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D. Sebastião n’Os Lusíadas

Abril 15, 2012

No  início da Dedicatória, Camões, dirigindo-se ao rei, chama-lhe «bem nascida segurança» porque vê nele a garantia da independência  nacional e da preservação da religião cristã no reino de Portugal, ameaçado pelo «torpe Ismaelita cavaleiro», pelo «Turco Oriental» e pelo «Gentio/ que inda bebe o licor do santo Rio» (I, 8).

O poeta, ao  pedir ao rei que se digne olhar para o «chão», metáfora da sua própria condição social de fidalgo pobre, desprotegido e às voltas com o «desconcerto» pessoal e do mundo que parece tê-lo como alvo preferido, como revelam estas estrofes nas quais resume a vida de tristes e dececionantes aventuras que viveu paralelamente à escrita d’Os Lusíadas

Olhai que há tanto tempo que, cantando

O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,

A Fortuna me traz peregrinando,

Novos trabalhos vendo e novos danos:

Agora o mar, agora esprimentando

Os perigos Mavórcios inumanos,

Qual Cânace, que à morte se condena,

Nua mão sempre a espada e noutra a pena;

 

Agora, com pobreza avorrecida,

Por hospícios alheios degradado;

Agora, da esperança já adquirida,

De novo, mais que nunca, derribado;

Agora, às costas escapando a vida,

Que dum fio pendia tão delgado,

Que não menos milagre foi salvar-se

Que pera o Rei judaico acrecentar-se.     (VII, 79, 80)

 

teria esperado que o rei, o que foi «Desejado» tanto por D. João III, seu avô, como pelo povo para que Portugal mantivesse a independência, contribuísse para assegurar a sobrevivência do poeta e lhe reconhecesse o mérito devido a ter cometido a proeza de imortalizar o rei, respetiva linhagem e os feitos meritórios da nação, apenas por amor à pátria e por amor à poesia:

Vereis amor da pátria, não movido

De prémio vil: mas alto e quase eterno;

Que não é prémio vil ser conhecido

Por um pregão do ninho meu paterno.    (I, 10)

(…)

 

 

A Dedicatória não era uma parte obrigatória na estrutura da epopeia; desconheço a razão que terá levado Camões a escrevê-la, mas acho improvável que ele desconhecesse que o rei ao qual dirige tantos louvores era mau governante e a prova disso é que lhe critica a conduta quer no que respeita à sua indiferença face a esta epopeia e vida atribulada do autor, quer no que toca ao governo do reino, ainda que o faça veladamente:

E ainda, Ninfas minhas, não bastava

Que tamanhas misérias me cercassem,

Senão que aqueles que eu cantando andava

Tal prémio de meus versos me tornassem:

A troco dos descansos que esperava,

Das capelas de louro que me honrassem,

Trabalhos nunca usados me inventaram,

Com que em tão duro estado me deitaram!     (VII, 81)

 

Também não me parece plausível que Camões, defensor do amor universal, simpatizasse com um rei tão egoísta como foi D. Sebastião e, tanto quanto sei, todo o reino se apercebeu disso, vendo as atitudes e decisões por ele tomadas no decurso do seu curto reinado, nos anos que antecederam o desastre de Alcácer-Quibir, a 4 de agosto de 1578. Mas acredito que Camões, para além de desejar o reconhecimento a que tinha direito pela escrita de uma obra única nas Letras nacionais e que contribuía para tornar inesquecíveis grandes e decisivos momentos da História de Portugal, desejasse, paralelamente, que a sua epopeia fizesse ver ao jovem rei a responsabilidade do cargo que ocupava («Tomai as rédeas vós do Reino vosso» I, 15) e a necessidade dele se transformar no continuador dos seus ilustres antepassados, dos que tinham traçado as fronteiras do reino, dos que lutaram para as manter e dos que as estenderam para além do seria expectável, atendendo ao pequeno país que Portugal era antes das descobertas ultramarinas e aos recursos humanos, económicos, científicos e técnicos de que dispunha na época em que, tal como afirma Júpiter nas suas profecias, «Novos mundos ao mundo irão mostrando» (II, 45)

Na Dedicatória, o poeta informa D. Sebastião de que a epopeia que lhe dedica difere de todas as conhecidas até à data, pois contrariamente as estas últimas, Os Lusíadas não louvam heróis imaginados nem contam «vãs façanhas, / Fantásticas, fingidas, mentirosas» (I, 11): os heróis cantados tiveram existência real e as ações que praticaram, também. Este facto poderia ter interessado o rei se ele fosse dado a leituras e à cultura livresca, mas não era o caso e Camões tinha consciência disso:

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores

O vosso Tejo cria valerosos,

Que assi sabem prezar, com tais favores,

A quem os faz, cantando, gloriosos!

Que exemplos a futuros escritores,

Pera espertar a engenhos curiosos,

Pera porem as cousas em memória,

Que merecerem ter eterna glória!           (VII, 82)

Segundo Frei Bernardo da Cruz, autor da «Chronica de Elrey D. Sebastião», obra que terá sido escrita na segunda metade do século XVI e da qual li alguns capítulos numa versão digitalizada (http://www.univ-ab.pt/bad/15/65.html) fiquei a saber que D. Sebastião, o único rei português assim chamado, ficou a dever o nome ao facto de ter nascido no dia do santo do mesmo nome, mártir «a que o povo português era mui obrigado por devoção, por Deos haver levantado a cruel e frequente peste destes reinos com a vinda do seu braço», uma relíquia do santo que veio para Portugal e que se tornou objeto de veneração popular numa época em que grassavam as epidemias no reino e se começaram a sentir sérias dificuldades económicas decorrentes da manutenção de um império tão vasto como era, na altura, o império português, tanto a nível económico como no que respeita à preservação do mesmo, razão que terá levado D. João III a abandonar quatro praças no Norte de África.

Esta decisão de abandonar as praças africanas gerou controvérsias na época, tal como mostram alguns excertos que vou transcrever de «As Controvérsias Ao Tempo de D. João III», da autoria de Maria Leonor Garcia da Cruz, 1960, in Separata Especial, Mare Liberum, Junho 1997, Número 13, Dezembro 1997, Número 14, publicado pela Comissão Nacional para os Descobrimentos, versão digital em http://hdl.handle.net/10451/2583

«(…) Agravado com grandes despesas de uma guerra contínua, o propósito expresso pelo monarca |D. João III| - embora não seja o de desvincular-se de uma missão ideologicamente honrosa (que reafirma e reafirmará sempre) – é, porém, o de seleccionar posições , abandonando as desfavoráveis (pela configuração da terra ou porto) a uma defesa eficaz e ao transporte fácil de gente, mantimentos e artilharia, isto é, Azamor, Safim e Álcacer Seguer. (…)

Na verdade, e apesar da exaltação que se faz da gesta ultramarina, que enobrece e glorifica o nome do Rei de Portugal e o seu povo, ideologicamente justificada na expansão da Cristandade – através da evangelização ou guerra ao infiel (muçulmano ou turco) -, são frequentes, particularmente no discurso literário do século XVI, mas também nos escritos de Castanheda ou de Gaspar Correia, as referências de crítica moral aos objectivos daqueles que partem para o Oriente. Seja qual for o grupo social a que pertençam – do nobre ao vilão que se torna soldado -, a cobiça de riqueza obtida pelo «roubo» ou pela «chatinagem» parece sobrepor-se em muitos a qualquer ideal. (…)

Os que se opõem ao abandono evocam razões e planejam estratégias (…) De facto teme-se que os mouros, fortalecidos com o abandono de Safim e Azamor, redobrem as investidas e, uma vez conseguido o acesso a postos onde possam construir navios, venham atacar o Algarve e o sul de Espanha, tornando impraticável qualquer futura recuperação portuguesa. (…)»

O pai de D. Sebastião, o único filho de D. João III que sobreviveu aos irmãos, morreu poucos dias antes do nascimento do futuro rei e, afastada de Portugal a mãe após o nascimento da criança a 20 de janeiro de 1554, foram os avós, D. João III e sua mulher, D. Catarina, que continuaram a governar Portugal. Quando D. João III morreu, em 1557, D. Sebastião tinha 3 anos e foi coroado rei pouco tempo depois. A avó, a rainha D. Catarina, agora viúva, e o Cardeal D. Henrique, irmão de D. João III, responsáveis pela educação do futuro governante, decidiram «dar-lhe mestre que o ensinasse a ler e a escrever e latim com outros bons costumes» e um confessor, um padre jesuíta que, segundo conta na sua crónica Frei Bernardo da Cruz, juntamente com outro padre também jesuíta e amigo do primeiro, influenciaram o jovem rei a desenvolver a sua inclinação natural  para os confrontos guerreiros que o hão de levar, anos depois, a perder a vida na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos.

Segundo Frei Bernardo da Cruz, o rei terá sido levado a desejar combater no norte de África, não só pelos mestres, como também devido às críticas que tinham sido feitas a D. João III  pelo facto dele ter abandonado aos mouros

«as fortalezas que os reis seus antepassados tinham em África, as quais eram Safim, Azamor, Alcacer Seguer e Arzila, e perdido à força das armas o Cabo de Gué, o que os povos e  nobreza estranhavam e murmuravam, determinaram o mestre e Mauricio |confessor do rei| ensinarem a el-rei D. Sebastião em outro extremo, fazendo-o belicoso e inclinado à guerra. Sendo el-rei menino, não somente com palavras o exercitavam e davam exemplos de reis belicosos que houveram insignes vitórias e conquistaram grandes reinos, mas nas matérias de escrever livros, onde lhe davam lição, o persuadiram ao exercício militar e altas empresas de guerra. O menino, (…) de tal maneira bebia estas doutrinas, que logo começou a dar mostras de ânimo invencível e sem temor a todos e quaisquer perigos»

Neste contexto, encontrava-se em preparação futura investida militar do jovem rei em África, região «vizinha e inimiga, assim por ódio antigo, como disparidade do culto».

 Frei Bernardo da Cruz retrata D. Sebastião como sendo «moço de sobeja ousadia, desejoso de imortal glória com esforçados feitos, tinha já concebido capital ódio, e cada hora desejava ver o dia de a cometer com armas e executar nela a ferocidade de ânimo criado com assaz zelo de exaltação da fé católica e aumento de seus reinos

Quando foi publicada a primeira versão impressa d’Os Lusíadas, em 1572, D. Sebastião tinha 18 anos. Sabendo-se que Camões viveu tempos difíceis na Ásia, talvez tivesse admirado a obsessão do rei em querer combater em África, aliada ao desejo de expandir o Cristianismo entre os Mouros, ideia que também lhe agradava; e talvez essa obsessão do rei por África tenha contribuído, para além de outras razões, para explicar a decisão da escrita da Dedicatória assim como a oferta de apoio a D. Sebastião nesta estrofe d’Os Lusíadas,

Pera servir-vos, braço às armas feito;

Pera cantar-vos, mente às Musas dada;

Só me falece ser de vós aceito,

De quem virtude deve ser prezada.

Se me isto o Céu concede, e o vosso peito

Dina empresa tomar de ser cantada,

Como a pressaga mente vaticina,

Olhando a vossa inclinação divina. (X, 155)

 

Mas a par dos elogios há também duras críticas a D. Sebastião, como mostram as últimas estrofes do canto X, nas quais o poeta pede ao rei que seja humano e olhe para os seus súbditos e repare no sofrimento que eles suportaram para engrandecer a nação; pede-lhe que os «favoreça», impedindo que a dureza das leis os esmague; também lhe pede que dê ouvidos aos homens que sabem do que falam, aos «mais esprimentados» e que não deixe os padres ter um poder excessivo já que nem o dinheiro nem o poder os tornam úteis à comunidade e à evangelização dos infiéis.

 

Favorecei-os logo e alegrai-os

Com a presença e leda humanidade;

De rigorosas leis desalivai-os,

Que assi se abre o caminho à santidade.

Os mais esprimentados levantai-os,

Se com a espriência tem bondade,

Pera vosso conselho, pois que sabem

O como, o quando, e onde as cousas cabem.

 

Todos favorecei em seus ofícios,

Segundo tem das vidas o talento;

Tenham Religiosos exercícios

De rogarem por vosso regimento,

Com jejuns, disciplina, pelos vícios

Comuns; toda ambição terão por vento,

Que o bom Religioso verdadeiro

Glória vão não pretende, nem dinheiro.    (X, 148, 149)

 

As críticas mostram que Camões sabia que o rei se mostrava habitualmente insensato e alheio aos destinos do reino que deveria orientar com a tal sabedoria e sensatez que Camões lhe atribui na Dedicatória; este reconhecimento leva o poeta a «aconselhá-lo» no canto X, baseando-se na «longa experiência» (X, 154) de vida que tem: critica o vício principal do rei que consistia em passar o tempo em caçadas, o que o cronista Frei Bernardo da Cruz confirma:

«(…) Tão orgulhoso se mostrava elrei no que a doctrina dos mestres e sua inclinação o convidavão, que todo seu exercício e gosto era falar na arte militar, dando-se a todo o género de cavalaria, em se pôr bem a cavalo, correr touros, montear porcos, correr canas, fazer justas e torneos, em os quaes exercícios era mui destro e manhoso (…) Com este orgulho de animo em que elrei meditava, e ufania em que se exercitava nas forças e destrezas corporaes, ajuntou também o gosto de todo o género de cassa e montaria, no qual se ocupava e gastava a mor parte do tempo nas suas coutadas de Almeirim e Salvaterra em inverno, e Cintra no verão, nas quaes era tão curioso e fragueiro, que commummente se lhe reputava por vicio tão continua ocupação, e assim pela falta que fazia aos negócios públicos, como os evidentes perigos a que punha sua pessoa (…) e de tal maneira que huns o julgavam por dificultoso nas ferocidades que mostrava, e outros por bemaventurado nos feitos que prometia. (…)»

Assim como o facto de o rei, recusando casar-se e de rejeitar qualquer contacto físico com mulheres, pôr em risco a independência do reino. Camões critica essas «manias» do rei no canto IX, quando Vénus pede ajuda a seu filho para criar a «insula divina» na qual os nautas vão ser amorosamente recebidos pelas ninfas e critica, ainda, as más companhias do rei, que tão negativamente o influenciaram e que são metaforicamente designados por «cães» no final da estrofe 26:

Já sobre os Idálios montes pende,

Onde o filho frecheiro estava então,

Ajuntando outros muitos, que pretende

Fazer hua famosa expedição

Contra o mundo revelde, por que emende

Erros grandes que há dias nele estão,

Amando cousas que nos foram dadas,

Não pera ser amadas, mas usadas.

 

Via Actéon na caça tão austero,

De cego na alegria bruta, insana,

Que, por seguir hum feio animal fero,

Foge da gente e bela forma humana;

E, por castigo quer, doce e severo,

Mostrar-lhe a fermosura de Diana.

(E guarde-se não seja inda comido

Desses cães que agora ama, e consumido).    (IX, 25, 26)

 

 Em «As Controvérsias Ao Tempo de D. João III», a autora dá a conhecer uma carta com um «parecer» de «alguém experiente na guerra de África» que terá sido enviado ao rei D. João III, a pedido deste, em 1543, e no qual o respetivo autor se mostra favorável à permanência dos portugueses naquele território, contrariando, assim, outros «pareceres» que chegaram ao rei; nesta longa carta (documento XIII), alguns dos argumentos empregues fizeram-me lembrar o discurso do Velho do Restelo, curiosamente também «alguém» com larga experiência de vida e que também critica o investimento de Portugal na Índia:

 «(…) A principal razão em que se fundão os que tanto trabalhão que se deixe esta conquista |em África|, he em o pouco proveito que della dizem nos vem, nem pode vir, e no muito que Vossa Alteza gasta em sustentar estas Praças. |os reinos de Fez e de Marrocos| Porem os que em Africa estiveram e virão as grandezas | desta Província, e quanto excede em tudo às melhores e mais ricas de Europa mostrão bem quão enganados estão os que isto affirmão. (…) Será bem que vejamos isto mais devagar, porque acabemos hum dia de mostrar claramente quanto errem e se enganem os que chamão a Africa pobre. E para que em tudo procedamos igualmente com os da parte contrária, é necessário que tomemos a conquista de Africa por todas as Províncias e Praças que Vossa Alteza nella possue (…)

 

Não tens junto contigo o Ismaelita,

Com quem sempre terás guerras sobejas?

Não segue ele do Arábio a Lei maldita,

Se tu pola de Cristo só pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras e riqueza mais desejas?

Não é ele por armas esforçado,

Se queres por vitórias ser louvado?      (Os Lusíadas, IV, 100)

 

Supposto isto havemos de considerar que para hum Reyno ser riquíssimo convem que | (que) tenha duas couzas: frutos da terra e gados em abastança para mantimento dos povos, sem que lhe seja necessário espera-los de outra parte, e minas de diversos metaes assim precizos (sic) como vulgares para os comércios das gentes e uzos necessários da paz e da guerra. Estas couzas tem os Reynos de Berberia em grande abundancia (…)

Mas digão-me já os da parte contrária que Reys tem a India em comparação | destes? ou que cidades populozas? que abundância de terras que com esta se possa comparar? (…)

A que novos desastres determinas

De levar estes Reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas,

Debaixo de algum nome preminente?

Que promessas de reinos e de minas

De ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? Que histórias?

Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?     (Os Lusíadas, IV, 97)

 

Esse Samorim Emperador do Malavar com que cá nos assombrão que tem de Rey mais que o nome? (…) A terra tam infrutífera que não dá aos naturaes, nem com que se mantenhão, nem com que se vistão e não me digão que andão nús por amor do ardor das calmas, que não he se não de pura pobreza; porque os Mouros ricos que na terra nascem e há muitos anos nella moradores | andão vestidos ao seu modo, e da mesma maneira os Portuguezes, nem por isso os offendem mais os rayos do Sol (…)

(…) venhamos às melhores Praças do Oriente começando pelo Estreito da Pérsia athe o mar da China, em todas estas Províncias não acharemos cidade que possa ter o nome de grande nem exceda notavelmente as outras, senão Malaca, a qual pôs debaixo de Vosso Senhorio o Governador Affonso de Albuquerque; (…) Porem (…) somente digo que na conquista de Africa não temos duvida da cauza ser justa e tantas guerras que por essa India se fazem Deos sabe as cauzas e respeitos porque Vossos capitães as fazem. (…)

Pello que não tem comparação nenhuma destas Praças da India por mais opulentas que sejão, com as verdadeiras riquezas de Africa que não dependem do que de fora lhe ha-de Vir porque as sempre tem de seu. (…)

De modo que no tempo em que a coroa destes Reynos estava pera colher o fruito dos trabalhos que athe aquelle tempo tinha passado naquela conquista então os deixou perder; e esta he a cauza porque resultão hoje mais as couzas da India que as de Africa, porque de Africa deixamos perder os frutos quando já os tínhamos quazi por nossos (…)

 

Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe!

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a Fama te exalte e te lisonje

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!        (Os Lusíadas, IV, 101)

 

Que couza se traz da India, que não seja ruyna da parcimónia e corrupção da natureza humana? De que nos servem as especiarias senão de apetites e incitamentos da gulla e de nos incurtar mizeravelmente as Vidas? (…) Pois que direi dos vestidos delicados? da molecia de dormir nos catres? das pedras? das perolas? e de outros infinitos generos de deleites e de delicias semelhantes com que vemos os mancebos de agora andarem adornados? (…)

Leão-se as historias antigas e vejão quem cauzou a Ruyna dos Imperios do Mundo senão as delicias de Asia? (…)»

 

Dura inquietação d’alma e da vida,

Fonte de desemparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te dina de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana,     (Os Lusíadas, IV, 96)

 

Penso que é difícil saber ao certo o que realmente pensava Camões sobre D. Sebastião até porque, na sociedade fortemente hierarquizada em que ele viveu, a figura do rei era normalmente vista como um emissário de Deus na terra e os que ousassem ser diretos e sinceros nas suas críticas tinham um triste destino nas fogueiras do Tribunal do Santo Ofício ou não viam as suas obras impressas, facto que certamente afetaria muito Camões, isto para não falar na «revisão» que a Inquisição fez a Os Lusíadas, apesar dos elogios ao rei, do recurso à mitologia para «divinizar» os homens, da defesa da Cristandade e severas críticas aos «infiéis», verdadeiro alvo a abater, considerando a ideologia da época, e nenhum artista o é fora do tempo em que vive.

 

No entanto, à exceção da empresa africana, assunto em que será possível encontrar razões para uma convergência de opiniões entre o desejo do poeta e do rei (e não estou certa de estar certa até porque não tenho conhecimentos para isso), a verdade é que Camões foi um poeta que teve a coragem de apontar os erros na governação do rei e de denunciar inclinações temperamentais perniciosas para ele e para Portugal (e isso ficou infelizmente provado) numa época terrivelmente complicada em termos sociais, políticos e religiosos em que possivelmente nenhum de nós, por muito que nos queixemos hoje acerca da sociedade em que vivemos, desejaria viver; eu, pelo menos, não.

No que respeita a D. Sebastião, eu quis confirmar, dentro do que me foi possível, a ideia negativa que tinha sobre este rei, medíocre e louco e tenho pena que o único mito português esteja associado ao seu nome; seria bem melhor que estivesse associado a D. Dinis, por exemplo. Calhou-nos o mito sebastianista… paciência.

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