlos já falava a sério da sua carreira. Escrevera com laboriosos requintes de estilista, dois artigos para a «Gazeta Médica», e pensava fazer um livro de ideias gerais que se devia chamar «Medicina Antiga e Moderna».

De resto ocupava-se sempre dos seus cavalos, do seu luxo, do seu bricabraque. E através de tudo isto, em virtude dessa fatal dispersão de curiosidade que, no meio do caso mais interessante de patologia, lhe fazia voltar a cabeça se ouvia falar de uma estátua ou de um poeta, atraía-o singularmente a antiga ideia do Ega, a criação de uma revista, que dirigisse o gosto, pesasse na política, regulasse a sociedade, fosse a força pensante de Lisboa…

Era porém inútil lembrar ao Ega este belo plano. Abria o olho vago, respondia:

   – Ah, a revista…Sim, está claro, pensar nisso! Havemos de falar, eu aparecerei…»

Os Maias, cap. V

Diletantismo:

«Qualidade própria do indivíduo que se dedica a uma arte de forma ligeira, sem se preocupar com o estudo e a reflexão permanentes, por considerar que a arte deve ser uma forma de puro lazer, onde a vocação e o trabalho não têm lugar.

(…)

O diletante, com efeito, corre entre as ideias e os factos como as borboletas (a quem é desde séculos comparado) correm entre as flores, para pousar, retomar logo o voo estouvado, encontrando nessa fugidia mutabilidade o deleite supremo.»

Carlos Ceia, Dicionário de Termos Literários

A influência britânica em Os Maias:

«- É um inglês, uma espécie de doido?…

Ega encolheu os ombros. Um doido!…Sim, era essa a opinião da Rua dos Fanqueiros o indígena, vendo uma originalidade tão forte como a de Craft, não podia explicá-la senão pela doidice. O Craft era um rapaz extraordinário!…Agora tinha ele chegado da Suécia, de passar três meses com os estudantes de Upsala. Estava também na Foz…Uma individualidade de primeira ordem!

  – É um negociante do Porto, não é?

  – Qual negociante do Porto! – exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face, enojado de tanta ignorância. – O Craft é filho de um clergyman da igreja inglesa do Porto. (…) Tem viajado por todo o universo, colecciona obras de arte, bateu-se como voluntário na Abissínia e em Marrocos, enfim vive, vive na grande, na forte, na heróica acepção da palavra. É necessário conhecer o Craft. Vais-te babar por ele…»

Os Maias, cap. IV

«Carlos tranquilizou Miss Sara. Oh, ela via bem que mademoiselle estava boa. (…)Oh, se fosse uma criança inglesa saía com ela para o ar… Mas estas meninas estrangeiras, tão débeis, tão delicadas… E o labiozinho gordo da inglesa traía um desdém compassivo por estas raças inferiores e deterioradas

Os Maias, cap. IX

A teoria mais viável para explicar a extraordinária incidência de aspectos ingleses n’Os Maias parece ser a de que, após mais de uma década de vida em Inglaterra, Eça se tornou vítima daquilo a que se pode chamar «o efeito da ausência» – um fenómeno por ele pressentido e lamentado já em 1878, quando em 8 de Abril desse ano, se queixa a Ramalho da dificuldade em descrever Portugal e os portugueses «longe do grande solo de observação», ou quando, em carta a Luís de Magalhães, de 26/10/1888, reconhece a «desnacionalização dos caracteres» d’Os Maias.

Dois temas importantes do romance – a educação e o gentleman – são de óbvia influência inglesa. (…)

|Eusebiozinho| é a caricatura de uma criancinha deslambida e molengona educada num ambiente de senhoras muito religiosas de província, que lhe proíbem uma vida natural e sadia e o obrigam a declamar poemas ultra-românticos fazendo dele a personificação do menino-prodígio. (…) Carlos detestava-o. (…) Eça parece ter querido demonstrar o resultado de uma educação obsoleta, falsamente religiosa. É Afonso da Maia quem caracteriza tal educação, fortemente contrastante com a que o próprio Afonso dera ao seu neto Carlos. (…)»

*Dicionário de Eça de Queiroz, A. Campos Matos, ed. Caminho, 1988

Educação portuguesa versus educação inglesa

« - Mas enfim os clássicos – arriscou timidamente o abade.

    – Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste nisto: criar a saúde, a força e os seus hábitos, desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo de uma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois… A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande…»

Os Maias, cap. III, p. 63

«Não havia verdadeiramente senão uma coisa digna de se estudar, eram as línguas. Parecia insensato que se torturasse uma criança com botânica, astronomia, física… Para quê? Coisas inúteis na sociedade. Assim, o pequeno dela, agora, tinha lições de química… Que absurdo! Era o que o pai dizia – para quê, se ele o não queria boticário?»

Os Maias, cap. IX, p. 294

«Uma referência à caracterização das personagens dos Maias que não passasse pela problemática da educação seria forçosamente uma referência lacunar. Em primeiro lugar, porque se trata de um sector fundamental da existência da personagem; e isto sobretudo quando nos situamos no contexto da estética naturalista, mas também num romance como Os Maias, parcialmente tributário ainda dessa estética, como se viu já. Em segundo lugar, porque o tema da educação possui, nas obras de Eça de Queirós, uma representatividade considerável: no Primo Basílio e no Crime do Padre Amaro (ainda, portanto, na fase vigorosamente naturalista); na Relíquia e na Correspondência de Fradique Mendes, passando pelos Maias, de que aqui nos ocupamos, sempre os programas pedagógicos a que se sujeitam as personagens têm um lugar de relativo destaque.»
Introdução à leitura d’Os Maias, Carlos Reis, ed. Livraria Almedina, 1984 (excerto)
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