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Notas sobre o amor sensual em Os Lusíadas

Abril 22, 2012

A importância atribuída por Camões n’Os Lusíadas ao amor sensual, poderá  deixar alguns leitores surpreendidos, não só pelo facto de a epopeia ter sido publicada numa época histórica em que o Tribunal do Santo Ofício censurava os escritos nos quais o respetivo autor pensasse pela sua própria cabeça e essa manifestação de liberdade individual atentasse contra os preceitos estabelecidos pela aliança entre o Estado e a Igreja Católica, mas também quando a desculpabilização do poder que os sentidos exercem sobre o ser humano acontece em circunstâncias inesperadas.

Isso acontece nos versos em que Camões desculpa a paixão do rei D. Fernando (1345-1383), filho do rei D. Pedro, por Leonor Teles, mulher casada e com quem o rei insistiu em casar-se apesar disso, em 1372, fazendo oscilar, em nome da vontade individual, a obediência à Igreja Católica, a dignidade pessoal, o compromisso antes estabelecido com Henrique II de Castela de se casar com  sua filha D. Leonor (isto já depois de D. Fernando ter anulado um compromisso de casamento anterior),  a relação pacífica com o povo português e, finalmente, fazer  perigar a independência do reino, visto que o casamento com Leonor Teles não foi aceite pelo povo; mais tarde, Henrique II de Castela, que tinha perdoado a D. Fernando a rejeição por parte deste da sua filha, decide invadir Portugal em 1373 quando D. Fernando decide apoiar o duque de Lencastre, um inglês pretendente ao trono de Castela, em vez de apoiar o pretendente castelhano – Henrique II.

«(…)

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente,

Que hum fraco Rei faz fraca a forte gente»   (III, 138)

No Canto III, e no que respeita a D. Fernando, o narrador (neste momento é Vasco da Gama) termina a estrofe 138 chamando «fraco» ao rei e menciona o efeito negativo que a fraqueza real produz no povo que governa, sugerindo, assim, que exemplos para uma boa conduta popular devem vir de cima e propagar-se em baixo, nas camadas populares, pois elas são precisas para garantir a estabilidade política e social necessária ao progresso e expansão do reino. Ora, esta realidade desejável é posta em causa quando os reis são indisciplinados no cumprimento do dever de guiar o povo, ao quebrarem as regras orientadoras da sociedade, em nome da liberdade pessoal, quando esta se mostra desonrosa para o próprio e para a nação na medida que a liberdade do mais alto governante da nação prende os súbditos a um destino incerto que não desejaram.

Por estas razões, tem todo o cabimento a crítica que Camões põe na boca de  Vasco da Gama, mas a desculpabilização que se lhe segue parece contradizer a defesa constante, que lemos n’ Os Lusíadas, daqueles que agiram movidos por um patriotismo exemplar na defesa de Portugal; estes são «os fortes Lusitanos» (I, 50) prontos a fazer tudo para assegurar a expansão portuguesa, matar e destruir, inclusive: «Não se contenta a gente Portuguesa,/ Mas seguindo a vitória estrui e mata;/ A povoação sem muro, e sem defesa,/ Esbombardeia, acende e desbarata.» (I, 90); quando Vasco da Gama chega a Melinde e o rei melindano mostra vontade de o ver, Vasco da Gama não sai da embarcação por ordem do rei D. Manuel, e este exemplo de obediência firme em terras tão longínquas da pátria causa espanto e admiração no rei de Melinde; Vasco da Gama justifica-se perante o rei, dizendo-lhe:

«E porque é de vassalos o exercício,

Que os membros tem, regido da cabeça,

Não quererás, pois tens de Rei o ofício,

Que ninguém a seu Rei desobedeça.

(…)»                                                                 (II, 84)

D. Fernando não agiu racionalmente, ainda que não apenas ele visto que o mesmo se poderia dizer de D. Afonso IV quando ordenou a morte de Inês de Castro; no entanto, estes são casos diferentes porque Afonso IV agiu irracionalmente por ter sido mal aconselhado no que respeita ao perigo que Inês poderia apresentar para Portugal enquanto que D. Fernando agiu irracionalmente à margem de preocupações patrióticas; e é a  valorização destas últimas que leva certamente Camões a mostrar tanto desprezo pelos povos conquistados quando não obedecem à vontade do rei de Portugal (representante da Razão e de Deus) ou se desviam dos planos para eles traçados, isto é, os Mouros não têm direito a vontades, nem à de lutarem pela terra em que nasceram e que é, por direito, sua, nem à de terem crenças religiosas diferentes:

«(…)

Qualquer então consigo cuida e nota

Na gente e na maneira desusada;

E como os que na errada Seita creram,

Tanto por todo o mundo se estenderam.»   (I, 57)

Na estrofe 139 do Canto III, Vasco da Gama hesita entre duas explicações para o «muito aperto» (I, 138) que o reino correu devido à vontade de D. Fernando de viver um amor sensual com a formosa Leonor Teles: ou isso aconteceu porque D. Fernando ao cometer o «pecado/ de tirar Lianor a seu marido/ E casar-se co ela, de enlevado/ Num falso parecer mal entendido;», provocou a ira divina; ou então, o rei, tendo nascido com uma personalidade fraca, se deixou enfraquecer ainda mais devido ao poder que sobre ele teve o apelo dos sentidos, isto é, «Ao vício vil, de quem se viu rendido» e consequentemente a sua vontade de ser um rei exemplar enfraqueceu e então, cedendo à sensualidade, «Mole se fez e fraco».

A lição parece ser esta: a cedência ao amor sensual é destrutiva, não apenas para aquele que lhe cede como também para aqueles que a ele estão ligados e nos quais se repercute como se de uma maldição se tratasse.

No entanto, na estrofe 142, Camões muda de tom e interroga-se sobre se estará nas mãos dos homens conseguirem o autocontrolo necessário para se libertarem da atração que sobre eles exercem as mulheres sedutoras que casualmente com eles se cruzam ao longo da vida e emprega uma série de metáforas sugestivas da beleza feminina: «Entre as rosas e a neve humana pura/ O ouro e o alabastro transparente»; são estas as armas do amor sensual que arrastam para condutas impensadas os homens e Camões, ao interrogar-se (e interroga também o leitor) sobre as limitações que os sentidos impõem ao homem, conclui que é difícil calar as exigências dos sentidos quando despertados pela beleza de um corpo que se deseja possuir, mesmo tendo consciência de que o preço a pagar por esse desvio ao «amor sublime» será, para o Poeta, a tortura interior que ele revela na poesia lírica e, para D. Fernando, guerras sucessivas e o desprezo do povo, sobretudo por aquela por cuja beleza e sensualidade se apaixonou e que ficou para a História como a «aleivosa».

Porém, estando ou não consciente dos danos que o caminho da sensualidade inflige a quem o segue, a questão não apresenta uma solução fácil porque o ser humano é, antes de qualquer outra coisa, matéria, carne que clama por alimento que a satisfaça e, por mais que o homem deseje calar-lhe a força, esta mantém-se ativa e condiciona secretamente a vida dos indivíduos que, por uma questão de imposição que nasce fora deles, se veem divididos entre dar resposta imediata a esse apelo natural ou obedecer aos cânones socialmente estabelecidos; talvez porque tivesse vivido um drama idêntico na sua vida, Camões, apesar de condenar a insensatez real, não pôde passar ao lado dessa força quase invencível que se terá abatido também sobre si próprio e por isso leva os leitores a refletir sobre um drama humano vivido marginalmente ao amor à pátria, à família e ao “dever” e que a estes se sobrepõe:

«(…)

Quem, de hua peregrina fermosura,

De hum vulto de Medusa propriamente,

Que o coração converte que tem preso,

Em pedra, não, mas em desejo aceso?    (III, 142)

Na Crónica de D. Fernando de Fernão Lopes (1380? – 1460), (Chronica de el Rey D. Fernando, versão digitalizada da Biblioteca Nacional Digital) o rei é apresentado como tendo várias qualidades:

«(…) mancebo valente, ledo e namorado, amador de mulheres e achegador a ellas. Havia bem composto corpo e de razoada altura; formoso em parecer e muito vistoso; (…) Amava a justiça e era prestador e grado muito liberal a todos, e grande agasalhador de estrangeiros. (…) Amou muito seu povo, e trabalhava de o bem reger (…)

            Desfalleceu isto quando começou a guerra e nasceu outro mundo novo muito contrario ao primeiro, passados os folgados anos do tempo que reinou seu pae; (…) Este rei D. Fernando começou de reinar o mais rico rei que em Portugal foi até ao seu tempo, cá elle achou grandes tesouros que seu pae |D. Pedro| e avós guardaram (…

Mais tarde, já depois de ter aceitado casar-se com D. Leonor, filha de Henrique II de Castela, conheceu Leonor Teles e assim começaram outros problemas, tal como conta Fernão Lopes:

«|D. Leonor Telles| mulher que foi de João Lourenço da Cunha (…) e por afeição mui continuada veiu nascer n’elle tal desejo de a haver por mulher que determinou em sua vontade casar com ella, cousa que até aquelle tempo similhante não fôra vista. Que cumpre de dizer mais sobre isto, proposto d’haver dispensação para casarem ambos, eram os jogos e falas entre eles tão a miude, misturados com beijos e abraços e outros desenfadamentos de similhante preço, que fazia a alguém ter deshonesta suspeita de sua virgindade ser por elle minguada. (…)

 

Estando el-rei D. Fernando em Lisboa, aconteceu de vir a sua côrte, da terra da Beira onde então estava, D. Leonor Telles, mulher de João Lourenço da Cunha (…) El-rei D. Fernando (…) quando viu D. Leonor (…) louçã e aposta e de bom corpo, pero que a d’antes houvesse bem conhecida (…) d’esta se começou de enamorar maravilhosamente, e ferido assim do amor d’ella, em que seu coração de todo era posto, de dia em dia se acrescentava mais sua chaga , não descobrindo porém a nenhuma pessoa esta bemquerença tão grande que em seu coração novamente morava

O marido de Leonor Telles, de quem esta tinha um filho, quis que ela voltasse para casa, mas o rei opôs-se e viu-se na necessidade de contar o que sentia à sua irmã, D. Maria, porque precisava de aliados para arranjar uma estratégia que impedisse Leonor Teles de regressar a casa do marido; então, pediu à irmã que o ajudasse a tornar credível a mentira que já tinha planeado:

«|D. Maria|  azasse de guisa como D. Leonor não partisse d’ali, fingindo-se ser ella muito doente (…) e falando claramente com D. Maria, disse que sua vontade era de a haver antes por mulher que quantas filhas de reis no mundo havia. (…)»

O rei inventa uma história para afastar o marido de Leonor Teles e depois deste ter partido para Castela «por segurança de sua vida», Fernão Lopes esforça-se para que o nome do rei não fique manchado por excessiva cupidez:

«E certifica-se que antes que el-rei dormisse com ella primeiro a recebeu por mulher, prezente a sua irmã e outros, que esta couza traziam calada. (…)»

Quando constou em Lisboa que o rei queria para mulher Leonor Teles, mulher casada e mãe, o povo reuniu-se e elegeu um representante que foi falar com o rei, mas este mentiu-lhe ao dizer-lhe que não tinha casado:

«Que eles eram ali vindos porquanto lhes era dito que el-rei seu senhor tomava por sua mulher Leonor Telles, mulher de João Lourenço da Cunha, seu vassalo e, porquanto isto não era sua honra, mas antes fazia grão nojo a Deus e a seus fidalgos e a todo o povo (…) nem elle não havia por lhe ter isto a mal ca não queriam perder um tão bom rei como elle por uma má mulher que o tinha enfeitiçado.» e el-rei lhes fez responder:

«(…) que no caso entendia que faziam como bons e leaes portuguezes, amadores de sua honra; e que ella não era sua mulher recebida (…)»

Na lírica camoniana, o conflito entre o amor de feição neoplatónica e o amor sensual é causador de intenso sofrimento interior; talvez essa experiência de se sentir culpado por querer dar resposta ao desejo físico explique a desculpabilização da atitude indigna e nada patriótica de D. Fernando, mas também leva o leitor a pensar na modernidade do pensamento de Camões pelo facto de valorizar o direito do indivíduo a fazer opções de vida que entram em conflito com o interesse das massas, mal ou bem representadas pelas leis políticas e religiosas vigentes na época histórica em que nasceram e que lhes impõem condutas que raramente são postas em causa porque se destinam a ser obedecidas sem contestação. Neste contexto, não é a pessoa do rei em si mesmo que é defendida, mas o direito individual de cada um ser livre de encontrar a plenitude amorosa, por um lado, e, por outro, põe em causa a conceção do amor como sentimento válido apenas se espiritualizado, o amor que subalterniza o corpo e que vê apenas na alma a sua genuína realização.

E acho curioso que Fernão Lopes elogie a beleza física de Leonor Teles no retrato que dela apresenta na sua crónica porque poderia não o ter feito sem por isso deixar de falar nela e na importância que teve para D. Fernando; ora, não encontro nas transcrições de excertos da crónica, uma visão neutra de Leonor Teles que é «louçã e aposta e de bom corpo» e talvez essa ausência de neutralidade se destinasse a proteger a memória de D. Fernando, de certo modo vítima de um amor fatal.

A valorização do amor sensual não está presente apenas nas estrofes anteriormente referidas: no Canto II, Vénus aparece diante do pai, Júpiter, depois da cilada preparada pelos Mouros que desviam as naus portuguesas para Quíloa onde seriam destruídas:

«Pera lá se inclinava a leda frota.

Mas a Deusa em Cítere celebrada,

Vendo como deixava a certa rota,

Por ir buscar a morte não cuidada,

Não consente que em terra tão remota

Se perca a gente dela tanto amada.

E com ventos contrairos a desvia,

Donde o Piloto falso a leva e guia.»    (I, 100)

Vénus procura a ajuda do pai, Júpiter, para que o povo cujos intentos ela defende, consiga chegar à Índia; mas que o faça seminua e propositadamente sensual é que é estranho, se atendermos a que se trata de um encontro entre pai e filha:

«E por mais namorar o soberano

Padre, de quem foi sempre amada e cara,

Se lhe apresenta assi como ao Troiano,

Na selva Ideia já se apresentara.

(…)

Os crespos fios d’ouro se esparziam

Pelo colo, que a neve escurecia;

Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,

Com quem Amor brincava e não se via.

Da alva petrina flamas lhe saíam,                        (petrina = peito, pescoço)

Onde o minino as almas acendia.

Polas lisas colunas lhe trepavam

Desejos que como hera se enrolavam.»  (II, 35, 36)

Poder-se-á argumentar que os deuses do Olimpo são amorais, mas sejam-no ou não, a mim parece-me que Camões retrata em Vénus uma mulher real que decerto teria gostado de apreciar, caso o pudesse ter feito e isso mostra até que ponto a sensualidade deve ter sido importante no seu universo íntimo. De qualquer modo, Vénus apresenta-se ao patriarca Júpiter para obter proteção para os Lusitanos em troca da figura sedutora com que o deslumbra e a descrição da beleza sensual da deusa não acaba nesta estrofe; de facto, os versos que não deixam dúvidas no leitor quanto ao poder arrebatador da deusa veem a seguir:

«Cum delgado cendal as partes cobre

De quem vergonha é natural reparo;

Porém nem tudo esconde nem descobre

O véu, dos roxos lírios pouco avaro;

Mas pera que o desejo acenda e dobre,

Lhe põem diante aquele objecto raro.

Já se sentem no Céu, por toda a parte,

Ciúmes em Vulcano, Amor em Marte.»   (II, 37)

Vénus não se limita a arranjar-se de maneira sedutora, ela vai mais longe ao criar uma espécie de jogo erótico com Júpiter: «nem tudo esconde nem descobre/ O véu, dos roxos lírios pouco avaro»; Camões, talvez para que a descrição não fosse exageradamente realista, coloca um pudico «cendal» a cobrir «as partes» mas este deixa ver mais do que esconde, está lá para acender não só o ânimo de Júpiter, mas também, certamente, o dos leitores.

Quanto aos leitores, nada posso afirmar, mas quanto à impressão que a bela Vénus provocou no pai, posso, com certeza, até porque o Poeta não a esconde e dificilmente poderia ser mais explícito:

«E destas brandas mostras comovido,

Que moveram de hum Tigre o peito duro,

Co vulto alegre, qual o Céu subido,

Torna sereno e claro o ar escuro.

As lágrimas lhe alimpa e, acendido,

Na face a beija e abraça o colo puro;

De modo que dali, se só se achara,

Outro novo Cupido se gerara.»                (II, 42)

Os amores de D. Fernando foram compreendidos e este foi um rei que pôs em sério risco a independência nacional; já o retrato que Camões apresenta de Afonso de Albuquerque, no Canto X, não é tão simpático, embora Afonso de Albuquerque tenha sido encarregue de uma missão bem difícil de cumprir e, pelo que pude apurar, não deve ter tido tempo suficiente para apreciar as mulheres nas regiões da Índia que governou ao longo de dez anos e onde virá a morrer em 1515, aos 63 anos.

O livro intitulado Commentarios do Grande Affonso dAlboquerque capitão geral que foi das Indias Orientais em tempo do muy poderoso Rey D. Manoel o primeiro deste nome, Lisboa, 1774, (disponível numa versão digitalizada a Biblioteca Nacional Digital) foi escrito no século dezoito e, se não me engano, dedicado ao Marquês de Pombal, com o intuito de relatar os momentos de glória e de derrota, de esperança e deceções que passou na Índia «o grande Affonso dAlboquerque». Claro que Camões não pode ter lido este livro, mas leu possivelmente outros que o levaram a atribuir a Afonso de Albuquerque um lugar de honra entre os heróis que imortaliza e assim a ninfa que no Canto X profetiza as vitórias portuguesas, menciona Afonso de Albuquerque em termos elogiosos em cinco estrofes (X, 40-45) que salientam a grandeza das conquistas por ele concebidas e comandadas que deram três novos reinos no oriente a Portugal; enviado para a Índia pelo rei D. Manuel para substituir o vice-rei após três anos de mandato, Afonso de Albuquerque viveu situações muito penosas até ao dia em que a ordem dada pelo rei se concretizou porque o vice-rei da Índia que tinha sido nomeado por três anos não queria abdicar do poder que tinha, e situações ainda piores sempre que teve de enfrentar o Samorim de Calecut e criar condições propícias para que as especiarias chegassem a Portugal.

A leitura dos Commentarios permite conhecer as enormes dificuldades que os portugueses enfrentaram na Índia e também que o rei D. Manuel nem sempre terá agido de modo justo com Afonso de Albuquerque devido às intrigas que os seus conselheiros foram urdindo contra o governador. Portanto, Afonso de Albuquerque não só teve que lutar contra os povos indianos que não aceitavam a presença portuguesa, como também contra os próprios portugueses: os que para lá foram e lhe invejavam o sucesso militar e a capacidade diplomática junto dos Mouros e os que cá permaneceram e tudo fizeram para denegrir a sua imagem.

Como ele próprio tinha decidido que os seus restos mortais viessem para Portugal, os amigos tentaram que assim fosse feito; porém, os nativos da região não deixaram que isso acontecesse, tal era a consideração e amizade que tinham por ele; posteriormente, foi D. Manuel a opor-se a essa última viagem porque achava que enquanto os ossos de Afonso de Albuquerque estivessem na Índia, o povo andaria sossegado. Creio que foi só no reinado de D. Sebastião que os seus restos mortais foram trazidos, finalmente, para Portugal.

Camões elogia, pela boca de uma ninfa, as virtudes militares de Afonso de Albuquerque e a aquisição dos reinos de Goa, Ormuz e Malaca em cinco estrofes, mas critica-o noutras cinco por uma razão que me parece injustificada, atendendo ao grande homem que ele foi; a razão dessa crítica tem origem no facto de Afonso de Albuquerque ter punido com a morte um soldado que, desobedecendo às ordens que lhe foram dadas, passou a noite com uma escrava indígena; por esta razão, a ninfa foi obrigada a calar os elogios e a passar às reprimendas:

«Mais estanças cantara esta Sirena

Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,

Mas alembrou-lhe hua ira que o condena,

Posto que a fama sua o mundo cerque.

O grande Capitão, que o Fado ordena

Que com trabalhos glória eterna merque,

Mais há-de ser hum brando companheiro

Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.

 

Mas em tempo que fomes e asperezas,

Doenças, frechas e trovões ardentes,

A sazão e o lugar fazem cruezas

Nos soldados a tudo obedientes,

Parece de selváticas brutezas,

De peitos inumanos e insolentes,

Dar extremo suplício, pela culpa

Que a fraca humanidade e Amor desculpa.»     (X, 45, 46)

 

É claro que ninguém em seu perfeito juízo concordará que se mande matar um soldado só porque não resistiu ao desejo próprio da «fraca humanidade», mas se Camões tivesse lido os capítulos da história de Afonso de Albuquerque na Índia em que ele, por mandado de D. Manuel (com o qual concordou plenamente), pôs fogo e destruiu Calecut inteira para assim vingar a Coroa portuguesa das afrontas do Samorim ou se tivesse conhecimento de que Afonso de Albuquerque mandou que aos Mouros que eram encontrados a espiar os movimentos dos soldados portugueses (o que estes faziam também aos outros) lhes fossem cortadas as mãos, depois os narizes seguidos das orelhas e por fim atirados para um areal, que recriminações não lhe faria nas suas estrofes?

Mais uma vez, a questão essencial é a da pressão que o amor sensual exerce sobre os homens que, «fracos» na carne, não conseguem resistir-lhe mesmo quando procuram uma tábua de salvação nas virtudes espirituais e cedem, podendo essa cedência levá-los a trair a pátria e a religião que dizem professar ou a desobedecer a ordens militares; no entanto há diferenças a registar entre os «fracos» sobretudo porque as suas responsabilidades são muito diferentes e as consequências das respetivas irracionalidades muito diferentes também; e, apesar de compreender Camões no que respeita à defesa da busca pessoal de satisfação na Terra (e isto não anula a crença que o Poeta possa ter tido na felicidade proporcionada após a morte aos que a merecerem), e de compreender a defesa do amor como força motriz do ser humano, parece-me que é demasiado duro com Afonso de Albuquerque e talvez demasiado condescendente com D. Fernando.

O amor sensual está também presente na «Insula Divina» que Vénus manda preparar para acolher os nautas na viagem de regresso, proporcionando-lhes um verdadeiro festim para os sentidos; a sensualidade está na “decoração” da própria ilha e sobretudo nas ninfas treinadas por Vénus para seduzir os nautas e assim os compensar, através do prazer dos sentidos, das inúmeras atribulações vividas no decurso da longa viagem de Lisboa até Calecut e premiar a sua coragem, espírito aventureiro e capacidade de sacrifício em nome de um povo e seus governantes.

«Oh! Que famintos beijos na floresta,

E que mimoso choro que soava!

Que afagos tão suaves, que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!

O que mais passam na manhã e na sesta,

Que Vénus com prazeres inflamava,

Milhor é esprimentá-lo que julgá-lo;

Mas julgue-o quem não pode esprimentá-lo.»     (IX, 83)

A possibilidade de viver em liberdade e sem sentimentos de culpa o prazer que o contacto físico proporciona aos que o desejam, teria sido, certamente, um grande e merecido prémio para estes homens que viajavam de regresso a Lisboa, cidade infestada de padres inquisidores e hipócritas que perseguiam aqueles que sentiam prazer em estar vivos e para os quais a vida terrena não tinha que ser um vale de lágrimas todos os dias.

Talvez porque a realidade social que esperava estes homens fosse tão diferente desta, Camões tivesse criado este paraíso como que a dizer-nos que se ele não está ao alcance das nossas mãos, presas às muitas imposições sociais e religiosas, está, pelo menos, ao alcance da imaginação de cada um e esse é território inalcançável por qualquer poder instituído.

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