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«Os Lusíadas» no Exame Nacional de Português, 2012

Junho 19, 2012

Sugestões de respostas ao questionário do Grupo I

(Canto VI, estrofes 96 – 99)

1. As quatro qualidades, apontadas pelo Poeta como sendo imprescindíveis para a obtenção de «honras imortais» e «graus maiores», ou seja, aceder a importantes e merecidos cargos da hierarquia social, são as seguintes:

– a valentia guerreira manifestada na luta árdua pela Pátria, não hesitando em pôr de lado o prazer de viver em nome de ideais pessoais, patrióticos e cristãos; estes são os que desejam alcançar o reconhecimento social mediante o seu próprio esforço no campo militar, por fidelidade aos princípios que os norteiam e às ordens do seu rei, para manter portuguesas as possessões ultramarinas e assegurar a independência do reino:

«co seu forçoso braço,/ As honras que ele chame próprias suas;/ Vigiando e vestindo o forjado aço, (…)»

– a indiferença ao sofrimento e espírito de sacrifício em condições adversas: «Sofrendo tempestades e ondas cruas,/ Vencendo os torpes frios no regaço/ Do Sul, e regiões de abrigo nuas,/»

– a capacidade de adaptação a condições imprevistas e desumanas com o objetivo de assegurar a respetiva sobrevivência física e a do ideal que perseguem:

«Engolindo o corrupto mantimento/ Temperado com árduo sofrimento»

– uma imperturbabilidade estóica face ao sofrimento dos amigos e companheiros de luta, não por indiferença ao sofrimento dos que, em combate, ficaram privados de uma parte do seu corpo («E leva a perna ou braço ao companheiro»), mas para que o ânimo entre os demais não esmoreça; por esta razão, estes guerreiros mostram-se possuidores de paz interior no meio de grande alvoroço íntimo, evitando desmoralizar os companheiros e manifestando, deste modo, a sua grande coragem:

«E com forçar o rosto, que se enfia,/ A parecer seguro, ledo, inteiro,/ pera o pelouro ardente que assovia/ E leva a perna ou braço ao companheiro

 

2. Nestes versos, o Poeta denuncia os principais vícios da nobreza portuguesa da época após as conquistas ultramarinas, as quais se manifestam através de comportamentos orientados para a obtenção do prazer pessoal e a prática da ociosidade, resultantes do excessivo apego aos títulos nobiliárquicos conquistados, no passado, pelas respetivas famílias, facto que lhes vai servindo de justificação para a inatividade e indiferença perante o desmoronamento do império a que se assiste nesta época.

            A repetição anafórica de «Não» (vv. 5 e 7) e de «Não cos» (vv. 9, 10, 11 e 13», que antecede a enumeração dos vícios da nobreza, coloca em destaque os comportamentos indignos que merecem a reprovação do Poeta pelo facto de contribuírem para arruinar a força anímica que orientou os intrépidos antepassados na expansão portuguesa por outros continentes e por, simultaneamente, contribuírem para dificultar a resposta da nação ao desmoronamento do império que o Poeta, lucidamente, antevê. Esses comportamentos desonrosos manifestam-se na dependência da glória e bom nome obtidos pelas suas famílias, ao longo dos tempos («Não encostados sempre nos antigos/ Troncos nobres de seus antecessores») e que agora serve de desculpa para a inação; na preguiça em que a riqueza proveniente do Oriente os fez cair («Não nos leitos dourados, entre os finos/ Animais de Moscóvia zibelinos;»; para além da ociosidade, estes nobres habituaram-se a uma vida luxuosa e incompatível com a vida rude e recheada de perigos daqueles que engrandeceram a nação («Não cos manjares novos e esquisitos,/ Não cos passeios moles e ouciosos,/ Não cos vários deleites e infinitos,/ Que afeminam os peitos generosos;/ Não cos nunca vencidos apetitos». A moleza, a ganância e a insatisfação dela decorrente («Não cos nunca vencidos apetitos») a indiferença, o hedonismo dos portugueses de agora estão a destruir a nação, a nível moral e físico, que outros ergueram abnegadamente entre privações, sofrimento e toda a espécie de tormentos, em terra e no mar.

 

 

3. O Poeta defende que a fama e a glória não devem ser obtidas em função da posse de bens materiais ou ser fruto de circunstâncias alheias ao esforço pessoal, como aquelas «que a ventura/ Forjou (…)»; pelo contrário, a imortalidade deve ser apenas concedida aos que ganharam «um calo honroso» na luta determinada que travaram contra a sua própria fragilidade humana, tanto mental como física e contra a tentação de desistirem da empresa em que se lançaram.

 

 

4. A mitificação do herói decorre da sua heroicidade manifestada na exemplaridade da sua conduta que o transforma num modelo a imitar; assim, o herói, tal como Vasco da Gama, não procura nem riquezas nem honras como a maioria das pessoas e, por esse facto, persegue o seu ideal, permanece fiel aos seus valores morais custe o que custar («Este, onde tiver força o regimento/ Direito e não de afeitos ocupado») e mantém-se impassível face às lutas que deslumbram os demais, como se vivesse num plano de existência superior, conquistado pela prática constante da virtude: «Fica vendo, como de alto assento,/ O baxo trato humano embaraçado/».

            Será este, o homem que dedicou a vida à prática da «virtude justa e dura» que será digno de ascender a um plano divino como recompensa do exemplo de ousadia, fé, generosidade e isenção moral que deixou aos seus contemporâneos e vindouros, passando, deste modo, a herói mítico nacional, não por desejo de glória ou vaidade («Subirá (como deve) a ilustre mando,/ Contra vontade sua, e  não rogando.»), mas porque Deus assim quis distingui-lo entre os homens, concedendo-lhe o prémio da divinização.

 

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