Busque Amor novas artes, novo engenho
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde a esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce n~so sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.
Camões, Luís de, 1994. Rimas. Coimbra: Almedina
O sujeito poético lança um desafio ao amor: «Busque Amor novas artes, novo engenho (novas artimanhas)/ para matar-me, e novas esquivanças» (novas estratégias desdenhosas, arrogantes). Quer pagar com desdém, o desdém com que o amor o tem tratado; no entanto, esta atitude manifesta uma segurança aparente porque está alicerçada no sofrimento que o amor (personificado) lhe infligiu ao longo da vida, como comprovam os adjetivos «novas» e «novo» que precedem «artes», «engenho» e «esquivanças». A determinação do Eu em mostrar-se indiferente às maldades do amor é, sobretudo, resignação, aceitação da sua incapacidade para transformar o desamor, de que tem sido vítima, na plenitude amorosa desejada.
Como o amor se tem empenhado em dificultar-lhe a vida, o sujeito poético avisa-o de que, não tendo já expectativas, nada tem a perder, como explicam os «que» que iniciam anaforicamente os versos 3 e 4:
«que não pode tirar-me as esperanças,/ que mal me tirará o que eu não tenho»
E, visto que o amor não pode destruir esperanças inexistentes, o sofrimento amoroso não poderá voltar a afetar o sujeito poético no presente, contrariamente ao que sucedeu no passado, tempo de desilusões amorosas de que parece estar curado.
Mas, através dos imperativos «Olhai» e «Vede», nos versos 1 e 2 da 2ª quadra, o sujeito poético interpela o leitor para partilhar com ele a sua verdade mais profunda: o que ficou dito antes não deve ser tomado à letra, a intenção de se mostrar rebelde face ao amor manifesta um desejo de vingança legítimo, mas impossível de realizar porque não se pode viver sem aquilo de que se depende – o amor; neste contexto, as «esperanças» de não voltar a sofrer por razões sentimentais são ilusórias, tudo não passa de «perigosas seguranças» porque uma coisa é pensar sobre o amor e outra bem diferente é sentir o amor e assistir, impotente, ao desmoronamento de qualquer pensamento lógico que aponte ao sujeito que ama uma saída para um sentimento que o mata e simultaneamente e lhe dá vida já que o amor é «o lenho» que permite que o ser humano, «andando em bravo mar», ultrapasse os obstáculos à sua sobrevivência.
Como escreveu Eugénio de Andrade no verso 2 do poema «É urgente o amor», «É urgente um barco no mar»; o amor proporciona orientação, equilíbrio e força anímica necessários à travessia do mar da vida, recheada de «contrastes» e «mudanças» adversas à vontade do navegante e que por isso procura, na relação amorosa, um sentido para a vida e para a sua existência nessa vida.
A interpelação ao leitor revela ainda o desejo do sujeito poético ironizar sobre si próprio pelo facto de confessar um atrevimento que sabe que não terá consequências, e, também, de estabelecer uma relação de cumplicidade com o leitor, não apenas para este último «veja» como a mente humana pode criar ciladas aos pensadores que se convencem de que o ato de pensar oferece soluções para o desconcerto amoroso, mas também para exorcizar, mediante a teatralização, a amargura de ser lúcido para nada ou, talvez, apenas para ter o prazer de se saber lúcido, mesmo sabendo que lúcido ou não, o drama existencial permanece: amar e ser amado não dependem da vontade, mas de circuntâncias que fogem ao controlo da razão.
A verdade é que, mesmo desesperançado, «lá me esconde/ Amor um mal, que mata e não se vê», afirma o sujeito poético no 1º terceto. O amor é um «mal», condena quem ama a um sofrimento interior e tudo isto acontece em segredo, no íntimo do sujeito emocionalmente dependente desse «lenho» que constitui a razão primeira da sua existência e se sabe condenado à morte psicológica pela razão de que a vida não se compadece com o sonho de atingir o patamar, sequer, de uma dimensão superior da existência proporcionadora da felicidade imaginada ou relembrada, de acordo com as ideias de Platão.
Resta-lhe uma esperança vaga de encontrar isso que busca e a que chama «um não sei quê» porque nenhuma palavra consegue descrever as subtilezas do amor nem explicar a necessidade vital de amar. O sujeito poético limita-se a anotar essa necessidade que nasce dentro dele quando pensava estar a salvo de novas desilusões amorosas:
«que nasce não sei onde,/ vem não sei como, e dói não sei porquê.»
E a assertividade da 1ª quadra dá lugar, no último terceto, à expressão sincera da insegurança decorrente da constatação de que o ser humano, em primeiro lugar, sente; poderá revoltar-se contra o objeto do seu sentir, mas quando leva a cabo essa luta da razão contra o sentimento, este último vence porque nos liga ao outro e essa ligação nos torna mais humanos. E, então, outra paisagem se oferece ao nosso olhar e com ela nasce uma nova esperança de reconciliação connosco e com o mundo.
