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Médicos à força

Novembro 27, 2011

 

Vi e ouvi há poucas horas atrás que Portugal tem mais médicos que a Grã-Bretanha, a Alemanha e, segundo me pareceu, os países nórdicos; fica, no entanto, atrás da Itália e da Grécia, no que respeita ao número de médicos por habitante. Esta realidade, no caso da análise que a comprovou ter sido séria (e acredito que sim) vem mostrar que os países com maiores problemas financeiros, como comprova o facto de terem recorrido ou de terem de eventualmente recorrer à ajuda económica externa, como poderá vir a ser o caso da Itália) são aqueles onde mais se morre, talvez não de morte física, mas de desassossego quotidiano, de incerteza quanto ao futuro, de frustração no presente, de ausência da libertadora luz ao fundo do túnel.

Pois, há médicos em excesso nestes países, mas não chegam para curar as principais maleitas dos povos a que pertencem, países de gente sem dinheiro para pagar a médicos particulares e que se aglomera nos hospitais públicos à espera da consulta, semanas, meses e até anos. Os médicos, esses, concentram-se nas principais cidades, fogem do interior desertificado onde poucos saberiam o seu nome e fariam jus à sua boa prática.

Hoje e desde há alguns anos a esta parte, verifica-se um estranho fenómeno entre as camadas juvenis da sociedade portuguesa: querem (quase todos) vir a ser médicos e para o conseguir não se questionam acerca de uma genuína vocação para a medicina. Não, isso de seguir as vocações era dantes, agora, em tempos de desemprego, há que ser esperto e procurar as profissões com elevada taxa de empregabilidade e que, simultaneamente, conferem êxito financeiro e social. Assim, mal começam a soletrar as primeiras sílabas, os jovens da ex-classe média portuguesa vão sendo lentamente treinados para quererem ser médicos. Não interessa muito às respetivas famílias o que os jovens pensam acerca da profissão que os pais, avós e tios escolheram para eles, mas apenas que eles tenham consciência dessa «ambição» de ser mais importante do que o primo engenheiro agrónomo e do que a prima professora, profissões que não levam a nada, pura e simplesmente inúteis pela razão de que não têm o estatuto social almejado pelo agrupamento familiar que, desde logo, começa a fazer as contas e conclui que os filhos médicos sempre darão uma ajudinha nas finanças lá de casa, no futuro incerto que todos, cada vez mais, têm em mente.

O rapazinho e a rapariginha começam, então, a viver um calvário: têm de se mostrar à altura das ambições familiares que, diga-se, existem apenas para bem deles, dos jovens, claro está. Começam as noitadas de marranço no quarto e a juventude acaba-se aí, para muitos deles. Depois, face às fracas médias obtidas no secundário, há que pressionar os professores e com a mais justa das causas: ele, o Manuelzinho, quer ser médico, sabiam? Ah, então ajudem-no, deem-lhe já o 19 e o 20 porque ele merece, ele quer ser médico…

Os jovens médicos saem às fornadas das universidades, todos os anos. Muitos exprimem-se  na língua materna com dificuldade, não tiveram tempo de aprender, nem de escrever, nem de falar porque só se dedicaram à Biologia, à Fisica e Química e à Matemática. Muitos não têm nenhuma sensibilidade para entender outros seres humanos, só se conhecem a eles e não tiveram tempo para camaradagens. Muitos não têm cultura geral. Como ficaram no quarto a decorar os ossinhos todos do corpo humano, não viram um filme, não leram nenhum livro para além dos do curso, nunca visitaram um museu, uma exposição de arte ou assistiram a uma peça de teatro.

Haver um excesso de médicos em Portugal é muito triste porque esta realidade mostra até que ponto este país é visto como miserável pelos próprios Portugueses que se atropelam em cursos orientados para servir os outros e, infelizmente, cresceram no curso a pensar no quanto iam ganhar e não no quanto iam ajudar.

É por estas razões que os países mais desenvolvidos, mais democráticos e mais estáveis financeiramente não têm excesso de médicos: não precisam de tantos médicos e os seus jovens são mais livres de escolher uma outra profissão porque não crescem em meios familiares aflitos com dívidas às finanças e aos bancos que lhe deram crédito, nem precisam, em sociedades mais igualitárias e menos preconceituosas, de alcançar estatuto social pela pertença a um grupo profissional.

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