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O lado negro do nosso Fado

Novembro 28, 2011

O Fado é, a partir de hoje, património imaterial da Humanidade.  Muito bem, os meus parabéns sinceros aos fadistas nacionais, aos do passado e aos do presente, que contribuíram e contribuem para que Portugal, acabrunhado, empobrecido à força, envergonhado face ao poderoso bloco central europeu, vivesse uns minutos de inquietação positiva e tivesse, depois de algumas horas de ansiosa espera, a confirmação do mérito da canção nacional, além-fronteiras.

É certo que nos daria talvez mais jeito algum património material em lugar do imaterial, por muito bom e prestigioso que este seja. É que os tempos em que vivemos são mais propícios à materialidade, às coisas visíveis, palpáveis, com estrutura definida, enfim, com peso. Ora disso, temos pouco, todos o sabemos, os atentos e os distraídos, e sem grande esforço, basta ligar a TV e ouvir os noticiários.

Confesso que não costumo ouvir cantar Fados e, quando acontece ouvir algum, lembro-me sempre do mito sebastianista e do Quinto Império que ele, o rei D. Sebastião, haveria de fundar para fazer rebrilhar o reino de Portugal, com um império imaterial. Teríamos pois, um prémio imaterial, no caso de do malogrado rei ter podido regressar das Ilhas Afortunadas, ilhas brumosas, perdidas no Atlântico, no mesmo oceano onde, anos antes, os marinheiros portugueses navegaram em busca de prémios materiais. Aparentemente, ambos os prémios imateriais, um ansiado, o outro recentemente conquistado, nada têm a ver um com o outro, exceto na imaterialidade de ambos e nas circunstâncias sociais e económicas em que se desejou um e em que se obteve o outro. No entanto, o Quinto Império e o prémio imaterial concedido a Portugal pela Unesco integram-se na virtualidade e, como tal, existem num plano da realidade que não toca, ou o faz muito ao de leve, a realidade concreta em que os Portugueses vivem todos os dias. E eu não sei definir com muita precisão o que isto me faz sentir, mas parece-me que nós, os Portugueses, temos uma «queda» para os planos da realidade que menos nos convêm, como se de uma atração fatal se tratasse.

E então pergunto-me como conseguimos chegar àquelas paragens longínquas, aos nossos Descobrimentos e o que terá acontecido depois disso à raça portuguesa, depois tão tristonha, tão lamentosa face ao que já tinha sido, a ponto de se ter perdido nessas lamentações e ter esquecido a razão delas. E assim ficou até hoje, a cantar o fado do mau fado que os deuses lhe deram, no princípio em espaços acanhados e sujos e depois, progressivamente, em espaços ainda acanhados, mas muito mais arejados, tão abertos que até chegaram a outros cantos do mundo. A melodia, porém, continua triste, a melancolia e o tom dolente são a sua essência e ouvi-la paraliza: para quê fazer seja o que for, se nada acontece, se tudo ficará como dantes? Ouçamos o fado e calemo-nos, ele fala por nós e a partir de agora todo o mundo sabe que a canção nacional não podia mesmo ser outra coisa, ela é o retrato do país: traições, desavenças, miséria, irracionalismo transbordante, palavreado estonteante como um bom vinho que entorpece a inteligência e a vontade.

Sim, gostamos de Fado, sim, somos fadistas da vida e o nosso problema reside nisso, precisamente: se o fado fosse só a canção, ó que bem que estaríamos! O problema é que o Fado é de nós todos e todos o carregamos em casa e fora dela, está-nos pegado à pele, é o que é. Sugiro, portanto, que cantemos os fado de olhos bem abertos de agora em diante e abramos as janelas para entrar a luz e as ideias que se movem pelo ar e que apenas os mais atentos apanham. E, quem sabe, futuramente, talvez venhamos a ter um premiozito material, enfim, a esperança é a última a morrer.

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