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Álvaro de Campos no Exame de Português de 2011

Junho 20, 2011

Vou deixar aqui algumas sugestões de análise do poema de Álvaro de Campos que saiu hoje, dia 20 de Junho, no Exame Nacional de Português, considerando apenas as questões que foram colocadas pelos autores do exame.

O poema de Álvaro de Campos foi este:

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,

Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.

São felizes, porque não são eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,

Vivem entre vasos de flores,

Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,

Cantam sempre, sem dúvida.

Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.

Assim tem que ser onde tudo se ajusta –

O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?

Quais outros? Não há outros.

O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,

Ou, quando se abre,

É para as crianças brincarem na varanda de grades,

Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.

Os outros nunca sentem.

Quem sente somos nós,

Sim, todos nós,

Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada? Não sei…

Um nada que dói…

Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Assírio e Alvim, 2002

A pergunta nº1 pedia duas sensações representadas nas quatro primeiras estrofes.

Nas estrofes apontadas, há a registar sensações (expressões e vocábulos sugestivos de percepções sensoriais) ….

visuais: «Moram ali pessoas (…) que já vi (…)»; «As crianças, que brincam às sacadas altas,/ Vivem entre vasos de flores»;

auditivas: «As vozes que sobem do interior doméstico,/ Cantam sempre, (…)/Sim, devem cantar.// Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.» (visuais e auditivas).

Na pergunta nº2, pede-se aos alunos para caracterizarem o tempo da infância tal como é apresentado na terceira estrofe do poema.

A infância é considerada pelo sujeito poético observador, como uma fase da vida marcada pelo prazer de viver e pela despreocupação face ao futuro; a plenitude existencial que é associada à infância é sugerida pela referência às brincadeiras das crianças nas «sacadas altas», embelezadas com «vasos de flores», expressão que conota os aspectos afáveis da vida e a ausência de obstáculos a enfrentar, visto que as crianças «Vivem entre vasos de flores», isto é, sendo inocentes, desconhecem as agruras que a vida apresenta aos adultos; e, devido a essa ingenuidade infantil, crêem que a alegria sentida no presente em que brincam se irá eternizar, razão pela qual não a questionam: « Sem dúvida, eternamente». As formas verbais empregues no presente do indicativo («brincam» e «vivem») sugerem o carácter intemporal e universal da crença na vida  e visão positiva da mesma por parte das crianças já que a pouca experiência de vida de que dispõem não lhes ensinou mais nada. O tempo da infância caracteriza-se, portanto, pelo prazer de sentir e agir livremente, pela espontaneidade, pela ligeireza e despreocupação, pela inocência, pela fé no futuro, enfim, pela alegria de viver.

Na pergunta nº3, pedia-se aos alunos para explicarem a relação que o sujeito poético estabelece com «os outros», tendo em consideração as 6 primeiras estrofes do poema. A explicação deveria ser fundamentada com excertos textuais, como sempre acontece.

Ao longo das estrofes apontadas, o sujeito poético estabelece uma oposição entre ele próprio e «os outros»; assim, «os outros», grupo humano de que fazem parte crianças e adultos e cuja felicidade é exteriorizada quer através das brincadeiras despreocupadas das crianças na varanda quer através do tom melodioso das vozes que se ouvem na rua quer pela integração harmoniosa desses «outros» no espaço físico e social em que se inserem:

«Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.

Assim tem que ser onde tudo se ajusta –

O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza

Assim, o homem, a natureza e a cidade são vistos como parte de um Todo harmonioso e propiciador de felicidade já que a interacção entre as «partes» do Todo é positiva.

A ideia da suposta felicidade alheia nasce do desconhecimento que o sujeito poético tem sobre a vida d’ «os outros»: «Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.» Os «outros» foram observados distraidamente e por isso, embora tenham sido objecto do olhar do Eu, não foram «vistos» na medida em que não foram alvo de uma observação atenta, crítica, imparcial e, sobretudo, interessada; o reconhecimento deste facto, leva o sujeito poético a auto- corrigir-se: «que já vi mas não vi»;

O grupo humano detentor da suposta felicidade que o sujeito poético lhe atribui não existe porque resulta de um acto de imaginação do Eu que, desajustado de si próprio e da vida, projecta nos outros os sentimentos positivos de que carece. Os advérbios de tempo «sempre» e «eternamente» contribuem para reforçar a ideia de que não só a felicidade alheia resulta da capacidade de idealizar realidades diferentes daquela que vive no seu íntimo, como também deixa transparecer a necessidade de perspectivar uma realidade sonhada, como contraponto ao vazio existencial que o habita. «Os outros» valem, portanto, como espaço no qual se projecta o desejo de recuperação do paraíso perdido, tempo de harmonia existencial que ficou confinado ao tempo da infância e a racionalidade e a lucidez fizeram perder.

Por outro lado, «os outros» e a felicidade que parecem ter aos olhos do sujeito poético, propiciam a mágoa de não ser como eles: «São felizes, porque não são eu.» E a lucidez do sujeito poético, se por um lado lhe permite ostentar uma pose de certa altivez relativamente ao «vulgo» incapaz de «ver» o sem-sentido da existência, por outro lado, está na base da depressão, do pessimismo que caracteriza a obra poética de Campos, na 3ª fase. Assim, consciente da falsidade do cenário idílico em que envolveu «os outros» (idílico porque desajustado da realidade), o sujeito poético exclama ironicamente:

Que grande felicidade não ser eu!

O tom irónico desta frase exclamativa sugere, por um lado, o prazer de se saber imune a sonhos e desejos impossíveis (como o de ser feliz) e a distância intelectual que o separa dos «outros», aqueles que poderão ser “contaminados” pelo conceito de felicidade, devido ao facto de serem menos lúcidos, reflexivos e pensadores e de, em consequência, aceitarem o que têm sem o pôr em causa. Mas, por outro lado, a frase exclamativa sugere também que se trata de uma auto-ironia, isto é, reconhece que o sentimento de felicidade lhe está interdito e que a única maneira de sentir um arremedo de felicidade é apenas possível enquanto acto de imaginação e com outros actores e num outro espaço:

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,

Que felicidade há sempre!

A pergunta nº4 do exame pedia aos alunos para relacionarem o conteúdo da última estrofe com as reflexões apresentadas nas duas estrofes anteriores.

Nas duas estrofes anteriores, o sujeito poético nega a existência dos «outros»:

Quais outros? Não há outros.

Não nega «os outros» em termos de existência física, mas pelo facto de que cada ser humano é prisioneiro de si próprio e, consequentemente, sempre que olhamos para os outros, é a nós que continuamos a ver. «Os outros» são, por isso, desconhecidos no que respeita ao modo como vêem a vida e a modo como a sentem. Como a osmose eu-eles é impossível, atribuímos os sentimentos aos outros que somos ou fomos capazes de sentir; por isso,

Os outros nunca sentem.

Quem sente somos nós,

Sim, todos nós.

Sendo impraticável aceder à realidade íntima dos outros, eles são, metaforicamente, «uma casa com a janela fechada». A imagem sugere fechamento, mistério, algo impossível de conhecer na sua verdade profunda e do qual apenas conhecemos aquilo que é exteriorizado:

Ou, quando se abre,

É para as crianças brincarem na varanda de grades

Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.

Portanto, cada ser humano sente de modo singular: «Até eu, que neste momento não estou sentindo nada»

Mas esta afirmação dá lugar à dúvida expressa na última estrofe: «Nada? Não sei…» porque o sujeito poético sabe que é precisamente na capacidade de sentir que encontra matéria para os seus poemas e ainda porque não sentir nada é sentir alguma coisa como, por exemplo, o desejo de se sentir feliz, por muito inacessível que lhe pareça. E, aliás, só vê a felicidade alheia quem é incapaz de a viver no seu íntimo. Assim, as reticências poderiam ser substituídas por expressões e vocábulos  tais como nostalgia do paraíso perdido, ânsia de absoluto, desejo de unidade interior, capacidade de adaptação à vida,… nenhuma destas metas foi ainda atingida; e, por muito que a sua lucidez e racionalidade de pensador lhe ensinem que as metas anteriormente mencionadas não são mais que sonhos inalcançáveis, a verdade é que é precisamente a falta destes «nadas» que magoa o sujeito poético:

Um nada que dói…

2 Comentários leave one →
  1. Janeiro 28, 2012 3:01 pm

    Gostei muito da explicaçao!
    No entanto, será que um aluno em exame responderia tudo isto?

    • Janeiro 28, 2012 3:39 pm

      Olá! Ainda bem que gostou da «explicação», como diz :) )) quanto à sua pergunta, a minha resposta é: compreendo perfeitamente que um aluno não respondesse da mesma maneira, aliás, nem tinha que o fazer. Se consultar as propostas de correção do ministério, verá que são mais sintéticas.

      Até breve.

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