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Ecos de Álvaro de Campos em Jorge de Sena

Abril 3, 2012

Dois poetas diferentes, que viveram em períodos históricos, políticos e sociais também diferentes, que o (irremediável) cansaço  de viver aproxima nestes poemas que vou transcrever e que o confessam em estrofes longas, à medida do cansaço sentido, desordenadas, repetitivas, febris, talvez com a expetativa de se livrarem dele, do cansaço, depois de concluído o poema, como se escrever muitas vezes «cansaço» tivesse sido a maneira encontrada para lhe destruirem o significado, deixando o significante vazio como eco do vazio que sentem .

Sentir  cansaço de tudo foi certamente dramático para quem escreveu sobre ele, mas é dramático também para quem o lê nos poemas que nunca teria podido escrever, como eu, leitora do início do século XXI que compreendo, ao lê-los, que o tempo passa e o cansaço fica, que afinal as mudanças que vejo acontecer fora de mim, não produzem mudanças dentro de mim e, então, sou levada a concluir que nada tem acontecido de realmente importante, visto que qualquer acontecimento «acontece» para alguém que o valida ou não. E se me vierem dizer que somos nós os únicos responsáveis pela realidade sentida, eu responderei que as ilhas em que vivemos são banhadas pelo oceano coletivo e que todos os ilhéus passeiam à beira-mar, apanham conchas de vez em quando e olham os navios que passam no horizonte, os aviões que riscam os céus; além disso, nas ilhas em que vivemos há televisão, jornais e, no café da praia, trocam-se impressões sobre o estado do mar, as tempestades que se aproximam e partilham-se as preocupações sobre pequenos e grandes dramas individuais.

Pergunto-me se a sensação de «desfeito de cansaço» de que fala Jorge de Sena num poema de 1970, e se o cansaço «não disto nem daquilo/ nem sequer de tudo ou de nada» de que fala Álvaro de Campos, num poema escrito em 1934, terá a ver com este país (e não me apetece responder ao antever o cansaço que seria pensar nisso, num país tão estagnado e cansativo como este) ou se isso tem a ver com Tudo, o mundo e eu como parte integrante dele, ou se, porventura,eu, os poetas mencionados e mais algumas pessoas nascemos com uma deficiência que ainda não foi objeto de estudo dos neurocientistas.

 Jorge de Sena (1919-1978)

É tarde, muito tarde da noite,

trabalhei hoje muito, tive de sair, falei com vária gente,

voltei, ouço música, estou terrivelmente cansado.

Exactamente terrivelmente com a sua banalidade

É o que pode dar a medida do meu cansaço.

Como estou cansado. De ter trabalhado muito,

Ter feito um grande esforço para

Depois interessar-me por outras pessoas

quando estou cansado demais para me interessarem as pessoas.

E é tarde, devia ter-me deitado mais cedo,

Há muito que devera estar a dormir.

Mas estou acordado com o meu cansaço

e a ouvir música. Desfeito de cansaço,

incapaz de pensar, incapaz de olhar,

totalmente incapaz até de repousar à força de

cansaço. Um cansaço terrível

da vida, das pessoas, de mim, de tudo.

E fumo cigarro após cigarro no desespero

de estar tão cansado. E ouço música

(por sinal a sonata para violino e piano

de César Franck, e depois os Wesendonck Lieder)

num puro cansaço de dissolver-me

como Brunhilda ou como Isolda

no que não acreditarei nunca,

l’amor che move il sole e l’altre stelle.

Nada há de comum entre esse amor de que estou cansado,

e o outro que não ama, apenas queima e passa, e de cuja

dissolução no espaço e no tempo em que vivo

estou mais cansado ainda. Dissolvam-se essas damas

que eram princesas ou valquírias, se preferem, no eterno.

Eu estou cansado de não me dissolver

Continuamente em cada instante da vida,

ou das pessoas, ou de mim, ou de tudo.

Qu’ai-je à faire de l’etérnel? I live here.

Non abbiamo confusion. E aqui é que

morrerei danado de cansaço, como hoje estou

tão terrivelmente cansado.

 

Jorge de Sena, Obras Completas, Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço

 

Álvaro de Campos (1890-1935)

O que há em mim é sobretudo cansaço –

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

 

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas –

Essas e o que falta nelas eternamente – ;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

 

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada –

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser…

 

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço…

 

Obras Completas de Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos, colecção Poesia, Edições Ática.

 

 

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