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O discurso do Velho do Restelo n’Os Lusíadas

Abril 8, 2012

Possivelmente, os leitores de Os Lusíadas, ao depararem com o conhecido episódio de o Velho do Restelo no canto IV, estrofes 94 – 104,  já se interrogaram, como eu, sobre as razões que estarão por detrás do discurso deste Velho, tão elogiado pela sua experiência de vida por Vasco da Gama, narrador, neste passo, dos acontecimentos passados da História de Portugal ao rei de Melinde, rei afável e curioso acerca de Portugal, e acerca das aventuras vividas pelos nautas no decurso da viagem até esta parte de África (situada no atual Quénia).

            O Velho do Restelo critica a partida da armada comandada por Vasco da Gama para a Índia logo antes do momento do embarque dos nautas e ainda se faz ouvir no mar, enquanto as naus se vão afastando da praia onde se juntaram os familiares e amigos dos que partiam, praia esta à qual o cronista João de Barros chamou, por essa razão, «praia de lágrimas».

            Ora, visto que a epopeia glorifica os Descobrimentos portugueses, o discurso duramente crítico da partida dos nautas para a Índia sempre me pareceu estranho, pois, segundo creio, contradiz a principal intenção do Poeta.

 

Como gosto de ler Os Lusíadas, assim como estudos feitos sobre a epopeia que Luís de Camões nos deixou, vou deixar aqui perspetivas diversas sobre o significado deste episódio recolhidas nos ensaios de intelectuais, estudiosos e investigadores da obra camoniana cujo valioso contributo ajuda os leitores a esclarecer o significado do episódio referido.

 

Antes de o fazer, vou transcrever um texto respeitante à autorização dada a Luís de Camões para mandar imprimir a sua obra, a qual, segundo diz o autor do livro que o apresenta (Georges Le Gentil), acompanhava a primeira impressão d’Os Lusíadas, em 1572.

 

 

Alvará de privilégio a Luís de Camões para a impressão d’Os Lusíadas

 

Eu ElRey faço saber a quantos este Alvará virem que eu ey por bem e me praz dar licença a Luís de Camões para que possa fazer impremir nesta cidade de Lisboa, hua obra em outava rima chamada os Lusiadas que contem dez cantos perfeitos, na qual por ordem poetica em versos se declarão os principaes feitos dos Portuguezes nas parte da India depois que se descobrio a navegação para ellas por mandado d’ElRey D. Manoel meu visavo que santa gloria aja, e isto com prevelegio pera que em tempo de dez annos que se começarão do dia que se a dita obra acabar de emprimir em diante, se não possa emprimir nem vender em meus reinos e senhorios nem trazer a elles de fora, nem levar aas ditas partes da India pera se vender sem licença do dito Luis de Camões ou da pessoa que pera isso seu poder tiver, sob pena de quem o contrario fizer pagar cincoenta cruzados e perder os volumes que empremir ou vender, ametade para o dito Luis de Camões, e a outra metade para quem os acusar. E antes de se a dita obra vender lhe será posto o preço na mesa do despacho dos meus dezembargadores do paço, o qual se declarará e porá impresso na primeira folha da dita obra pera ser a todos notorio, e antes de se imprimir sera vista e examinada na meza do conselho geral do santo ofício da Inquisição pera com sua licença se aver de imprimir, e se o dito Luis de Camões tiver acrescentados mais alguns Cantos, tambem se imprimirão avendo pera isso licença do santo officio, como acima he dito. E este meu Alvará se imprimira outro si no principio da dita obra, o qual ey por bem que valha e tenha força e vigor, como se fosse Carta feita em meu nome por mim assignada e passada por minha chancelaria, sem ambargo da Ordenação do segundo livro tit. XX que diz que as cousas cujo effeito ouver de durar mais que hum anno passem por Cartas, e passando por Alvarás não valhão. Gaspar de Seixas o fiz em Lisboa a XXIII de setembro de M. DLXXI, Jorge da Costa o fiz escrever.

 

In Camões, Georges Le Gentil, Portugália Editora, 1969

 

 

Algumas perspetivas sobre o significado do discurso do Velho do Restelo:

 

António Sérgio (1883-1969):

«Para com o Velho do Restelo, a simpatia do Camões é evidente. A crítica da empresa conquistadora e marítima pô-la ele na boca do mais avisado, do mais filosófico, do mais venerável dos seus heróis:

 

Mas hum velho de aspeito venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada hum pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

Cum saber só de experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:      (IV, 94)

 

Como vedes, todos os traços da autoridade se acumulam aí na personagem. Ser experto, ter um saber só de experiências feito, é na boca do poeta um encómio alto e dos mais inteiros (…) Como conciliar, portanto, as duas atitudes da epopeia: a crítica do feito, e a sua própria exaltação? Creio que a explicação poderá ser a seguinte: há ordens diferentes de realidade, segundo o pensamento de Camões (…) A energia, a coragem, a inteligência, o saber seguro, a audácia na concepção, a firmeza no executar, eram admiráveis virtudes heróicas em que haviam primado os portugueses (…) porém, existe uma ordem mais elevada do que aquela em que se empregaram tais virtudes. (…) Acima do plano da acção gloriosa encontra-se o plano da Sabedoria (…) que é o plano, precisamente, donde fala o Velho do Restelo.

Nesse plano inferior ao da Sabedoria, onde se desenvolve a acção heróica, as próprias virtudes, dignas do canto, podem ter resultados de corrupção: e assim aconteceu na nossa Índia, devido ao erro de conquistar territórios, em vez da simples dominação do mar. (…) pois que a base de uma boa política é o valor espiritual dos indivíduos, sendo boa política a que busca o mérito e lhe confia o comando que lhe compete:

Por meio destes hórridos perigos,

Destes trabalhos graves e temores,

Alcançam os que são de fama amigos

As honras imortais e graus maiores:

Não encostados sempre nos antigos

Troncos nobres de seus antecessores;

Não nos leitos dourados, entre os finos

Animais de Moscóvia zebelinos;                (VI, 95)

 

(…) Sua ideia mestra, por conseguinte, naquilo que respeita à acção guerreira, era a defesa em geral contra os inimigos da Cristandade, – e não só por Portugal, mas por todos os povos ameaçados, – sem preferência de qualquer lugar, e sem ida pessoal de Sua Alteza.

O que o interessa, o preocupa, não é a África, nem a chamada «política tradicional», nem qualquer conquista ou imperialismo, mas sim a fraqueza dos Europeus (divididos por lutas de religião) perante a ofensiva do Maometano, – que foi gravíssima, como se sabe, até ao momento redentor da batalha de Lepanto, isto é, até depois de acabado o poema. Perigava a chamada «civilização cristã» (…).

 

Pensemos agora na jornada de África (…) Contra a ida de Sua Alteza dominavam então duas razões: (…) era a primeira, (como se sabe) o não haver um descendente, que assegurasse como cumpria a estabilidade do Estado; era a segunda a leviandade, a tontura, a incompreensão de Sua Alteza, o seu completo desvairamento, – já então conhecido, comentado, e censurado por toda a gente.

Mas não só. Que Camões não pensava, na dedicatória, especialmente em terras africanas, – e não advogava, como se diz, o abandono da Índia por Marrocos, – vê-se muito bem na estância 15, assim como na 8:

 

E enquanto eu estes canto e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,

Tomai a rédeas vós do Reino vosso,

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso,

(Que polo mundo todo faça espanto),

De exércitos e feitos singulares,

De África as terras, e do Oriente os mares.   (I, 15)

 

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império,

O Sol logo em nascendo vê primeiro;

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando dece o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério,

Do torpe Ismaelita cavaleiro,

Do Turco Oriental e do Gentio

Que inda bebe o licor do santo Rio:   (I, 8)

 

(…) Sua ideia mestra, por conseguinte, naquilo que respeita à acção guerreira, era a defesa em geral contra os inimigos da Cristandade, – e não só por Portugal, mas por todos os povos ameaçados, – sem preferência de qualquer lugar, e sem ida pessoal de Sua Alteza.

O que o interessa, o preocupa, não é a África, nem a chamada «política tradicional», nem qualquer conquista ou imperialismo, mas sim a fraqueza dos Europeus (divididos por lutas de religião) perante a ofensiva do Maometano, – que foi gravíssima, como se sabe, até ao momento redentor da batalha de Lepanto, isto é, até depois de acabado o poema. Perigava a chamada «civilização cristã».

(…)

Só no fim dos seus Lusíadas, pois, Camões exemplifica especialmente com a terra do Norte de África (como exemplificara com a Ásia Menor, com a Assíria, com os mares das Índias, com a Turquia) a ideia genérica que propugnava, e que era a de os povos da Cristandade se defenderem naquele momento da grande ameaça dos infiéis, que iam alastrando pela «Europa rica».

(…)

Lendo a dedicatória dos Lusíadas, topamos nela o célebre verso

 

Vós, ó novo temor da Maura lança, onde Maura se interpreta, por via de regra, como equivalente de marroquina. Devo dizer que isto é um erro; mauro, mauritano, em Camões, significam o maometano: são epítetos de religião, e não geográficos, ou raciais (e, o maometano, mais perigoso não era propriamente o de Marrocos, mas o da Turquia).

(…)

E lembremos enfim ao bom leitor, como fecho apropositado destas breves anotações, que a guerra em si era contrária (a guerra em geral, e fosse onde fosse) ao eu superior do nosso Poeta, (…)

 

 

Em torno das ideias políticas de Camões seguido de Camões Planfetário/ Camões e Dom Sebastião (Lisboa, 1925) António Sérgio, Livraria Sá da Costa, Lda., Lisboa, 1977, edição extraída de Ensaios, tomo IV, Obras Completas de António Sérgio (excerto com supressões)

 

Georges Le Gentil (1875-1953)

 

«Camões, visando a exactidão quando se trata do seu herói, pois só com conhecimento de causa pretende glorificá-lo, se inspira em duas obras que pudera ler antes da sua partida e que segue passo a passo, a História do descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes de Castanheda, e a primeira Década de João de Barros, obras publicadas em 1551 e 1552, respectivamente. (…) Esta passagem de João de Barros impressionou-o vivamente:

 

«No qual auto, foi tanta a lágrima de todos que neste dia tomou aquela praia posse das muitas nela se derramam na partida das armadas que cada ano vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir; donde com razão lhe podemos chamar praia de lágrimas pera os que vão e terra de prazer aos que veem

 

O Poeta, por sua vez, evoca a multidão lacrimosa das mães, esposas e das irmãs. Nós ouvimos os seus queixumes E é então que surge uma personagem inventada, o Velho do Restelo, (…) contra o espírito de aventura, confundido aqui com ambição.

 

Existira sempre em Portugal, mesmo no tempo do Infante D. Henrique, uma corrente hostil à política de expansão. Os conselheiros prudentes, que se julgavam dentro da razão, objectavam que a agricultura lutava contra a escassez de mão-de-obra, que a despesa excedia as forças de um pequeno país cuja população, nesta altura, não ia muito além de um milhão de habitantes. O Poeta não podia deixar de se referir a esta oposição, pois que ela se encontrava nos cronistas. O que aí pôs de seu foi a emoção renovada da sua própria partida, uma secreta preferência pela cruzada em África e a recordação amarga das suas decepções da Índia. (…)

 

A questão da investida em África

 

Camões quer aconselhar, dirigir. Conviremos que cometeu um erro perigoso estimulando os instintos belicosos do jovem rei. Não suspeitava, ao pregar a cruzada africana, que se preparava um desastre irreparável. A desculpa do Poeta é que ele havia guardado um orgulhosa recordação da sua primeira campanha em Marrocos. A Ásia, pelo contrário, desiludira-o. Observara lá os sintomas irrefutáveis da decadência e contava com um despertar do espírito militar para salvar o que subsistia de um império mal defendido. (…)

 

Críticas ao rei

 

Não se creia porém que era cego o seu entusiasmo, pois ele não poupa as advertências a este mesmo rei, cujos desígnios aprova. Camões ousa lembrar-lhe que o primeiro dever de um soberano, antes de arriscar a própria vida, é assegurar a sua descendência. E ataca os aduladores que o impedem de dar ouvidos aos conselhos salutares:

 

E vê do mundo todo os principais

Que nenhum no bem púbrico imagina; (1)     

Vê neles que não tem amor a mais

Que a si somente e a quem Philáucia insina; (2)

Vê que esses que frequentam os reais

Paços, por verdadeira e sã doutrina

Vendem a adulação, que mal consente

Mondar-se o novo trigo, florecente.  (3)       (IX, 27)

 

(1)   «púbrico» = público;

(2)   «Philáucia» = amor de si próprio;

(3)   «novo trigo» = o novo rei D. Sebastião; (notas minhas)

 

Vê que aqueles que devem à pobreza

Amor divino e ao povo caridade,

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando justiça e integridade.

Fazem direito e vã severidade

Leis em favor do Rei se estabelecem,

As em favor do povo só perecem.             (IX, 28)

 

 

 

Desta opressão, os contemporâneos haviam tornado responsáveis dois favoritos, mas o Poeta contesta-lhes o direito de estender a sua dominação do espiritual ao temporal:

 

Oh! Quanto deve o Rei que bem governa

De olhar que os conselheiros, ou privados,

De consciência e de virtude interna

E de sincero amor sejam dotados!

Porque, como estê posto na superna

Cadeira, pode mal dos apartados

Negócios ter notícia mais inteira

Do que lhe der a língua conselheira.      (VIII, 54)

 

Insurge-se contra os monges politiqueiros:

 

Todos favorecei em seus ofícios,

Segundo tem das vidas o talento;

Tenham Religiosos exercícios

De rogarem por vosso regimento,

Com jejuns, disciplina, pelos vícios

Comuns; toda ambição terão por vento,

Que o bom Religioso verdadeiro

Glória vã não pretende, nem dinheiro.    (X, 150)

(…)

Outra influência nefasta ameaçava o rei, a dos jovens conselheiros presunçosos que pretendiam dar lições aos veteranos das conquistas:

 

Favorecei-os logo e alegrai-os

Com a presença e leda humanidade;

De rigorosas leis desalivai-os,

Que assi se abre o caminho à santidade.

Os mais esprimentados levantai-os,

Se com a experiência tem bondade,

Pera vosso conselho, pois que sabem

O como, o quando, e onde as cousas cabem.  (X, 149)

(…)

Para esta expedição |a Marrocos| que ele desejava, embora receando que fosse mal conduzida e acarretasse funestas consequências, Camões oferecia o seu duplo concurso de soldado e de poeta:

 

Pera servir-vos, braço  às armas feito;

Pera cantar-vos, mente às Musas dada;

Só me falece ser de vós aceito,

De quem virtude deve ser prezada.

Se me isto o Céu concede, e o vosso peito

Dina empresa tomar de ser cantada,

Como a pressaga mente vaticina,

Olhando a vossa inclinação divina.    (X, 155)

(…)»

Camões, Georges Le Gentil, Portugália Editora, 1969 (excerto com supressões)

 

Luís de Sousa Rebelo (1923-2010)

 

«(…) Camões sentia com orgulho a obra de civilização, que são indubitavelmente os descobrimentos portugueses, e só de um modo contraditório se ia apercebendo da chaga colonial que eles deixavam. As apreensões do Velho do Restelo, onde apenas se tem querido ver um espírito conservador e passadista, manifestam, sim, a consciência dos riscos e dos males, que o império traria consigo, e põem audaciosamente em causa a ideia de progresso, que por via de regra se lhe atribuiu:

 

A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhes destinas,

Debaixo de algum nome preminente?

Que promessas de reinos e de minas

De ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? Que histórias?

Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?     (IV, 97)

 

 

O alto preço, que a comunidade portuguesa teria de pagar em vidas e sacrifícios sem nome, é proclamado com uma veemência, que mostra que o poeta jamais ignorou a outra face da expansão e do domínio colonial. A hermenêutica tradicional tem procurado dar deste passo uma lição atenuada do seu verdadeiro significado, ao conotá-lo com subsequentes episódios da narrativa do descobrimento, o que nos levaria a ver nele a expressão de uma atitude única e isolada, decidida a manter o status quo existente no Reino, e merecedora decerto da reprovação do poeta. Ora esta leitura esquece que n’Os Lusíadas há contradições e ambiguidades, comuns, no geral, às grandes obras de arte. Tais ambiguidades reflectem a complexidade do pensamento camoniano e não devem ser jamais diluídas ou minimizadas, se quisermos apreender o conteúdo da mensagem que o poema nos transmite. Cumpre, por isso, referenciar o plano da narrativa histórica a outros níveis da estrutura interna do poema, em particular ao plano mitológico.

 

É já sabido que o debate que se trava no Concílio dos Deuses, e tem como tema de discórdia a viagem marítima dos Portugueses, vai levar ao triunfo de Vénus, a protectora dos Lusitanos. (…)

 

Vénus opõe-se a Baco, como a força do progresso se opõe  ao velho tradicionalismo. Mas a questão de se saber qual deles foi mais vantajoso e benéfico para a humanidade fica inteiramente em aberto, pois o poeta não lhe dá resposta. (…) Vénus é a deusa do Amor, no sentido lato do neoplatonismo renascentista; e a Ilha dos Amores, cúpula e fecho do poema, implica que este progresso só será considerado como tal, na medida em que um elevado código de valores morais se impuser e for respeitado nas regiões em que os portugueses se encontram. (…)

 

Mas a ideia da comunidade nacional é uma das que está mais firmemente arreigadas no seu espírito. Fora de Portugal, Camões vê-se «em terra alheia degradado» longe «do pátrio ninho amado», e as terras do Oriente, onde vive, e até mesmo Goa, constituem para ele o desterro. Aí, longe da autoridade central, os homens de mando e poder sentiam-se inclinados a seguir o seu próprio livre-arbítrio contra a Lei, não hesitando em desafiá-la. Movidos pela «cobiça e pela ambição», procuram satisfazer apenas os seus desejos em detrimento do bem comum. (…) o problema do justo governo e da liberdade cívica são para Camões um problema fulcral. A submissão ao interesse geral e a sua defesa constituem para ele a base de uma unidade, que é a garantia da independência da nação, e se torna ainda mais evidente quando vista longe da pátria. (…)»

 

 

Camões e o sentido da comunidade, Luís de Sousa Rebelo, in

Camões e o pensamento filosófico do seu tempo

Egídio Namorado, Luís de Sousa Rebelo, Roger M. Walker, João Mendes

Estudos e ensaios, Lisboa, 1979 (excerto com supressões)

 

Hernâni Cidade (1887-1975)

« Os Lusíadas são um poema épico, na medida em que o seu Autor nele se interessa mais pela história do seu povo, do que pelos sucessos ou estados de alma que afectam sua vida individual.

É claro que a realidade objectiva, por mais concreta e alheia, sempre de certo modo se subjectiva, logo que reflectida na sensibilidade e captado o seu reflexo na imagem que dela nos transmite em expressão poética. Assim se pode dizer que a poesia épica é fundamentalmente, radicalmente subjectiva, ou seja – lírica. (…)

Ele |o discurso do Velho do Restelo| exprime não apenas, como se tem dito, a reprovação da empresa indiana, quando a de Marrocos seria mais fácil e igualmente lucrativa, mas a condenação da dura inquietação,/ Fonte de desamparos e adultérios,/ Sagaz consumidora conhecida/ De fazendas, de reinos e de impérios.

O Velho evoca as empresas mitológicas em que o homem, ardido no fogo de altos desejos, que Prometeu ajuntou ao peito humano e o mundo em armas acendeu, em mortes e desonras, tentou ultrapassar os seus limites. E termina:

Nenhum cometimento alto e nefando,

Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração.

Mísera sorte! Estranha condição!         (IV, 104)

 

A fala tem significado tanto nacional como humano; abrange o passado, o presente e o futuro, pois ainda hoje, apesar de todos os perigos e clamores, nenhum cometimento alto e nefando fica por tentar…

Na segunda metade do século, era natural que as dolorosas experiências sofridas e registadas na História trágico-marítima, não permitissem evocar mesmo os próprios episódios mais felizes, sem lembrar o preço em sacrifícios, lágrimas e lutos por que nos tinha ficado.

 

É certo que Camões não encontrava, em suas experiências pessoais pelo Oriente, motivos que lhe avivassem as emoções que, ao menos pelos seus vinte anos, teria sentido, por exemplo, perante o 2º cerco de Dio, por D. João de Castro. O feito ressoara pela Europa, sobretudo em Roma, como triunfo cristão no demorado duelo entre a Cruz e o Crescente, que sem tal vitória decerto não teria terminado pela derrota dos Turcos em Lepanto. Mas a própria decadência a que se havia descido, suscitava o patriota à obra que retivesse, para a perpetuidade dos séculos, os clarões da glória que se apagava, e estimulasse os epígonos dos heróis à continuação dos feitos de seus ilustres avoengos. (…)»

 

Luís de Camões, Colecção A obra e o Homem, Hernâni Cidade, Editora Arcádia, 1961 (excerto com supressões)

 

António José Saraiva (1917-1993)

Óscar Lopes (1917 – )

 

«(…) Esta vitória dos homens sobre os deuses é uma ideia adequada ao impulso do Renascimento, que assistiu a um importante avanço no domínio da natureza por parte do Homem. É, aliás, também um ideal da Antiguidade, simbolizado pelo mito de Prometeu, o herói que roubou o lume divino para erguer os homens ao nível dos deuses. Camões realça-o, contrastando a heroicidade revolucionária com a sensatez do Velho do Restelo, que exprime o ponto de vista oposto, segundo lugares-comuns dos coros trágicos clássicos: o Velho alude ao mito de Ícaro, castigado pela ambição de querer elevar-se nos ares, ao mito de Prometeu, e o que é mais (e seria extremamente audacioso se não fosse feito por forma tão discreta), aproxima tudo isto, aproxima a própria viagem de Vasco da Gama, tema central da epopeia, da desobediência de Adão.

A viagem do Gama, os Descobrimentos em geral aparecem assim, num relance, como renovação do Pecado Original: o da autodeterminação humana. Este orgulho humanista, de que a seguir encontraremos outros aspectos, verifica-se sobretudo nos lineamentos gerais do poema: repare-se que o humano Gama alcança, com a posse de Tétis, símbolo do domínio dos mares, aquilo que fora negado a Adamastor, um titã semidivino. (…)

Talvez possa, por isso, falar-se de uma tensão entre dois sentimentos opostos: o da dignidade do Homem, quebrantador impenitente de todos os vedados términos, colectivamente candidato à divinização, e o da sua insignificância de bicho da terra tão pequeno.

O primeiro destes sentimentos alimenta-se da maravilha de todo um mundo geográfico recém-descoberto e de toda a funda apetência carnal camoniana; o segundo, daquela austera, apagada e vil tristeza em que o poeta asfixia, daquela decadência nacional cuja lúcida previsão se atribui ao Velho do Restelo, e de uma cosmologia ptolemaica cujas esferas o Homem não conseguiria nunca atravessar sem se dividir em corpo e alma, sem se render à divindade. (…)»

História da Literatura Portuguesa, 8ª edição, António José Saraiva, Óscar Lopes, Porto Editora, Limitada, Porto, 1975 (excerto com supressões)

 

Amélia Pinto Pais (1943 – )

«(…) Dirige este Velho estranhas palavras aos que partem: o seu discurso é fundamentalmente uma crítica daquilo a que ele chama «estranha condição» do homem. Segundo ele, o que está na base desta viagem é a vontade de obter a «glória de mandar»; esta partida é fruto da «vã cobiça», da vaidade «a quem chamamos Fama». Tais impulsos vãos não passam de «fraudulento gosto». A «Fama» e a «Glória» com que vêm sendo designados tais impulsos vãos não passam de designações desprovidas de sentido, que servem para enganar «o povo néscio», isto é, inconsciente da diferença entre o ser e o parecer; são impulsos que só acarretarão consigo desgraças: desamparos, adultérios, ruína económica, perigos, mortes. O tom das palavras deste Velho é pontuado de apóstrofes, interrogações, exclamações (logo, altamente emotivo). Mas, afinal de contas, que fazer, se é próprio da condição humana ser insatisfeito, inquieto – «dura inquietação da alma e da vida»?

Porque assim é, fora Adão «insano» expulso do Paraíso, da «Idade de Ouro» se passará á do «ferro»; por isso, sejam malditos: o primeiro que navegou e também Prometeu e Ícaro – símbolos do querer ir mais além dos próprios limites, ao tentarem deixar o seu elemento natural, a Terra, para conquistar outros elementos que não são os seus – a Água, o Fogo, o Ar.

A voz do Velho é, pois, a do simples bom senso de quem já tem uma longa experiência que lhe diz que se não deve avançar, mais ou menos às cegas, para empreendimentos que vão para além da pequenez do «bicho da terra tão pequeno» de que se falara no final do Canto I. (…)

Lúcido como é, o Velho sabe que as suas palavras não vão ser ouvidas. Procura, então, delinear outro caminho que seja um mal menor: se assim é, se impulsos vãos conduzem o homem para além do que «prometia a força humana», então que estes que vão partir mudem de rumo e vão para mais perto, para o Norte de África, onde, com menos riscos, possam lutar pela Fé, ficar ricos e famosos. Para além do mais, combater no Norte de África poderia contribuir para maior segurança do reino, constantemente ameaçado pelo inimigo maometano.

Este episódio é, sem dúvida, o mais controverso do Poema. Quem é este Velho, que voz é a sua, de quem é a voz que por ele fala? (…)

Aparentemente, porque não condena as palavras do Velho, porque insiste por diversas vezes em que se trata de um velho digno de respeito e dotado de autoridade, Camões identificar-se-ia com as suas palavras, condenando, assim, de certo modo, a viagem de Vasco de Gama.

Tal geraria uma contradição dificilmente explicável, num Poema destinado a glorifica aquilo que, no conjunto da História de Portugal, constituía a maior glória: justamente a viagem de Vasco da Gama, escolhida para acção central do Poema.  (…)

Ora, independentemente de saber qual a posição de Camões face ao rumo que deveria ser ou ter sido o da nossa expansão, parece-me que a solução desta contradição aparente está no próprio poema: os navegadores, em nome da lealdade ao rei e à pátria, não se deixam demover e partem, apesar de tudo.

Herói é aquele que é movido por um impulso de grandeza tal que não escuta a voz do bom senso e da razão prática. Herói é aquele que, consciente embora do aspecto irracional de um empreendimento, para ele avança, cheio de força interior, bastante para vencer todos os obstáculos que se lhe deparem. Porque, dirá mais tarde Camões, em contraponto às palavras do Velho do Restelo, a imortalidade conquista-se

Pelo trabalho imenso que se chama

Caminho da virtude, alto e fragoso,

Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso      (IX, 90)

 

O progresso do homem faz-se na luta, muitas vezes ilógica, absurda, contra os obstáculos que lhe move o «Céu sereno».

(…)

Luís de Camões, Os Lusíadas, Amélia Pinto Pais (organização, introdução e notas), Areal Editores, 3ª edição (excerto com supressões)

 

Finalmente, eu queria acrescentar o seguinte:

A leitura das estrofes respeitantes ao discurso do Velho do Restelo, homem idoso que subitamente se destaca entre a multidão das esposas, filhos e amigos dos nautas prestes a embarcar para a Índia, leva o leitor a estabelecer um contraste entre a multidão lamentosa que se aglomera na praia e a presença solitária e altiva do Velho que, posteriormente, prenderá a atenção do Gama, narrador neste passo, como afirmei no início.

A estrofe imediatamente anterior àquela em o Velho começa a falar, termina num tom bastante emotivo (refiro-me à estrofe 93 do Canto IV); nesta, o próprio Gama confessa (na retrospetiva que apresenta ao rei de Melinde) não se ter despedido da família, tendo, assim, partido «Sem o despedimento costumado»; e justifica esta indiferença fingida com a razão de que tinha que se libertar das emoções que o contacto físico com a família lhe causaria, caso se tivesse despedido como teria acontecido em circunstâncias diferentes daquelas em que ali se encontrava. Assim, e na qualidade de chefe da armada, mostra autodomínio e determinação em embarcar sem olhar para trás: «Determinei de assi nos embarcarmos»;

Ora, parece-me curioso que Vasco da Gama, que se mostrou pouco antes tão alheio ao choro e lamentações dos que ficaram na praia, tenha ouvido atentamente a fala do Velho do Restelo, tanto mais que já se encontrava na altura dentro de uma das naus; Vasco da Gama não só repara que o Velho olha para a armada «meneando três vezes a cabeça, descontente», como também lhe ouve a «voz pesada» com clareza: «Que nós no mar ouvimos claramente»; se pensarmos no ruído das vozes dos que assistiram à partida e no barulho do mar, poder-se-á concluir que houve grande vontade, por parte de Vasco da Gama, de prestar toda a atenção a este homem velho, que ninguém ali parecia conhecer, e que começa a discursar contra eles, nautas, de modo grandemente desmoralizador; determinado como era e convencido como estava a obedecer ao seu rei, porque haveria Vasco da Gama de ouvir todas as críticas que o Velho lhe(s) dirigiu?

O Velho do Restelo não é identificado, não tem nome e, para além disso, além de homem experiente (poder-se-á perguntar que factos comprovam a experiência deste homem, visto que ninguém parece conhecê-lo) mostra ainda conhecimentos culturais ao nível da mitologia que seriam impensáveis num homem simples que se encontrasse na praia por mero acaso. Vasco da Gama, a quem Camões irá chamar inculto mais adiante, no Canto V, reproduz fielmente as palavras do Velho do Restelo e apresenta-as em discurso direto, facto este que acentua a importância atribuída por Camões à fala do Velho;

Este último acusa Vasco da Gama e restantes nautas, (ainda que não os mencione diretamente no seu discurso) de:

– partirem motivados pelo desejo de alcançar o mérito por meios ética e moralmente condenáveis, como são a vaidade, o gosto pelo poder, a cobiça;

– acusa-os de serem os responsáveis morais pela situação fragilizada em que ficarão as respetivas famílias: «desamparos e adultérios»;

– acusa-os de desbaratarem o erário público;

– acusa-os de se deixarem enganar pela miragem da «Fama e Glória», engano este próprio de gente estupidificada;

– acusa-os de conduzir o reino e os seus habitantes à desgraça completa, à ruína moral e económica e de virarem as costas aos infiéis de África, deixando «criar às portas o inimigo».

O Velho do Restelo continua, num discurso marcado pela emotividade, a acusar os nautas de virem a ser responsáveis pelo futuro negro do reino, visto que não é admissível que ele o faça para a multidão que se encontra na praia e que, ao que parece, se deve ter calado e ouvido, também, o discurso excitado e agressivo do Velho do Restelo.

Nem Camões, nem Vasco da Gama se mostram incomodados com as palavras do Velho; Vasco da Gama, no início do Canto V, continua a contar, tranquilamente, o final da cena acontecida na praia, ao rei de Melinde. É certo que os elogios ao Velho do Restelo não faltam: ele é, no início do episódio, «um velho de aspeito venerando», «cum saber só de experiências feito» e, no final desta cena, na estrofe 1 do Canto V, ele é «o velho honrado» que «Vociferando estava». Estranhamente, Vasco da Gama não se incomoda e por isso partiu pelo mar fora, gozando o oceano calmo e, prazenteiro, deseja boa viagem aos companheiros:

(…), quando abrimos

As asas ao sereno e sossegado

Vento, e do porto amado nos partimos.

E, como é já no mar costume usado

A vela desfraldando, o céu ferimos,

Dizendo: Boa viagem! – logo o vento

Nos troncos fez o usado movimento.   (V,1)

Concluindo, este episódio sempre me pareceu insólito e espero que, aqueles que pensam como eu, tenham encontrado uma explicação para ele entre as diferentes abordagens que dele fizeram os pensadores, ensaístas e professores que aqui foram referidos.

 

 

 

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