O drama de Ricardo Reis
A passagem do tempo é, para Ricardo Reis, uma realidade aterradora porque o tempo flui indiferente à vontade do poeta em permanecer vivo eternamente, tal como os deuses do Olimpo, cuja imortalidade inveja; Cronos, o deus grego do tempo «devora» os seus filhos e nenhum ser vivo lhe resiste, faça ele o que fizer para escapar ao mais certo dos destinos.
A passagem contínua do tempo é sentida por Reis como uma injustiça da natureza porque encurta, hora após hora, o seu tempo de vida e transforma em recordação os momentos felizes passados com Lídia ou Neera nos cenários campestres que Reis, graças às lições de mestre Caeiro, aprendeu a fruir também. Reis olha os campos que o rodeiam desolado, não só porque a cada dia que passa se aproxima aquele em que deixará de fruir a natureza circundante, mas também porque o contínuo fluir temporal tudo altera, nada permanece idêntico ao que já foi; Heraclito tinha razão quando afirmou que ninguém se banha no mesmo rio duas vezes: nem o rio é o mesmo, nem é o mesmo quem nele se banha. Reis emprega frequentemente a metáfora do rio para falar da passagem do tempo:
«Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).»
Ricardo Reis ambiciona viver «sossegadamente», mas há um obstáculo que tem de contornar: o medo da morte que a passagem do tempo prenuncia. Sendo um poeta reflexivo, raciocinador e amante da cultura clássica greco-latina, procura ansiosamente uma libertação para o sofrimento que a passagem do tempo nele provoca, na leitura das odes do poeta latino Horácio e nos princípios defendidos pelos filósofos epicuristas e estóicos. Sob influência de Horácio defende o «carpe diem», o prazer do momento porque quem vive intensamente o presente, esquece o passado e não pensa no futuro; também, imitando Horácio, decide viver para o cultivo das suas rosas, deliciar-se com o vinho e a companhia de mulheres belas, recusar a participação na vida pública e isolar-se no campo, bem longe das cidades barulhentas.
Com os filósofos epicuristas e estóicos aprende a sossegar a mente através da prática da ataraxia ou ausência de qualquer perturbação face aos imprevistos da vida, positivos ou negativos. O caminho para a ataraxia diferia em ambas as escolas filosóficas mas o objectivo pretendido era idêntico: tornar o homem feliz livrando-o da influência perturbadora das contingências da vida. O segredo para a felicidade que ambas as escolas filosóficas propunham aos homens e mulheres do seu tempo residia na conformidade entre o homem e a natureza, no investimento pleno no «aqui e agora» e na capacidade de auto-domínio resultante de treino mental; os estóicos sabiam que ninguém tem poder para alterar os infortúnios que acontecem a todos ao longo da vida, mas, diziam, se não podemos alterar os acontecimentos, podemos mudar a perspectiva a partir da qual os analisamos. Este é o princípio fundamental do «sábio» estóico e explica a sua independência relativamente a tudo o que lhe acontece na vida porque não permite que nada o afecte, tornando-se, assim, «rei» de si próprio, um ser independente que aceita com indiferença a vida tal como ela se lhe apresenta, sem distinguir entre «bom» e «mau».
Reis tentou gerir o medo da passagem do tempo e da morte a ela associada através do recurso aos princípios epicuristas e estóicos; na ode que dedica a Caeiro, afirma, na 2ª estrofe:
«Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver.»
E noutra ode, escreve:
«Não tenhas nada nas mãos
……………………………….
Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.»
No entanto, por muitas leituras filosóficas que tenha feito, por muito que tenha tentado imitar a alegria de viver que o poeta Horácio evidencia nas suas odes, Ricardo Reis vive amarguradamente a passagem do tempo e aterroriza-o a ideia da morte. A certeza de «O pouco que duramos», «a hora fugidia», a opressão que nele desencadeia a ideia de «entrar pela noite dentro» são mais fortes que as leituras dos filósofos que dedicaram a vida à busca do prazer de viver e, por isso, Ricardo Reis vê-se como um joguete nas mãos de um destino que não escolheu e para o qual não encontra saída possível:
«Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem
E nós não desejamos.»
Está muito longe da independência mental defendida pelos estóicos e o prazer que, segundo os epicuristas, a natureza lhe devia proporcionar a ponto de “estancar” ou pelo menos reduzir o sofrimento de viver, também não produz o efeito desejado. Ricardo Reis é incapaz de esquecer o tempo e a morte; torna-se um poeta pessimista, abúlico e melancólico a quem nada no mundo interessa porque a passagem inexorável do tempo e a certeza da morte minam todos os momentos da vida a ponto de lhe fazerem desejar a «sorte» dos mortos, dos que foram obrigados a desistir da luta contra o tempo:
«Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem na húmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua.
Verta Éolo a caverna inteira sobre
O orbe esfarrapado,
Lance Neptuno, em cheias mãos, ao alto
As ondas estoirando.
Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
Que passa, finda a tarde,
Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra
Imperfeita de um deus,
Não sabe que os seus passos vão cobrindo
O que podia ser,
Se a vida fosse sempre a vida, a glória
De uma beleza eterna.»
