Estudantes portugueses
Quem passa regularmente perto de uma escola, poderá observar, no caso desta se encontrar ladeada por cafés e pastelarias, como os estudantes portugueses mostram uma fome de bolos, panikes e croissants recheados com chocolate, cozidos à pressa em pequenos fornos elétricos para acalmar os jovens estômagos indisciplinados e carecidos de acúcar. A seguir, o alimento é regado com coca-cola, bebida muitas vezes de pé nas esplanadas dos cafés atafulhadas de estudantes que, momentaneamente esquecidos da escola e dos respetivos horários, por lá se deixam ficar mais uns minutos, chegando, depois, afogueados às salas de aula, com o resto da coca-cola na embalagem de lata e um guardanapo de papel com restos de bolo. A desculpa que apresentam pela entrada fora de horas é sempre a mesma: muita fome, hora de lanchar, muita gente para atender, etc., e olham com disfarçada irritação os professores que reclamam, que não compreendem aquela necessidade imperiosa de comer e beber no café da esquina, porque as escolas têm cantina e um bar para servir os alunos e a preços mais módicos. Mas nisto reside a causa da atração que os cafés e pastelarias exercem no imaginário juvenil: fora da escola os lanches e pequenos-almoços são mais caros, é certo que sim, mas por isso mesmo, bem mais apetitosos porque tudo o que é barato é fraco, o que é mais caro é que é de qualidade.
O mesmo raciocínio aplica-se dentro da escola no que respeita ao apoio escolar oferecido pela escola: os professores bem podem publicitar a sua vontade de dar aulas de apoio, que a maioria dos alunos não põe lá os pés. Se essas aulas de apoio fossem pagas, quem sabe, talvez as salas estivessem cheias de alunos desejosos de aprender o que falhou nas aulas, de exercitar o que precisam de saber e de fazer. Acontece, porém, que as aulas de apoio são gratuitas e os alunos, face a este despautério, procuram explicadores a quem os pais pagam à hora, com maior ou menor sacrifício. Os jovens estudantes portugueses, sobretudo os do ensino secundário, gostam de puxar pelas notas dos pais e de pagar. Assim, sentem-se ao abrigo de qualquer falhanço escolar e nem precisam de estar atentos nas aulas porque o explicador dá a mesma aula, mas desta vez uma aula paga, pormenor importante porque sossega as jovens consciências.
É verdade que estar atento nas aulas está completamente fora de moda e por isso os entretenimentos para ocupar 90 minutos de total enfado variam: há quem envie mensagens no telemóvel escondido por debaixo das mesas, há quem insista em manter os headphones «para relaxar, sabe como é», há quem tente cativar a atenção de futuros parceiros para relações amorosas e há, ainda, os «filósofos», os que se escapam lá para fora mentalmente, deixando o olhar perder-se no tom azulado do céu ou numa nuvem empurrada pelo vento e assim ficam, mais ou menos inertes a vaguear mentalmente pelo espaço exterior até que o toque da campainha os desperte.
É verdade, quase nenhum deles ouviu nada e seguramente aqueles 90 minutos foram mais tempo perdido a somar a horas, dias e meses dele. As notas são jeitosas, apesar disso e, se pensarmos bem, não é estranho que assim seja, ainda que para se ter chegado a este milagre que acontece todos os anos nas escolas portuguesas, tenha sido preciso muito esforço por parte do corpo docente, muito empenho, muitas lavagens aos cérebro, muito treino na desistência e, finalmente, na aceitação de uma nova realidade: eles, os alunos, podem não mostrar muitas capacidades (intelectuais, de trabalho, cívicas e outras ainda), mas o potencial está lá, mesmo quando ninguém o enxerga e os que não veem esse potencial que fará deles cidadãos e cidadãs úteis à sociedade, são ceguinhos, são demasiado pessimistas, demasiado tradicionais, enfim, uns chatos. Portugal conta com estes jovens e se os olharmos bem, percebemos que sim, que podemos contar com eles, pelo menos para gastar dinheiro que não ganharam e para conseguir o êxito que não mereceram.
O Ministério da Edudação tem torcido por eles nos últimos anos e por isso, essa tarefa de os avaliar é apenas uma formalidade para encher papel, já que todos têm a passagem de ano garantida a partir do momento em que se matriculam. E, para que isto não sofra desvios, para que não haja nenhum professor chico-esperto a problematizar «a coisa», há que avaliar os professores e ver, bem de perto, os que os sacaninhas andam a tramar contra a indefesa estudantada, a nossa salvação futura! Eu concordo, vigiem os professores e ocupem-lhes as muitas horas vagas (as destinadas ao apoio escolar, por exemplo) com diversa papelada, só para ver se eles sabem preencher cabeçalhos, fazer gráficos, planos curriculares, fazer listagens de conteúdos e objetivos, dossiers virtuais, etc.. Eles queriam dar aulas, mas paciência, acomodem-se, adaptem-se à realidade de que são cada vez mais inúteis, pelo menos os que lecionam em escolas públicas. Não pensem professores. Pensar está fora de moda, ensinar também, aprender nem se fala. É isso, sejam bons na papelada e talvez tenham direito a uma reforma, talvez sobre algum dinheiro para amparar a vossa velhice. Não percam a esperança.
