Mais literatura, menos rotina
À literatura pertencem os textos que recriam a realidade com as palavras que fazem parte do código linguístico que partilhamos e com o qual comunicamos com os outros; recriar a realidade parte do pressuposto de que existe uma realidade objectiva de que qualquer um de nós tem cabal conhecimento e que o texto se torna literário ao construir-se a partir desse patamar constituído pela tal realidade que nos é familiar. Mas o facto é que a realidade dita objectiva é possivelmente uma ilusão dos nossos sentidos e por isso em lugar de uma realidade consensual, deparamos com várias realidades, tantas quantos os olhares dos sujeitos que observam o mundo circundante já que cada um de nós tem sobre o mundo e o lugar que nele ocupa, uma perspectiva diferente.
A magia do texto literário reside na capacidade de nos fazer ver o mundo que julgamos perfeitamente explorado, de uma outra maneira; nesse momento, não raras vezes precedido de um desconfortável estranhamento, o horizonte familiar abre portas desconhecidas e segue-se o deslumbramento sentido face a algo novo, algo de cuja existência nunca suspeitáramos.
I
Avé-Marias
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
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O Sentimento dum Ocidental, Cesário Verde
Cesário Verde, o poeta que gostava de deambular pela cidade de Lisboa, deixou registado, nestas duas estrofes que iniciam o longo poema intitulado O Sentimento dum Ocidental, o modo como vê a capital ao entardecer. Não descreve a cidade enquanto espaço físico, mas sim as impressões que esta lhe faz sentir: a cidade torna-se, ao entardecer, num espaço tristonho, escuro e depressivo que faz nascer no poeta caminhante «um desejo absurdo de sofrer», possivelmente porque a morte é encarada como fuga possível à prisão que Lisboa lhe parece ser.
Os vocábulos que sugerem percepções sensoriais visuais, auditivas e até olfactivas fazem-nos visualizar a realidade descrita tal como ela é vista pelo sujeito observador-sofredor que o poeta é quando se serve do que é visível (as ruas, as sombras, o Tejo, …) para falar da sua angústia de homem desajustado de um espaço citadino que fere a sua sensibilidade e até os seus sentimentos patrióticos, como sugere a referência à «cor monótona e londrina».
Poderemos dizer que Lisboa não é «assim», mas o que tomamos por realidade resulta sempre do olhar que sobre ela projectamos e não há outra realidade para além dessa que somos capazes de ver. Por isso, lendo as estrofes do belíssimo poema de Cesário Verde, saímos de nós, abandonamos a visão estereotipada da capital (se por acaso a temos) e sofremos com o poeta nessa cidade que conhecemos e não conhecemos já que a escrita poética nos mostra uma cidade até ao momento desconhecida, agora desvendada graças à partilha com os leitores desta aventura na cidade de Lisboa cujas ruas, apesar de «nossas» e familiares, mostram os seus segredos pela mão talentosa de Cesário Verde.
Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente (…)
Chegavam às primeiras casas de Sintra, havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.
E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas de sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos (…)
Os Maias, Eça de Queiroz, Edições Livros do Brasil, Lisboa (excerto)
A luminosidade da cidade ao amanhecer é sugerida por expressões como «lindo sol», «toda azul e branca», «sem uma nuvem», «claridade dourada»; a claridade da manhã sugere a boa disposição dos amigos viajantes (Carlos e Cruges) que se preparam para deixar a capital, espaço da corrupção, mentira e hipocrisia social; opostamente, Sintra é um espaço natural ainda não manchado pela acção humana e no qual o homem pode regressar às suas raízes, ao convívio reconfortante e regenerador com a mãe-natureza.
A beleza natural da serra de Sintra é descrita como se de um espaço sagrado se tratasse, um local perfeito, harmonioso, paradisíaco e cuja beleza e grandiosidade emudece os dois amigos, impressionados por um cenário natural acolhedor, silencioso, pacífico, puro e no qual os 4 elementos naturais principais (ar, água, terra e fogo) convivem em perfeita harmonia.
Será difícil não acompanhar Carlos e Cruges neste passeio a Sintra e, fazendo-o, possivelmente vamos emudecer também diante de uma paisagem de sonho pintada com tal delicadeza que nos deixa comovidos, não porque sejam raras as paisagens idílicas por esse mundo fora, mas porque nenhuma outra é igual a esta.
Não adormeceu, tem os olhos muito abertos, envolvido na penumbra como um bicho-da-seda no seu casulo, Estás só, ninguém o sabe, cala e finge, murmurou estas palavras em outro tempo escritas, e desprezou-as por não exprimirem a solidão, só o dizê-las, também ao silêncio e ao fingimento, por não serem capazes de mais que dizer, porque elas não são, as palavras, aquilo que declaram, estar só, caro senhor, é muito mais que conseguir dizê-lo e tê-lo dito. (…)
Assustei-me um pouco quando ouvi bater, não me lembrei que pudesse ser você, mas não estava com medo, era apenas a solidão, Ora a solidão, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso é, Sempre vivi só, Também eu, mas a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Você está a tresvariar, tudo quanto menciona está ligado entre si, aí não há nenhuma solidão, Deixemos a árvore, olhe para dentro de si e veja a solidão, Como disse o outro, solitário andar por entre a gente, Pior do que isso, solitário é estar onde nem nós próprios estamos, Está hoje de péssimo humor, Tenho os meus dias, Não era dessa solidão que eu falava, mas doutra, esta de andar connosco, a suportável, a que nos faz companhia, Até essa tem que se lhe diga, às vezes não conseguimos aguentá-la, suplicamos uma presença, uma voz, outras vezes essa mesma voz e essa presença só servem para a tornar intolerável (…)
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago, Editorial Caminho, 1984 (excertos)
Expressar o que sentimos é difícil. Sabemos que sentimos, sabemos que sabemos e constatamos, desolados, que isso que sentimos e isso que sabemos só pode ser imperfeitamente expresso por palavras pela razão de que elas têm uma missão social, existem as mesmas para todos e cada um de nós, apesar das nossas diferenças, é com elas que comunica a sua singularidade.
Este excerto do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis fala da solidão sentida por Ricardo Reis, o poeta que se esforçou por verbalizar esse sentimento que lhe mina o quotidiano e que tem consciência do fosso existente entre o que se passa no seu íntimo e a incapacidade da língua para o traduzir em palavras porque elas não são, as palavras, aquilo que declaram, estar só, caro senhor, é muito mais que conseguir dizê-lo e tê-lo dito.
Será talvez esta solidão indizível, a mais devastadora pela razão de que é incomunicável e, sendo-o, produz uma clivagem não só no interior do sujeito que a sente como também entre ele e os outros, esses que nunca o hão-de compreender, por muito que tente abrir o «casulo» em que vive irremediavelmente fechado. Como lhe lembra Fernando Pessoa, visitante frequente da casa de Reis, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós.
Vivemos num tempo em que falar de solidão se tornou uma banalidade, mas as banalidades que dizemos, ouvimos e lemos sobre isto em nada ajudam a fazer-nos compreender o que sentimos, se nos sentimos sós ou o que sentem os outros, se são eles quem sente a solidão; pelo contrário, a leitura deste romance do José Saramago convida o leitor a reflectir sobre o mais negativo dos sentimentos e suas consequências. A leitura de obras literárias, seja esta, sejam outras, não promete curas milagrosas para nenhum drama humano, mas promete (e cumpre) o enriquecimento da nossa pessoa a nível intelectual e emocional, o enriquecimento linguístico, o desenvolvimento da nossa imaginação, enfim, torna-nos mais humanos e isto significa mais capazes de nos sentirmos e de sentir os outros, mais aptos a entender a nós e ao mundo.
