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Requiem por um pássaro e um autocarro perdido

Abril 7, 2012

Foi ao ler o poema Requiem por um pássaro e um autocarro perdido que dei conta de que havia um nome para a massa informe dos dias que me acontecem (e acontecem também, decerto, a muitas outras pessoas); esses dias são «em forma de pássaro morto», eles têm, afinal, uma forma e um nome que os identifica e percebi, então, que o que era vagamente sentido e inominável se tinha transformado em imagem com título à espera de ganhar vida na mente daqueles leitores que, como eu, reparam nos pássaros que estão na mira da agressividade do espaço urbano, estranho a pássaros e a outras manifestações de vida genuínas.

Requiem por um pássaro e um autocarro perdido

Mais um dia

em forma de pássaro morto.

Uma amálgama ainda quente

de manhã que nasce, espécie de beleza

desmanchada a que nem o nosso olhar

consegue servir de pietà. O vento

teima em agitar uma ou outra pena,

mas não há golpe de asa que o arranque

agora ao asfalto negro.

 

Partilhamos, no fundo, a impotência:

o destino que o esmagou

é o mesmo que esperamos para

embarcar sem surpresas, sem direito a atrasos.

A essa indiferença cansada prefiro

a do outro pássaro que, lá muito em cima,

hoje ainda mais, refaz a traços negros

a vida. É por estes instantes

de voo que aceito continuar a perder.

 

Requiem por um pássaro e um autocarro perdido, Inês Dias, in Resumo a poesia em 2011, edição Documenta, poemas escolhidos por Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós, Manuel de Freitas, Edição 4004, Março 2012.

Para o pássaro que jaz desfeito sobre o «asfalto negro», a viagem pelo céu da cidade chegou ao fim e nem o vento que lhe agita as penas ilude a rigidez do pequeno corpo, dessa «espécie de beleza desmanchada» à qual o Eu poético presta uma última homenagem com as palavras do poema.

Mas a cidade, buliçosa e mecanizada, organiza secreta, diária e subtilmente a morte de todos os seus habitantes ao crescer sozinha e marginalmente aos dramas dos seres que nela vivem; dia após dia nasce-lhe mais um tentáculo que submeterá em nome do progresso e/ou da modernidade, tal com os outros já existentes, os animais, as árvores e, sobretudo, as pessoas e as suas vidas, esvaziando-as de todo o conteúdo humano e, consequentemente, robotizando-as.

A natureza e a diversidade que a caracteriza não interessam à cidade moderna, mais apta a encurralar as gentes que nela vivem nas exíguas celas que lhes foram distribuídas e nas quais terão que entrar e das quais sairão à hora programada e nunca para perder tempo a olhar, saudosamente, os pássaros, os agentes da rebeldia contra o betão, poluição e ordem instituída e que, por isso mesmo, vão sendo abatidos pelos meios de transporte que rolam estressadamente no asfalto; nas cidades que conhecemos, há profissionais da inquietação cujo principal mérito reside em propiciar o estado de alienação geral por que ansiamos para esquecermos que engendrámos espaços destrutivos da nossa identidade, liberdade pessoal e espírito solidário com todos os seres que connosco o partilham.

Assim, este dia foi «Mais um dia/ em forma de pássaro morto», não a exceção de «um dia», mas «Mais um dia» a somar aos que o antecederam, todos produzidos em série na cidade-fábrica incapaz de distinguir entre «Uma amálgama ainda quente» que arrefece no «asfalto negro» e o lixo que lá fica depositado, os restos dos restos deixados por transeuntes apressados, adaptáveis à desumanização e controláveis, meros assistentes passivos da morte lenta das formas de vida que teimam em persistir.

No lado oposto ao do «asfalto negro» existe, «lá muito em cima», o espaço livre e sonhado por um Eu que vislumbra no pássaro que observa o seu próprio destino de ser humano privado de «surpresas» e «sem direito a atrasos» no cumprimento dos horários do gigantesco carrocel citadino e que, agarrado ao sonho de libertação como se de um precioso tesouro se tratasse, devolve a vida ao pássaro, que «refaz a traços negros a vida», através das palavras do poema, finalmente livre dos obstáculos que os homens lhe criaram; e acho até que o pássaro, se pudesse falar, agradeceria ao poeta que, no meio da indiferença geral, rejeitou «essa indiferença cansada», tantas vezes responsável pelo espesso véu que separa os homens da natureza e, pior ainda, deles próprios.

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