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Dossier Saramago

Março 31, 2012

Há uns tempos atrás, andava eu a reunir o material que tinha sobre José Saramago e cheguei rapidamente à conclusão de que tinha o fundamental – as obras que ele publicou, claro está. No entanto, eu queria também saber o que ele tinha dito, sobre ele mesmo e sobre o que escreveu, nas inúmeras entrevistas que deu. Aconteceu então que encontrei na Fnac o livro «José Saramago nas suas palavras» que é uma compilação de entrevistas dadas pelo autor e de reportagens sobre ele nos vários cantos do mundo; pensei que era mesmo de um livro como este que eu estava a precisar. O livro tem 503 páginas (sem contar com as páginas das referências bibliográficas) e a edição e seleção das entrevistas de Saramago foi realizada por Fernando Gómez Aguilera.

Foi deste livro, «José Saramago nas suas palavras», edições Caminho, 2010, que retirei os excertos que apresento aqui e que resultam de uma escolha que fiz para «retratar» o escritor, entre centenas de outros textos igualmente interessantes. Mas impunha-se uma seleção e é essa que vou partilhar aqui. Organizei os excertos que escolhi por ordem alfabética e por datas, de acordo com as ideias que me interessavam; assim rapidamente encontro o que procuro; no meu computador gravei esta compilação com o título de Dossier Saramago, daí o título deste post que pode parecer pretensioso; contudo, para mim, é apenas um instrumento de trabalho.

Autoretrato

«Sou uma pessoa com dois defeitos graves: sou um melancólico e um sarcástico. (…)» 1984

«Mas apercebo-me de que não aguento muito bem a solidão» 1994

«É certo que faço prevalecer a razão. Mas sou uma pessoa muito sensível aos sentimentos, às emoções, embora possa não parecer.» 1996

«A tristeza que você vê em mim é causada pelo irracionalismo, pelos fanatismos que se disseminam pelo mundo.» 1996

«Se tenho algum motivo de vaidade é ter sempre dito o que penso em qualquer sítio.» 1998

«A minha timidez vem da infância. Tem raízes antigas. Uma delas é a minha gaguez.» 1998

«Vivemos para tentar dizer quem somos. (…) Acho que não sabemos quem somos. O que uma pessoa faz, no fundo, é muito mais importante do que aquilo que sabemos sobre nós próprios.» 2000

«Há duas coisas na vida que não consigo suportar todos os dias. Uma é viver sem saber onde estamos. (…) A outra é o sentimento de não ter podido fazer alguma coisa para que o mundo mudasse.» 2000

«Eu sou uma pessoa pacífica, sem demagogia nem estratégia. Digo exactamente o que penso. E faço-o de forma simples, sem retórica. As pessoas sabem (…) que sou honesto, não tento captar em convencer ninguém. Parece que a honestidade não se usa muito nos tempos actuais.» 2004

«Eu sou um céptico profissional. Vivemos num mundo de mentiras sistemáticas.» 2007

«A pergunta que faço é porque é que eu me hei-de calar quando acontece alguma coisa que mereceria um comentário mais ou menos ácido ou mais ou menos violento. (…) Estamos numa forma de apatia que parece que se tornou congénita e sinto-me obrigado a dizer o que penso sobre aquilo que me parece importante.» 2008

«(…) Amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. (…)» 2008

Amor

«Eu penso que o sentimento é como a Natureza. Não podemos, em nome da experimentação, da frieza científica, da objectividade e de todas essas coisas, expulsar o sentimeto das nossas preocupações e das obras que vamos escrevendo. O sentimento estará sempre na moda, porque homem e mulher sempre sentirão amor. Não se pode matar o amor. Por isso ele tem uma presença tão importante nos meus romances.» 1986

«(…) Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão nesse sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.» 1990

«O outro é uma complementaridade que nos torna a nós maiores, mais inteiros, mais autênticos. Essa é a minha própria vivência» 1997

«Penso que o amor é o encontro da harmonia com o outro.» 1998

 Azinhaga

«Minha aldeia era rodeada de olivais, com oliveiras antigas de troncos enormes. Elas desapareceram. Senti-me como se me tivessem roubado a infância. (…) E essa mudança radical na paisagem foi, para mim, uma espécie de golpe no coração. (…) A gente, na verdade, habita a memória. A aldeia em que nasci só existe em minha memória. (…)» p.30 1996

Blimunda

«Essa senhora |Blimunda| fez-se a si própria. Nunca a projectei para ser assim ou assim… Foi no processo da escrita que a personagem se foi formando. E ela surge, surgiu-me com uma força que, a partir de certa altura, me limitei a… acompanhar. Aquele sentimento pleno de personagem que se faz a si mesma é a Blimunda. Mas, é curioso, só no fim me apercebi de que tinha escrito uma história de amor sem palavras de amor… Eles, o Baltasar e a Blimunda, não precisaram afinal de as dizer… E no entanto, o leitor percebe que aquele é um amor de entranhas…Julgo que isso resulta da personagem feminina. É ela quem impõe as regras do jogo… Porquê? Porque é assim na vida…A mulher é o motor do homem. Se você vir, os meus personagens masculinos são mais débeis, são homens que têm dúvidas, são personagens masculinos com complexos…As mulheres, não.» 1991

Cegueira

«A pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos à frente.» 2009

Cinema

«Amarcord é provavelmente o filme que levaria comigo para uma ilha deserta. Não basta dizer que gosto da obra de Fellini. É mais correcto dizer que me apaixona.» 2007

Comunismo

«O cepticismo não é resignação. Eu nunca me resignarei. Cada vez me sinto mais como um comunista libertário.» 2008

 Corpo

O corpo é uma condição do espírito. Não sei o que é o espírito. Em que momento entrou o espírito no corpo, eu não sei. (…)» 2000

Demagogia

«Tenho um horror visceral à demagogia, fico arrepiado com tudo o que tenha a ver com isso» 1982

Deus

«Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia.» 1991

«(…) Se este planeta fosse habitado só por animais, e poderia acontecer – quando os dinossauros existiam, o homem não estava cá -, então não haveria ninguém para dizer: «Deus existe». Chegou o momento em que alguém disse: «Deus existe», por termos sempre de morrer, pela esperança de que algo mais possa acontecer, de que algo a que chamamos ou que passámos a chamar espírito ou alma possa sobreviver. E a partir daí pode armar-se toda a construção teológica.»  2000

Ensaio sobre a Cegueira

«Ensaio sobre a Cegueira é uma espécie de imago mundi, uma imagem do mundo em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo. Mas dirão: «Também há gente boa». Pois há, mas o mundo não vai nessa direcção. Há pessoas humanizáveis, pessoas que se vão humanizando por um esforço de supressão de egoísmos. Mas o mundo no seu conjunto não vai nessa direcção.» 1995

Escrever

«Tenho que confessar, muito sinceramente, que escrever não me dá prazer. Pode dar-me prazer ter escrito, o que é outra coisa; agora, o chamado prazer da escrita, sinceramente não o sinto – embora também nunca tenha tido uma explicação que me diga em que consiste esse prazer. Muita gente fala do prazer da escrita, mas nunca nnguém nos disse que esse prazer se manifesta desta ou daquela maneira.» 1998

Escritor(es)

«O escritor é um homem do seu tempo ou não é. O que escreve será sempre acção política ou omissão.» 1982

«A minha impressão, ainda hoje, é a de que fui eu, autor, assumido pelas minhas personagens, assumido, tomado, possuído por elas, como se as criaturas pudessem, afinal de contas, criar o criador. Desconfio que podem, para não dizer que é essa a minha convicção.» 1983

«Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do acto de escrever.» 1993

«A inspiração é só o esqueleto de uma ideia. O trabalho e a disciplina é que formam o corpo desse esqueleto.» 1997

«|Os meus escritores de referência são| Montaigne, Cervantes, o padre António Vieira, Gogol e Kafka. O padre António Vieira era um jesuíta do século XVII. Nunca se escreveu na língua portuguesa com tanta beleza como ele fez.» 1998

«Provavelmente não sou um romancista; provavelmente eu sou um ensaísta que precisa de escrever romances porque não sabe escrever ensaios.» 1998

«Se há um escritor do século XX por quem tenho veneração, esse é Kafka, e reivindico ser kafkiano. Kafka disse que um livro tem de ser um machado que corta o mar gelado da nossa consciência; tomo isto como um programa de trabalho. O estranho seria um escritor como ele não ter exercido nenhuma influência.»  2001

«|Não escrevo| por amor, mas por desassossego. Escrevo porque não gosto do mundo em que vivo.» 2003

Espírito

«Eu sou materialista… (…) Não acredito nessas supostas espiritualidades que colocam os ideais de vida ou a satisfação dos desejos de cada um a distâncias inalcançáveis» 2008

Ética

«O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto não transcende para o colectivo. Já andamos há dois mil anos a dizer isso de nos amarmos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudar isso por respeitarmo-nos uns aos outros, para ver se assim tem maior eficácia. Porque o amor não é suficiente.» 2001

«Há um problema ético grave que não parece estar a caminho de ser resolvido: depois da Segunda Guerra Mundial discutia-se na Europa sobre progresso tecnológico e progresso moral, se podiam avançar a par um do outro. Não foi assim, pelo contrário, o progresso tecnológico disparou a alturas inconcebíveis e o chamado progresso moral deixou de ser, pura e simplesmente, progresso e entrou em regressão.» 2008

Estilo

«Se usasse constantemente sinais gráficos de pontuação seria como se estivesse a introduzir obstáculos ao livre fluir desse grande rio que é a linguagem do romance, como se estivesse a travar o seu curso. No fundo, é como se escrever fosse narrar. Claro que tudo isto é sempre subjectivo e podem ser encontradas muitas outras razões para justificar esta técnica. Estas, no entanto, são as minhas e não me parecem de todo más.» 1982

«António Vieira é uma dívida que reivindico. E mesmo que me digam que tal influência não se nota assim tanto na minha própria linguagem, sei que, profundamente, é o verbo vieiriano que vai ressoando no meu cérebro enquanto escrevo. Por um pouco lhe chamaria arquétipo. (…)» 1983

«Sou um escritor barroco e a minha frase avança numa espécie de linha ciclóide. Não vai em linha recta.» 1984

«Eu sou o mais realista dos escritores, não falem em realismo mágico ou fantástico. Considero-me o mais realista dos escritores: o modo como eu uso esse realismo é que não tem nada que ver, evidentemente, com as expressões naturalistas do século passado.» 1989

«No meu processo narrativo adopto os «mecanismos» do discurso oral, em que também a pontuação não existe. A fala compõe-se de sons e pausas, nada mais. O leitor dos meus livros deverá ler como se estivesse a ouvir dentro da sua cabeça uma voz dizendo o que está escrito.» 1995

«O meu estilo, para lhe chamarmos assim, sempre foi muito digressivo. Sou incapaz de narrar uma coisa em linha recta (…) Se houver um antepassado directo meu na literatura portuguesa, esse é um poeta, dramaturgo e romacista do século XIX que se chamou Almeida Garrett. O meu gosto pela digressão recebi-o desse autor.» 2003

«Eu penso que de uma maneira ou de outra |a ironia|, agressiva, activa, mais ou menos directa, está em tudo o que escrevo.» 2005

Fatalismo

«Talvez eu tenha um sentido fatalista da vida. Mesmo quando era novo, eu dizia a mim próprio que aquilo que fosse para mim viria parar-me às mãos. Não tenho de ir à procura, é só estar atento.» 1993

Felicidade

«A felicidade é só uma invenção para tornar a vida mais suportável» 1986

«Eu não gosto de falar de felicidade, mas sim de harmonia: viver em harmonia com a nossa própria consciência, com o nosso meio envolvente, com a pessoa de quem se gosta, com os amigos. A harmonia é compatível com a indignação e a luta; a felicidade não, a felicidade é egoísta.» 1998

«A felicidade consiste em dar passos na direcção de si próprio e ver o que se é» 2008

História

«Gosto muito de livros de História. O que sempre me irritou muito foi o romance histórico…» 1986

«Eu vejo o tempo como um harmónio. Assim com este pode ser estendido ou encolhido, os tempos podem tornar-se contíguos uns com os outros. É como se 1720 tivesse sido ontem, agora mesmo, ali naquele salão.» 1983

«(…) A conclusão, certa ou errada, a que eu cheguei é que, em rigor, a história é uma ficção. Porque sendo uma selecção de factos organizados de certa maneira para tornar o passado coerente, é também a construção de uma ficção.» 1989

«(…) Os historiadores apresentam uma realidade cronológica, linear, lógica. Mas a verdade é que se trata de uma montagem, fundada sobre um ponto de vista. A História é escrita sob um prisma masculino. Se fosse feita pelas mulheres seria diferente. Enfim, há uma História dos que têm voz e outra, não contada, dos que a não têm.» 1989

«Eu entendo a História num sentido sincrónico, onde tudo acontece simultaneamente. (…) Não se trata de fugir ao presente. Para mim, tudo o que aconteceu está a acontecer. (…)» 1994

«Eu penso que não se pode falar de História genuína, porque isso significaria que essa História genuína estaria a comunicar a verdade, ou uma verdade. Mas há um problema: a verdade não existe. Existem verdades parciais.» 2002

Homem português

«Há na obra de Pessoa um retrato bastante claro e completo do homem português, com as suas contradições, o misticismo um tanto mórbido que é o nosso, esta capacidade de esperar, que não é mais do que um desejo de adiar. A esperança é uma atitude activa, mas nos portugueses é uma forma cómoda de projectar para um futuro cada vez mais distante o que deveríamos fazer agora.» 1985

«Nós, portugueses, smos facilmente sentimentais. Temos sentimentos com demasiada facilidade, o que não significa que sejamos capazes de grandes sentimentos. E são os grandes sentimentos, e não os sentimentalismos, que nos exaltam, que nos fazem acreditar.» 1996

Iberismo

«Vou pela Península Ibérica como se fosse a minha casa» 1995

«Primeiro sou português, segundo sou ibérico, e só em terceiro lugar, e quando me apetece, sou europeu» 1996

Igreja

«O problema da Igreja é que precisa da morte para viver. Sem a morte não poderia haver Igreja porque não haveria ressurreição. As religiões cristãs alimentam-se da morte. (…)» 2005

«A Igreja tentou encontrar uma explicação para a criação do mundo, e desde então que defende essa ideia – com violência. É uma intolerância criminosa, como a Inquisição a queimar pessoas que são vistas como diferentes. O novo Papa (Joseph Ratzinger, Bent XVI) quer que os dogmas rígidos sejam respeitados e não questionados. Sou contra isso. Não podemos aceitar a verdade vinda de outras pessoas. Deveremos ser sempre capazes de questionar estas verdades.» 2008

Inferno

«Como se pode ser optimista quando tudo isto é um estendal de sangue e lágrimas? Nem sequer vale a pena que nos ameacem com o inferno, porque inferno já o temos. O inferno é isto.» 2008

Intuição

«(…) Isso a que nós chamamos intuição, no meu entender, não é mais que o resultado desse trabalho subterrâneo que às vezes sobe e aparece. Chamamos intuição a isso, a algo que não nos passava pela cabeça e não sabemos porquê aparece de improviso. (…) O que acontece é que não o percepcionámos, não é aquilo a que eu chamo o pensamento activo, (…) A imaginação talvez tenha a ver com isto.» 2002

Inveja

«(…) e o que mais prejudica as relações humanas e as torna difíceis e complicadas é a inveja.» 2009

Ironia

«Eu defino-a, a ironia, como uma máscara de dor. É uma defesa que nós, os que somos gente frágil, arrastamos.» 1987

Jorge de Sena

«Esta grande admiração pessoal tem a ver por ele ser o tipo de pessoa que eu aprecio: frontal. Às vezes mesmo violento na expressão, basta recordar o célebre discurso da Guarda em que ele deita água gelada nas fervuras patrióticas (da Revol de Abril) que se esperavam e que aconteceram realmente. (…)» 2009

Lanzarote

«Talvez o facto de viver em Lanzarote tenha influenciado e estilo da minha escrita, que se tornou mais austero, disciplinado e, por isso, talvez mais profundo. É como se, ao simplificar a escrita, me permitisse avançar mais para dentro. É claro que a ilha que Pilar e eu escolhemos para viver tem responsabilidade nisso tudo.» 1998

Ler/ Leituras

«Começar a ler foi para mim como entrar numa floresta pela primeira vez e encontrar de repente todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Quando fazemos isso, o que nos deslumbra é o conjunto. Não dizemos: gosto mais desta árvore que das outras. Não, cada livro em que eu entrava apreciava-o como uma coisa única.» 1998

Lisboa

«Lisboa é na minha obra um pequeno universo pelo qual vou circulando» 1987

«A adesão a Lisboa começa pela vida literária. Foi com O Ano da Morte de Ricardo Reis (…) foi uma espécie de imposição da própria cidade. Lisboa aparece na Jangada de pedra e agora no Cerco de Lisboa. Sem o ter decidido acabei por me transformar numa espécie de autor de Lisboa, o que até para mim é surpreendente» 1989

«Não. Eu não sou um escritor de Lisboa! O rótulo foi-me dado pela escrita do romance O Ano da Morte … que é o que eu gosto mais (…) O meu tema não é Lisboa. E, além disso, a cidade que aparece em Ricardo Reis não é a Lisboa real, mas sim a da memória. (…)» 1994

Literatura

«Incluir a literatura entre os agentes da transformação social é uma reflexão ingénua e idealista.» 1993.

«Para mim, este século que termina define-se na literatura em três nomes: Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e Franz Kafka.» 1998

Memória(s)

«Nós vivemos num lugar como pode ser a aldeia onde nasci, mas no fundo habitamos numa memória. (…) Nós mudamos, o lugar muda e parece que, logicamente, a imagem que temos deveria ir mudando porque nós vamos mudando (…) mas apercebemo-nos, se pensarmos nisso, de que mantemos uma imagem, como uma fotografia, que ficou dentro de nós, e que todas as imagens que vêm depois não chegam a apagar esse tempo, que pode ser o da nossa infância, o da nossa adolescência, ou pode ser o da nossa mãe.» 1998

«O caminho de ferro ocupou uma posição relevante nos meus sonhos de criança. Lembro-me de que o que mais me fascinava era a figura do maquinista. (…)» 1982

«Posso ter esquecido uma série de outras coisas, mas as mais simples ficaram: a lareira em casa dos meus avós, os passeios no campo, o banho nos rios, os porcos, tudo isso, tudo, tudo, tudo.»1996

Memorial do Convento

«Para escrever este romance, cuja acção se situa entre 1711 e 1739, a primeira exigência é um um conhecimento tido por suficiente dessa mesma época. Isso significa que se tenha de dar um mergulho nesse século através da leitura de documentos. Durante muitos meses precisei de ler e quase de falar como então se falava. Olhei muito para a pintura da época e ouvi muita música (…) tive de consultar e de decifrar documentos da época, de preocupar-me com aspectos económicos e sociais, com a questão do Santo Ofício, não tanto para vir dizê-lo, mas como se quisesse senti-lo.» 1982

«Penso que |Memorial do Convento| reflecte o povo que somos e as preocupações que ainda temos.» 1982

Mistério

«Isso que chamamos mistério é, simplesmente, o que não se sabe. A partir do momento em que há uma explicação científica, ou lógica simplesmente, deixa de ser mistério.» 2008

Morte

«A nossa única defesa contra a morte é o amor.» 2005

«Sabemos que a morte é uma chatice, claro, e no caso dos escritores é uma dupla chatice. O escritor morre e a sua obra, geralmente, entra numa espécie de nuvem negra.» 2008

Mulher

«As minhas personagens mais fortes são todas mulheres. Não quer dizer que em alguns casos o homem não fique próximo delas. Dizer que são mais fortes não significa grande coisa, mas são aquelas que têm um poder tansformador. Não é que venham dizer que vêm transformar, é a sua própria presença, o que fazem e o que dizem que mostra que com o aparecimento delas alguma coisa vai mudar.» 2009

Mundo

«Para mim o mundo é uma espécie de enigma constantemente renovado. Cada vez que o olho estou sempre a ver as coisas pela primeira vez. O mundo tem muito mais para me dizer do que aquilo que sou capaz de entender. (…)» 1983

Narrador

|O meu narrador| adopta todos os pontos de vista possíveis, pode estar em todos os lugares e, sobretudo, habita o tempo todo. O narrador não prev~e o futuro, mas já sabe o que acontecerá no futuro da acção. O narrador narra, joga, organiza todos os factos da sua efabulação e sabe aquilo que as suas personagens ignoram (…) Usa esse saber de um modo que lhe é exclusivo. As personagens não partilham desse conhecimento, porque não podem. Nos meus romances aparecem de forma simultânea os comportamentos das personagens e o conhecimento que o narrador já possui do que lhes acontecerá.» 1986

«Toda a obra literária leva uma pessoa dentro, que é o autor. O autor é um pequeno mundo entre outros pequenos mundos. A sua experiência existencial, os seus pensamentos, os seus sentimentos estão lá.» 2001, p. 239

Natureza

«(…) Eu vivi uma relação com a natureza que se deu naturalmente: um canto, uma árvore, o rio. Coisas que são o próprio mundo. Não é a natureza abstracta: é a cobra, o sapo… Não tem importância nenhuma…serpentes, lagartos…que importância têm? Para muitos, se calhar, nenhuma. Mas, para mim, têm toda.» 2006

«(…) a natureza não é uma simples paisagem que se oferece aos olhos, mas uma espécie de comunhão com todo o mineral, vegetal e animal que me rodeia. Uma comunhão que passa por todos os meus sentidos, ao ponto de muitas ter a impressão de me encontrar não do lado de fora mas do lado de dentro. Enquanto observo a natureza, sinro que ela me observa.» 2007

Panteísmo

«Quando nos Cadernos de Lanzarote me interrogo onde acabam os meus cães e onde começo, ou onde acabo eu e onde começam eles, no fundo tem, não sei, muito a ver com uma espécie de sentimento panteísta de que não falámos (…) 1998

Paraíso

«Penso que, para voltar a falar do paraíso, eu só consideraria um paraíso aceitável se pudesse encontrar lá os animais, e mais concretamente os cães.»  2004

Pessimismo

«Gostaria de me encontrar com Voltaire e dizer-lhe que ele tinha razão com a sua opinião céptica e pessimista do género humano. Dir-se-ia que teve razão e que muitos anos depois não mudámos nada, que há motivos para pensar que, se ele vivesse no século XX, teria ainda muito mais razão.» 1998

Portugal

«Um país como Portugal, e não é o único nesta situação, que não tem uma ideia própria de futuro para toda a colectividade, vive numa situação de total dependência. Não temos mais ideias do que aquelas que nos dizem que devemos ter. A União Europeia dita-nos o que devemos fazer em todos os campos da vida. Encaminhamo-nos para a pior das mortes: a morte por falta de vontade, por abdicação. Esta renúncia é também a morte da cultura. Por isso creio que um país morto, como Portugal, não pode fazer uma cultura viva.» 1994

«Gosto da minha terra, mas deixei de a idealizar. E mesmo que não queiramos, a educação que temos é de tal ordem, mais o ensino que recebemos na escola, mais o «matraquear» da comunicação social, seja ela de que tipo for, sobre os supostos valores e méritos que nos distinguem, tudo isso acaba, seja qual for o país, por introduzir uma ideia (não entrando na guerra de saber se somos melhores que os outros), que é a de que fomos realmente muito bons. Porque nos dizem que fomos bons missionários, fomos bons soldados, tudo isso nos é apresentado por uma lição autoritária de História que nos impõe uma espécie de idealização da pátria; e, de facto, isso eu perdi.» 1998

«Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. (…) Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência – e nada por trás. Onde estão as ideias? Onde está uma ideia de futuro para Portugal? (…)» 2003

Poemas

Os Poemas Possíveis, 1966

Pensar/ Pensamento

«Eu tenho uma tese nada científica sobre o pensamento. Há um pensamento activo, isto é, eu estou a pensar numa coisa e, portanto, posso, dentro de cinco minutos, mais ou menos, reproduzir o que estou a pensar; mas há outro pensamento subterrâneo que trabalha por sua conta, isto é, que tem muito pouco a ver com o que está a acontecer. (…)» 2002

«Independentemente da ideologia que professemos, há uma característica humana que devemos partilhar todos: é a faculdade de pensar. O pensamento devia constituir uma emanação necessária e fatal do ser humano. Pascal dizia que somos uma cana açoitada por todos os ventos, mas uma cana que pensa. Eu acrescentaria que somos canas pensantes, mas não pensamos de forma isolada, mas sim como parte de um canavial. O pensamento nunca pode ser autista.» 2001

«Acho que na sociedade actual falta-nos filosofia. Filosofia com espaço, lugar, método de reflexão, que não pode ter um objectivo determinado, como a ciência, que avaça para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma.»  2008

Princípios

«(…) Uma pessoa está prestes a afogar-se, mas há uma tábua a que se agarra. É a tábua dos princípios. Tudo o resto pode desmoronar-se, mas agarrado a ela, o naúfrago chegará a uma praia. E depois com essa tábua poderá construir outro barco, evitando cometer os erros de antes. Com esse barco cehagará a outro porto.» 2003

«Uma pessoa tem convicções e vive com elas. Se as abandona o que é que resta? Nada. (…) Pelo menos, posso dizer a mim mesmo que não me deixei contaminar.» 2007

Ricardo Reis

«O primeiro heterónimo de Pessoa que eu li foi Ricardo Reis, aos 19 anos. E devo dizer que a poesia de Ricardo Reis é realmente fascinante. É um mundo neoclássico de rigor poético que encanta qualquer um. Mas eu encontrei nela algo que, desde muito novo, me causou uma impressão forte, muito desagradável, de rejeição. Uma frase que me marcou e determinou grande parte da minha literatura: «Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo». 1998

Razão

«Ou a razão, no homem, não faz mais que dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal entre os animais, é também indubitavelmente o mais irracional de todos eles. Vou-me inclinando cada vez mais para a segunda hipótese, não por eu ser morbidamente propenso a filósofos pessimistas, mas sim porque o espectáculo do mundo é, na minha fraca opinião, e de todos os pontos de vista, uma demonstração explícita e evidente daquilo a que chamo a irracionalidade humana» 2007

Relativismo

«Não sou niilista, sou simplesmente relativista. (…) o niilismo é a filosofia da preguiça ou do nada, o relativismo é a filosofia do desejo e da acção. Os que dizem que sou niilista não sabem ler (…)» 2004

Religião

«Sou um ateu com uma atitude religiosa e vivo muito em paz» 1986

«Penso que para se ser um ateu coerente faz falta um alto grau de religiosidade. O ateísmo não é compatível com uma postura religiosa. Nem se trata de substituir Deus pela humanidade. É mais um sentimento de uma grandeza imensa que tem a ver com o Universo. E isto é suficiente, porque ainda que eu não coloque Deus nesse Universo, a minha posição é o que chamamos de transcendente (…) O que me transcende é a matéria, a Terra, toda ela, com os seus mares e multidões. E a minha religiosidade começa, (…) na relação que tenho com o meu país. 1989

«Sou um espírito profundamente religioso. (…) No sentido etimológico de religião, tomada como aquilo que liga, o que sinto é uma grande ligação a tudo (…)» 1991

«Não acredito em Deus e nunca tive crise religiosa. Mas não posso ignorar que, mesmo não sendo crente, a minha mentalidade é cristã.» 1994

«não digo que a marca do cristianismo desapareceu do meu cérebro. Não omito a minha formação, como prova o Evangelho segundo Jesus Cristo. Nele está presente o cristianismo na sua expressão católica. Posso estar fora da Igreja, mas não do mundo que a Igreja criou.» 1995

«Eu sou ateu, mas sempre me senti atraído pelo fenómeno religioso. Interessa-me a religião como instituição de poder que se exerce sobre as almas e os corpos.» 2001

Realização dos sonhos da humanidade

«Duvidei sempre que a realização dos sonhos da humanidade coincidisse com o meu tempo de vida. Não cultivo o optimismo histórico, sou um céptico. Gostava de não o ser, mas a toda a hora recebo razões do mundo para o ser e para o ser agravadamente com os anos.» 1989

Responsabilidade colectiva

«Talvez eu tenha uma ideia um pouco doentia de um sentido da responsabilidade, como se fosse minha uma responsabilidade colectiva. (…) E por detrás de nós existe uma massa de água que nos empurra e nós não somos ninguém sem essa quantidade de água. (…) Então, este sentimento da maré que nos empurra tem a ver um pouco com o sentido colectivo da cultura e da história.» 1989

Sabedoria

«(…) Se há alguma sabedoria na minha vida, é saber esperar.» 1993

«A sabedoria consiste, no fundo, em ter uma relação pacífica com o que está fora de nós, com a natureza. Para o meu avô bastava-lhe saber o nome das árvores, dos animais e ter uma ideia aproximada do tempo. Vivia-se com 400 ou 500 palavras. Talvez tenhamos de reconhecer que a sabedoria se contém nessas poucas palavras (…) às vezes, as palavras fazem com que nos detenhamos nelas.» 2003

Saramago

«Minha família tinha a alcunha de Saramago, que é o nome de uma planta silvestre, que dá uma florzinha com quatro pétalas e cresce pelos cantos, quase sempre esquecida.» 1996

Ser humano

«Há uma personagem |a rapariga dos óculos escuros| no meu livro |Ensaio sobre a Cegueira| que pronuncia as palavras-chave: «dentro de nós há uma coisa que não tem nome. É isso que somos.» O que precisamos é procurar dar um nome a essa coisa: talvez, simplesmente, lhe possamos chamar «humanidade». 1996

«Eu acho que dentro de nós há um espesso sistema de corredores e de portas fechadas. Nós próprios não abrimos todas as portas, porque suspeitamos que o que há do outro lado não será agradável de ver (…). Vivemos numa espécie de alarme em relação a nós mesmos, que talvez seja não querermos saber quem somos na realidade.» 1998

«Somos matéria e nada mais. Uma parte dessa matéria foi capaz de criar consciência. Mas tudo o que somos é cérebro. É lá que está tudo.» 2003

«Muita gente diz-me que eu sou pessimista; mas não é verdade, é o mundo que é péssimo. O ser humano limita-se na actualidade a «ter» coisas, mas a humanidade esqueceu-se de «ser». Ser dá muito mais trabalho: pensar, duvidar, interrogar-se sobre si mesmo…» 2006

Solidão

«Costuma dizer-se que a solidão é enriquecedora, mas isso depende directamente da possibilidade de se deixar de estar sozinho»

«Há uma solidão ontológica – o ser está aí -, que nos diz que somos ilhas, talvez um arquipélago, mas ilhas de qualquer modo. Nas ilhas de um arquipélago, pode-se estabelecer comunicação, pontes, correios, mas a ilha está ali, em frente de outra ilha. Talvez a comparação seja fácil, banal. As pessoas vivem com essa solidão sem se aperceberem, ou apercebendo-se dela de vez em quando.» 2003

Sonhos

«Os sonhos são e, nos sonhos, não há firmeza, dizia a minha avó Josefa.» 2007

Tolerância (Intolerância)

«Eu sou contra a tolerância, porque ela não basta. Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro. Sobre a intolerância já fizemos muitas reflexões. A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.» 1993

Vida

«Desde o 25 de novembro, data em que fui classificado como contra-revolucionário pelo Conselho da revolução, vivo de traduções. (…) Foram elas que me serviram de almoço e de jantar.» 1980

«(…) A vida não pensa. Nós vivemos no caos. O que se passa é que vivemos num espaço limitado dentro de outro espaço que escapa à nossa capacidade de compreensão.» 2008

 

 

«Como se desenha uma casa»

Março 30, 2012

 

Pois nada surge com a sua própria forma

                                      Paul Celan

 

Como se desenha uma casa

 

Primeiro abre-se a porta

por dentro sobre a tela imatura onde previamente

se  escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,

a mãe para sempre morta.

 

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,

como uma foto que se guarda na carteira,

iluminam-se no quintal as flores da macieira

e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

 

Protege-te delas, das recordações,

dos seus ócios, das suas conspirações;

usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:

o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

 

Uma casa é as ruínas de uma casa,

uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;

desenha-a como quem embala um remorso,

com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

 

Como se desenha uma casa, Manuel António Pina, Assírio e Alvim, Outubro 2011

 

«Casa» é uma das palavras que mais me agradam pelo seu significado simbólico de refúgio, proteção, liberdade de ser e estar, relações familiares e afetivas e ainda pelo facto de nela estarem arquivadas as memórias da infância, entre as quais as peripécias associadas à transição de um mundo fechado (a minha casa) para uma realidade exterior (a sociedade, a casa dos outros). Mas «casa» é também símbolo da realidade interior de cada um, o espaço mental no qual se vai construindo o nosso ser.

Como «nada surge com a sua própria forma», a criação artística depende da visão do mundo arquivada na mente do seu criador e esta enraiza-se nas emoções e sentimentos que o seu percurso de vida fizeram nascer e às quais o artista dará «forma» materializando o «nada» dessa realidade imaterial num poema, num desenho, numa pintura.

 O poema «Como se desenha uma casa» sugere a importância do espaço «casa», seja físico, mental ou ambos como o espaço onde a vida começou, mas também sugere que a representação simbólica dessa «casa» deverá obedecer a certas instruções, talvez devido ao facto de se tratar da representação de algo com elevado valor afetivo e que, por isso, traz até à luz da consciência emoções heterogéneas, umas boas e capazes de estabelecer uma ponte com o passado, outras más e com potencial destrutivo.

Talvez o primeiro passo para se aceder ao nosso ser mais genuíno e dar «forma» através da arte a essa verdade mais profunda que guardamos dentro de nós consista em abrir a porta da memória, espaço mental onde as vivências de cada um estão arquivadas. A «tela», palavra cuja origem etimológica é a mesma de «texto», será o recipiente em que vão derramar-se essas recordações já que dar «forma» a algo acontece num espaço, tela ou folha de papel, no qual o «nada» se materializa e ganha visibilidade.

Antes de «se desenhar uma casa»,  a tela é apenas um espaço vazio à espera de um preenchimento que justifique a sua existência e por isso é «imatura»

As «palavras antigas» precedem o «desenho» da casa para ajudar à evocação do passado (infantil?) no qual o cão, o jardim e a mãe (a alma da casa que é um espaço tradicionalmente feminino). Estas são «palavras antigas» na medida em que têm o mesmo tempo de existência daquele que as relembra, saudoso ou não, no presente; o referente de cada uma delas ficou nesse passado e a única via para lhe aceder é a memória; o cão, o jardim e a mãe valem pelas emoções que suscitam

Na segunda quadra há um contraste entre escuridão e luminosidade; a escuridão sugerida por «anoiteceu» e «apagamos a luz» acentua a luminosidade das «flores da macieira no quintal» que ganham vida graças à memória, tal como «a foto que se guarda na carteira» tem a função de manter viva a imagem do retratado. Se o pensamento racional passa para segundo plano, as recordações arquivadas no subconsciente ocupam a «tela» da consciência e perturbam o presente com ecos de sofrimentos antigos e histórias de sonhos que ficaram por concretizar; o poeta, consciente de que as emoções precisam de ser racionalizadas para que a obra nasça, aconselha o artista que quer «desenhar uma casa» a defender-se dessas memórias que, por terem ficado sem o controlo da razão nos confins da memória, conservam uma carga emocional negativa que se foi adensando no decurso do tempo e desencadeiam um sentimentalismo exagerado; assim, «as lágrimas» serão pintadas de rosa, a cor do coração, da vida, perfeição e renascimento e com azul, a cor do infinito e do vazio, «os sonhos desfeitos».  Ficarão tons quentes e frios a recriar vestígios de momentos passados perturbadores e que deste modo são transformadas em objeto artístico.

«Uma casa é as ruínas de uma casa», adverte o poeta-professor de desenho, na última quadra, e «uma coisa ameaçadora»  tal como a linguagem do inconsciente; o ser humano é controlado por um labirinto de emoções que o acompanham desde o passado e é preciso contorná-lo e domesticá-lo para que a criação artística tenha sentido e seja comunicativa; por isso esta «casa» será desenhada «com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso».

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Exílio, desistência, fatalismo e misantropia na obra de Fernando Pessoa

Março 24, 2012

EXÍLIO

«Terceira – (…) Há alguma razão para qualquer cousa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?»

(Poemas Dramáticos de Fernando Pessoa, Drama Estático em um Quadro, O Marinheiro, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

 

Quando o poeta Fernando Pessoa escreve sobre o que genericamente designamos por «vida», a impressão que me parece deixar no leitor é a de que vive exilado numa realidade confusa e estranha; a vida parece-lhe, talvez, uma espécie de apeadeiro no qual espera, tão pacientemente quanto pode, o transporte que o levará de regresso a «casa», à harmonia interior com ele próprio:

XXIX

Há entre mim e o real um véu

À própria concepção impenetrável.

Não me concebo amando, combatendo,

Vivendo como os outros. Há, em mim,

Uma impossibilidade de existir

De que |abdiquei|, vivendo.

(Poemas Dramáticos de Fernando Pessoa, Notas para o Poema Dramático Primeiro Fausto (1908-9), Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

 

 Enquanto espera, debruça-se sobre si próprio e vai-se analisando. Então, o mundo exterior esfuma-se e só fica ele procurando-se incansavelmente,  tornando-se no analisador e na coisa analisada, simultaneamente.

 

«Hei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrinçar, os elementos que constituem o meu carácter, pois a minha curiosidade acerca de tudo, aliada à minha curiosidade sobre mim próprio e pelo meu carácter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.

            Foi por causa destas características que eu escrevi acerca de mim próprio, em «The Writers Day»:

            Alguém como Rousseau,

           Misantrópico amante da humanidade.

(…)»

(In Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Edições Ática, Lisboa, excerto) (1)

 

«(…) O que é a vida? (…)// Uma ilusão de sonho, em cuja esteira/ A minha vida jaz.»

(Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa, 1920, excerto)

«(…) Fecho meu coração.// Na inútil consciência/ De ser inútil tudo,/ Fecho-o, contra a violência/ Do mundo duro e rudo.// (…)»

(Hoje, neste ócio incerto, 1923, excerto)

«Dói viver, nada sou que valha ser./ Tardo-me porque penso e tudo rui./ Tento saber, porque tentar é ser/ Longe de isto ser tudo, tudo flui

(Dói viver, nada sou que valha ser, s/d, excerto)

«(…)/ Minha vida é escombros,/ A minha alma insonte

(Põe-me as mãos nos ombros, revista Athena nº3, 1924, excerto)

A realidade percecionada não parece ter afinidades com essas outras que intui e que transformam a primeira numa realidade pobre, monótona e desinteressante que exige o sacrifício de ser vivida:

«E assim escondo-me atrás da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da mesa, donde subitamente prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim, como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam – o tédio de viver só o Real, e o tédio de poder conceber só o Possível.

Triunfo assim de toda a realidade. (…)»

(Livro do Desassossego por Bernardo Soares, 2ª parte, 3ª edição, Livros de bolso Europa-América, excerto)

  Como consequência, o ato de viver a vida normal é metaforicamente «sono», «informe real», «cruz», «teia», «o cais de onde nunca parto», «noite», «escombros», «deserto», «ilusão do espaço e do tempo», enfim, uma «cela de reclusão» que se abre para outras celas, como a da dificuldade em sentir aliada à dificuldade de se encontrar a si próprio:

«Primeira – Não falemos mais. (…) Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende?

Segunda – Não sinto nada…Sinto as minhas sensações como uma coisa que se sente… Quem é que eu estou sendo?… Quem é que está falando com a minha voz?…Ah, escutai…

(…)

Primeira – Para quê tentar apavorar-me? Não cabe mais terror dentro de mim … Peso excessivamente ao colo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que suponho que sinto. (…)»

(Poemas Dramáticos de Fernando Pessoa, Drama Estático em um Quadro, O Marinheiro, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

 

O mundo contém outros mundos: o que é apreendido pelos sentidos e aqueles que a intuição e o sonho conseguem captar e que chegam à sua consciência através de símbolos e mensagens, cujo desejo de compreensão poderá explicar que o poeta «raciocinador» («Sou em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico») (1) se tenha dedicado à elaboração de horóscopos, sessões de escrita automática, entre outras atividades idênticas e expressivas da necessidade de contacto com essas realidades fantásticas, misteriosas, temíveis e fascinantes:

 

«(…) Tudo para mim é incoerência e mutação.Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente. (…)» (1)

«Súbita mão de algum fantasma oculto/ Entre as dobras da noite e do meu sono/ Sacode-me a eu acordo, e no abandono/ Da noite não enxergo gesto ou vulto.// (…) Sinto que sou ninguém salvo uma sombra/ De um vulto que não vejo e que me assombra,/ E em nada existo como a treva fria

(Súbita mão de algum fantasma oculto, 1917, excerto)

«(…)/ Eu alma, que contempla tudo isto,/ Nada conhece e tudo reconhece./ Nestas sombras de me sentir existo,/ E é falsa a teia que tecer me tece

(Doura o dia. Silente, o vento dura. 1923, excerto)

«(…)// De resto nunca sei nada./ Minha alma é a sombra presente/ De uma presença passada.// (…)»

(Um muro de nuvens densas, 1929, excerto)

«(…)// Quem pode sentir descanso/ Com o Castelo a chamar?/ Está no alto, sem caminho/ senão o que há por achar./ Na sombra do Monte Abiegno/ Meu sonho é de o encontrar.// (…)»

(Na sombra do Monte Abiegno, 1932, excerto)

«(…)// Neste momento insone e triste/ Em que não sei quem hei-de ser,/ Pesa-me o informe real que existe/ Na noite antes de amanhecer.// (…)// (Tudo isto me parece tudo./ Mas noite, frio, negror sem fim,/ Mundo mudo, silêncio mudo -/ Ah, nada é isto, nada é assim!

(Cansa sentir quando se pensa. 1932, excerto)

 

O facto é que a vida lhe parece uma realidade  dececionante à qual não se ajusta e que de vez em quando se fende em pequenas brechas que lhe permitem entrever essa outra realidade apenas imaginada  («porque não sabemos o que seja a realidade»). Infelizmente, esse vislumbre acontece poucas vezes e a consciência deste desajustamento entre o mundo visível e o invisível acentuou a propensão do poeta para o tédio, solidão e sonho

XXXIV

Basta ser breve e transitória a vida

Para ser sonho. A mim, como a quem sonha,

E escuramente pesa a certa mágoa

De ter que despertar – a mim, a morte,

Mais como o horror de me tirar o sonho

E dar-me a realidade, que me apavora,

Que como morte. Quantas vezes, |quantas|,

Imerso, me não pesa o ter que ver

A realidade e o dia!

(Poemas Dramáticos de Fernando Pessoa, Notas para o Poema Dramático Primeiro Fausto (1908-9), Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

 

 expressões da sua inadaptação à vida que a poesia, ortónima e heterónima põe a nu:

«(…) Não tirei bilhete para a vida,/ Errei a porta do sentimento,/ Não houve verdade ou ocasião que eu não perdesse./ Hoje não me resta, em vésperas de viagem,/ Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, / Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,/ Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)/ Senão saber isto:/ Grandes são os desertos, e tudo é deserto./ Grande é a vida, e não vale a pena haver vida

 

(Grandes são os desertos, e tudo é deserto, 1930, Poesias de Álvaro de Campos, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

 

«Se a alma é mais real/ Que o mundo exterior, como tu, filósofo, dizes,/ Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade?»

(Poemas Inconjuntos, Poesias de Alberto Caeiro, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

«Quanta tristeza e amargura afoga/ Em confusão a streita vida! Quanto/ Infortúnio mesquinho/ Nos oprime supremo!»

(Quanta tristeza e amargura afoga, 1926. Odes de Ricardo Reis, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

 

DESISTÊNCIA

O poeta Fernando Pessoa, possivelmente porque nunca viu qualquer vantagem na ação (agir para conseguir o quê? Agir porquê? Quem seria o autor da ação, no caso de ter desejo dela?), sofreu de paralisia da vontade, excetuando o campo da criação artística, atividade a que dedicou grande parte da sua energia vital, como comprovam os vários heterónimos e semi-heterónimos que criou e que são os canais que a sua personalidade multifacetada escolheu para se manifestar.

«(…) É possível que, mais tarde, outros indivíduos, deste mesmo género de verdadeira realidade, apareçam. Não sei; (…) Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não só um escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuíse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo, (…)» (1)

«(…) outros planos em que me consumo na necessidade de serem em breve postos em prática |…| conjugam-se para produzir um impulso excessivo que me paralisa a vontade. O sofrimento que isto produz não sei se poderá ser definido como situado aquém da loucura. (…)» (1)

 A desistência manifesta-se, também, na desmotivação para manter uma relação sentimental com um ser de carne e osso porque …

«(…) quando digo que sempre gostei de ser amado, e nunca de amar, tenho dito tudo. Magoava-me sempre o ser obrigado, por um dever de vulgar reciprocidade – uma lealdade do espírito – a corresponder. Agradava-me a passividade. De actividade, só me aprazia o bastante para estimular, para não deixar esquecer-me, a actividade em amar daquele que amava. (…)» (1)

 Pessoa busca um ideal, uma figura imaterial que apenas o sonho lhe pode proporcionar e o contraste entre o sonho e os seres que têm existência corpórea leva-o a escolher o ser idealizado no sonho:

«O meu horror às mulheres reais que têm sexo é a estrada por onde eu fui ao teu encontro. (…) Quem pode respeitar a Esposa sem ter de pensar que ela é uma mulher noutra posição de cópula… (…)

Pura só tu, Senhora dos Sonhos, que eu posso conceber amante sem conceber mácula porque és irreal. A ti posso-te conceber mãe, adorando-o, porque nunca te manchaste nem do horror de seres fecundada, nem do horror de parires. (…)»

 (Livro do Desassossego por Bernardo Soares, 2ª parte, 3ª edição, Livros de bolso Europa-América, excerto)

A desistência de agir como resposta a uma vontade de alcançar bem-estar na vida dita normal tê-lo-á conduzido ao tédio de viver e à defesa da abdicação e do conformismo, afirmando que «vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. (…)» (1)

Pessoa ortónimo:

«Tudo quanto sonhei tenho perdido/ Antes de o ter»

(Tudo quanto sonhei tenho perdido, 1920, excerto)

«(…)/ Eu não procuro o bem que me negaram./ As flores dos jardins herdadas de outros./ (…)»

(Tornar-te-ás só quem tu sempre foste, 1921, excerto)

«(…)/ Que mais haurir pode da morta lida,/ (…) Senão a calma aquiescência em ter/ No sangue entregue, e pelo corpo todo/ A consciência de nada qu’rer nem ser,// (…)»

(A parte do indolente é a abstracta vida, 1921, excerto)

«(…)// Que vitórias perdidas/ Por não as ter querido!/ Quantas perdidas vidas!/ E o sonho sem ter sido…// (…)»

(Não é ainda a noite, 1926,excerto)

«Meus dias passam, minha fé também./ Já tive céus e estrelas em meu manto./ As grandes horas, se as viveu alguém,/ Quando as viver, perderam já o encanto

(Meus dias passam, minha fé também. 1924, excerto)

«(…)// Um pouco de alto medito/ A névoa só com a ver./ A vida? Não acredito./ A crença? Não sei viver

(De onde é quase o horizonte, 1931, excerto)

 

Heterónimos

«Dia após dia a mesma vida é a mesma./ O que decorre, Lídia,/ No que nós somos como em que não somos./ (…)»

(Dia após dia a mesma vida é a mesma, 1923, Odes de Ricardo Reis, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

«(…) Não, cansaço não é…/ É eu estar existindo/ E também o mundo,/ Com tudo aquilo que contém/ Com tudo aquilo que nele se desdobra/ E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais

(Não, não é cansaço, 1935. Poesias de Álvaro de Campos, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

«Quando vier a Primavera,/ Se eu já estiver morto,/ As flores florirão da mesma maneira/ E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada./ A realidade não precisa de mim

(Poemas Inconjuntos, Poesias de Alberto Caeiro, Colecção Poesia, Edições Ática)

«Quer pouco: terás tudo./ Quer nada: serás livre./ O mesmo amor que tenham/ Por nós, quer-nos, oprime-nos

(Quer pouco: terás tudo, Odes de Ricardo Reis, Colecção Poesia, Edições Ática)

E, ainda, ao refúgio no sonho libertador:

«(…) Se a vida |não| nos deus mais do que uma cela de reclusão, façamos por ornamentá-la ainda que mais não seja, com as sombras de nossos sonhos, desenhos e cores (…) Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mister era criar. Como nunca soube fazer um esforço ou activar uma intenção, criar coincidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com sonhar os gestos que desejaria poder fazer

(Livro do Desassossego por Bernardo Soares, 2ª parte, 3ª edição, Livros de bolso Europa-América, excerto)

Assim, a felicidade, se existe, acontece sempre aos outros e nunca ao Eu:

«Na casa defronte de mim e dos sonhos,/ Que felicidade há sempre!// Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi./ Sâo felizes, porque não são eu.// (…)»

(Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, 1934. Poesias de Álvaro de Campos, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

À exceção de Alberto Caeiro, o mestre de Pessoa ortónimo e dos heterónimos, que alcançou a proeza de encontrar  paz de espírito junto da natureza, ainda que à custa da própria desumanização:

«Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo

Passa um momento uma figura de homem.

Os seus passos vão com «ele» na mesma realidade,

Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas coisas.

O «homem» vai andadndo com as suas ideias, falso e estrangeiro,

E os passos vão com o sistema antigo que faz as pernas andar.

Olho-o de longe sem opinião nenhuma.

Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo,

A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,

Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.»

 

(Poemas Inconjuntos, Poesias de Alberto Caeiro, Colecção Poesia, Edições Ática)

 

FATALISMO

Descrente no poder da ação para chegar à Verdade, falho de vontade própria, o poeta encontra no fatalismo uma razão para não agir: o destino de cada um é uma prisão sem chave e a vida decidida pelas Moiras ou Fatum. Para quê tentar fugir ao superiormente decidido? Aceitemos.

«(…)/ A mim…Sei eu que duro e inato fado/ Me espera a mim?»

(Tudo quanto sonhei tenho perdido, 1920, Poesias de Fernando Pessoa, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

«(…)/ Pobre criança de maduros anos,/ Que pensas que há revolta que redime!/ Enquanto pese, e sempre pesará,/ Sobre o homem a serva condição/ De súbdito do Fado

(Os deuses, não os reis, são os tiranos, 1922, op cit excerto)

«Toda a obra é vã, e vã a obra toda./ O vento vão, que as folhas vãs enroda,/ Figura o nosso esforço e o nosso estado./ O dado e o feito, ambos os dá o Fado.// (…)»

(Toda a obra é vã, e vã a obra toda. 1925, op cit excerto)

«(…)/ Pouco somos, pouco nos basta./ O mundo tira o que nos dá./ Que nos contente o pouco que há.// (…)»

(Lenta e quieta a sombra vasta, 1930, op cit excerto)

«Anjos ou deuses, sempre nós tivemos/ A visão perturbada de que acima/ De nós e compelindo-nos/ Agem outras presenças./ (…)»

(Anjos ou deuses, sempre nós tivemos, Odes de Ricardo Reis, Colecção Poesia, Edições Ática, excerto)

«Haver injustiça é como haver morte./ Eu nunca daria um passo para alterar/ Aquilo a que chamam a injustiça do mundo./ Mil passos que desse para isso/ Eram só mil passos./ Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,/ E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho

(Poemas Inconjuntos, Poesias de Alberto Caeiro, Colecção Poesia, Edições Ática)

 

MISANTROPIA

A misantropia do poeta poderá enraizar-se, entre outras causas, na consciência da própria singularidade e genialidade artística, no facto de ter crescido rodeado de cultura e civilização britânicas, na consciência de classe e na superioridade intelectual face ao meio social e cultural tacanho que encontra em Lisboa, após o seu regresso definitivo de Durban e, acima de tudo, no desejo de viver para a realização da sua obra literária, como afirma na carta que escreveu a Ofélia Queiroz, em 1929:

«(…) Cheguei á edade em que se tem o pleno dominio das proprias qualidades, e a intelligencia attingiu a força e a destreza que pode ter. É pois a occasião de realizar a minha obra litteraria, completando umas cousas que estão por escrever. Para realizar essa obra, preciso de socego e um certo isolamento. (…)

            Toda a minha vida futura depende de eu poder ou não fazer isto, e em breve. De resto, a minha vida gira em torno da minha obra litteraria – boa ou má, que seja, ou possa ser. Tudo o mais na vida tem para mim um interesse secundario (…)»

 

(Excerto da carta 43 in Cartas de Amor de Fernando Pessoa, Edições Ática, Lisboa)

 

Isto não significa que Fernando Pessoa não tenha convivido e tido bons amigos mas que, talvez porque ele sozinho já era um mundo habitado por vários «eus» e talvez também porque quem busca a sua identidade e verdade interior dificilmente terá energia de sobra para evitar a solidão necessária à produção escrita e à realização da auto-análise minuciosa de si próprio  e que constituiu a matéria principal da sua obra, tenha concluído que «toda a proximidade é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem se procura.» (in Livro do Desassossego por Bernardo Soares, 2ª parte, 3ª edição, Livros de bolso Europa-América, excerto).

Seja como for, acredito que a misantropia de Pessoa (se é que ela existiu de facto) foi uma escolha pessoal, uma decisão tomada por um homem para quem o sofrimento íntimo cortou as «pontes» que poderia ter estabelecido com o mundo que existia para lá do grupo restrito de amigos e intelectuais com quem convivia regularmente na Brasileira ou no Martinho da Arcada.  

– o «raciocinador implacável»:

«Sucede que tenho precisamente aquelas qualidades que são negativas para fins de influir, de qualquer modo que seja, na generalidade de um ambiente social.

            Sou, em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico. Ora o público não é capaz de seguir um raciocínio, e o público não é capaz de prestar atenção a uma análise.

            Sou, em segundo lugar, um analisador que busca, quanto em si cabe, descobrir a verdade. Ora o público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade. Acresce que a verdade – em tudo, e mormente em coisas sociais – é sempre complexa. Ora o público não compreende ideias complexas. É preciso dar-lhe só ideias simples, generalidades vagas, isto é, mentiras, ainda que partindo de verdades; (…)

            Sou, em terceiro lugar, e por isso mesmo que busco a verdade, tão imparcial quanto em mim cabe ser. Ora o público, movido intimamente por sentimentos e não por ideias, é organicamente parcial. (…)

 

«a parvoíce das ideias aceites»

            «As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. (…) Timbraremos, (…), em mostrar a parvoíce das ideias aceites, a vileza dos ideais nobres, a ilusão de tudo quanto o povo crê ou pode crer. Salvaremos assim o princípio aristocrático, que na ordem social se afundou, deixando atrás de si o vácuo de uma universal, monótona escravidão. (…)» (1)


– «a espécie animal chamada homem»

«(…) A existência da humanidade, se por ela se entende qualquer coisa mais que a espécie animal chamada homem, é tão hipotética e racionalmente indemonstrável como a existência de Deus. Se, porém, por humanidade, se entende a espécie animal chamada homem, então existe para os biologistas, para os médicos – para todos quantos estudarem, de um modo ou de outro, o corpo humano; existe como existem os peixes, as aves, e mais nada.» (1)

«Um homem pode percorrer todos os sistemas religiosos do mundo num só dia com perfeita sinceridade e trágicas experiências da alma. Para o poder fazer, tem de ser um aristocrata – no sentido em que empregamos esta palavra. Afirmei certa vez que o homem culto e inteligente tem o dever de ser ateu ao meio-dia, quando a luz e a materialidade do sol tudo penetram, e um católico ultramontano na hora precisa depois do sol-pôr (…)» (1)

 

– A «mentalidade peninsular»

«(…) Ficou, portanto, a mentalidade peninsular representada por um cristismo violento, selvagem, no qual apenas no primeiro momento havia vestígios do cientismo árabe. Dado o primeiro passo para as descobertas, a fé mórbida dos nossos maiores cedo acabou com esses restos de objectivismo e de equilíbrio. Ficámos servos do mais retrógado e do mais abjecto dos cristismos (…) Ficámos na decadência que esse stado moral representa, no eterno ponto morto do cristismo peninsular. Assim, por séculos fora, ficámos, espanhóis e portugueses, a abjecção viva da Europa, o mole refúgio da podridão cristista. (…)» (1)

 

– «O caso mental português» (1932)

«Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria «provincianismo».

(…) Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, oragnicamente distintas, que constituem a sua vida mental – a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso, por engano, burguesia, a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite.

            O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de refletir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou o que lhe dizem. (…)

            O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. (…)

            O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. (…) Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação. (…)

O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção nos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência. (…)

Os nossos escritores e artistas são incapazes de meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordenação, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos pela emoção, (…) Nenhuma capacidade de atenção e concentação, nenhuma potência de esforço meditado (…)

            Produzem como Deus é servido, e Deus fica mal servido. Não sei de poeta português de hoje que, construtivamente, seja de confiança para além do soneto. (…)»

             

(excerto retirado de Obra em prosa de Fernando Pessoa, Textos de Intervenção Social e Cultural, A Ficção dos Heterónimos. Publicações Europa-América)

 

– «um homem de génio»

«(…) Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se ele só, em uma literatura? Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito? (…)» (1)

– As «plebes»

«Para que serve a liberdade às plebes? Para que lhes serve, supondo, de resto, que elas a possam obter e usar dela?

            (…) Para que serve qualquer das fórmulas de liberadade à plebe? Para que lhe serve a liberdade de pensamento? De que serve a liberdade de pensamento a quem, por sua condição social, não pode pensar? (…)» (idem)

 

– « O espaço é alguém para mim./ Sonhando sou eu só.» (2)

«Uns de nós stagnaram na conquista alvar do quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, (…) Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da cousa pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. (…) Mas outros, Raça do Fim, limite spiritual da Hora Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir. (…)»

(Livro do Desassossego por Bernardo Soares, 2ª parte, 3ª edição, Livros de bolso Europa-América, excerto).

(2) (Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa,1920. Obras de Fernando Pessoa,Poesias Coligidas – I, Clássica Editora)

 

Conclusão

«Ah! Os caminhos stão todos em mim.

Qualquer distância ou direcção, ou fim

Pertence-me, sou eu. O resto é a parte

De mim que chamo o mundo exterior.

Mas o caminho de Deus eis se biparte

Em o que eu sou e o alheio a mim»

 

(Qualquer caminho leva a toda a parte, 1921. Obras de Fernando Pessoa,Poesias Coligidas – I, Clássica Editora)

 

A linguagem da indefinição na poesia de Fernando Pessoa

Março 20, 2012

«MAS O QUE É O PRÓPRIO HOMEM senão um insecto cego e inane zumbindo contra uma janela fechada? Instintivamente pressente, para além da vidraça, uma grande luz e calor. Porém é cego e não pode vê-la; nem pode ver que algo se interpõe entre ele e a luz. Por isso esforça-se atabalhoadamente por se aproximar dela. Pode afastar-se da luz, mas não consegue chegar mais perto desta do que a vidraça o permite. Como irá a Ciência ajudá-lo?Pode descobrir a irregularidade e as protuberâncias próprias do vidro, constatar que aqui é mais espesso, ali mais fino, aqui mais grosseiro e acolá mais delicado: com tudo isto, amável filósofo, até que ponto se aproxima da luz? Até que ponto está mais perto de ver? E todavia acredito que o homem de génio, o poeta, consegue de algum modo atravessar a vidraça e sair para a luminosidade exterior; sente calor e satisfação por ter ido tão mais longe do que todos os homens, mas mesmo ele não continua cego? (….)»  (Alexander Search, 1907) (1)

 

Há no firmamento

Um frio lunar.

Um vento nevoento

Vem de ver o mar.

 

Quase maresia

A hora interroga,

E uma angústia fria

Indistinta voga.

 

Não sei o que faça,

Não sei o que penso,

O frio não passa

E o tédio é imenso.

 

Não tenho sentido,

Alma ou intenção…

‘Stou no meu olvido…

Dorme, coração….

 

(F. Pessoa, 1917) (2)

 

«Enfureço-me. Queria compreender tudo, saber tudo, realizar tudo, dizer tudo, gozar tudo, sofrer tudo, sim, sofrer tudo. Mas nada disso faço, nada, nada. Fico acabrunhado pela ideia daquilo que queria ter, poder, sentir. A minha vida é um sonho imenso. Penso, às vezes, que gostaria de cometer todos os crimes, todos os vícios, todas as acções belas, nobres, grandiosas, beber o belo, o verdadeiro, o bem de um só trago e adormecer em seguida para sempre no seio tranquilo do Nada.

Deixem-me chorar.»  (Alexander Search, outubro de 1908) (1)

 

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei

Que coisas eu sonhei.

Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto

Para um espaço aberto

Que não conheço, pois que despertei

Para o que inda não sei.

Melhor é nem sonhar nem não sonhar

E nunca despertar.  

 

 (F. Pessoa, 19/9/1933)

 

«O que era o mundo para mim? Nada, zero; contudo um zero cheio de mistério. Um nada, mas um nada sem nome. Aparecendo-me o mundo desta maneira, todo eu era desejo de o fazer parecer incerto, de fazer a ciência humana parecer impossível.» (Alexander Search, 1908) (1)

 

Ao longe, ao luar,

No rio uma vela

Serena a passar,

Que é que me revela?

 

Não sei, mas meu ser

Tornou-se-me estranho,

E eu sonho sem ver

Os sonhos que tenho.

 

Que angústia me enlaça?

Que amor não se explica?

É a vela que passa

Na noite que fica.

 

(Revista Athena, nº 3)

 

«(…) Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro (…)»

 

 

In Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, (1910), Notas Biográficas e de Autognose, edições Ática, Lisboa (excerto)

 

 

 

Grandes mistérios habitam

O limiar do meu ser,

O limiar onde hesitam

Grandes pássaros que fitam

Meu transpor tardo de os ver.

 

São aves cheias de abismo,

Como nos sonhos as há.

Hesito se sonho e cismo,

E à minha alma é cataclismo

O limiar onde está.

 

Então desperto do sonho

E sou alegre da luz,

Inda que em dia tristonho;

Porque o limiar é medonho

E todo o passo uma cruz.

 

(F. Pessoa, 1933) (2)

 

 

 

«Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limitação Absoluta, Expulsão-Ser do Universo longínquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero vácuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do próprio mistério, da própria Vida. Habitarei eternamente o deserto morto de mim, erro abstracto da criação que me deixou atrás. Arderá me mim eternamente, inutilmente, a ânsia (estéril) do regresso a ser.

            Não poderei sentir porque não terei matéria com que sinta, não poderei respirar |?| alegria, ou ódio, ou horror, porque não tenho nem a faculdade com que o sinta, consciência abstracta no inferno do não conter nada, não-Conteúdo Absoluto, |Sufocação| absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo (…)»

 

In Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, (ms.1915?), Notas Biográficas e de Autognose, edições Ática, Lisboa

 

 

Dorme, que a vida é nada!

Dorme, que tudo é vão!

Se alguém achou a estrada

Achou-a em confusão

Com a alma enganda.

 

Não há lugar nem dia

Para quem quer achar,

Nem paz nem alegria

Para quem, por amar,

Em quem ama confia.

 

Melhor entre onde os ramos

Tecem dosséis sem ser

Ficar como ficamos,

Sem pensar nem querer,

Dando o que nunca damos.

 

(F. Pessoa, 1933) (2)

 

 

 

«Nuvens… Interrogo-me e desconheço-me. Nada tenho feito de útil nem farei de justificável. Tenho gasto parte a da vida que não perdi em interpretar confusamente coisa nenhuma, fazendo versos em prosa às sensações intransmissíveis com que torno meu o universo incógnito. Estou farto de mim, objectiva e subjectivamente. Estou farto de tudo, e do tudo de tudo. Nuvens… São tudo, desmanchamentos do alto, coisas hoje só elas reais entre a terra nula e o céu que não existe; farrapos indescritíveis do tédio que lhes imponho; névoa condensada em ameaças de cor ausente; algodões de rama sujos de um hospital sem paredes. Nuvens… São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e a terra, ao sabor de um impulso invisível, trovejando ou não trovejando, alegrando brancas ou escureando negras, ficções do intervalo e do descaminho, longe do ruído da terra e sem ter o silêncio do céu. Nuvens… Continuam sempre passando, passarão sempre continuando, num enrolamento descontínuo de meadas baças, num alongamento difuso de falso céu desfeito

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 1ª parte, texto publicado na revista Descobrimento, nº3, 1931, excerto)

Um muro de nuvens densas

Põe na base do ocidente

Negras roxuras pretensas.

 

Com a noite tudo acaba.

O céu frio é transparente.

Nada de chuva desaba.

 

E não sei se tenho pena

Ou alegria da ausente

Chuva e da noite serena.

 

De resto, nunca sei nada.

Minha alma é a sombra presente

De uma presença passada.

 

Meus sentimentos são rastros.

Só meu pensamento sente…

A noite esfria-se de astros.

 

(F. Pessoa, 1929) (2)

 

«Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as cousas como verdadeiramente são – como são para os outros.

            Sinto isto

 

In Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, (1915), Notas Biográficas e de Autognose, edições Ática, Lisboa

 

De onde é quase o horizonte

Sobe uma névoa ligeira

E afaga o pequeno monte

Que pára na dianteira.

 

E com braços farrapo

Quase invisíveis e frios

Faz cair seu ser de trapo

Sobre os contornos macios.

 

Um pouco de alto medito

A névoa só com a ver.

A vida? Não acredito.

A crença? Não sei viver.

 

(F. Pessoa, 1931) (2)

 

 

(1)   Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal

Edição e posfácio Richard Zenith/ colaboração Manuela Parreira da Silva/ Assírio e Alvim, outubro de 2003 (excerto)

(2)   Poesias de Fernando Pessoa, colecção Poesia, edições Ática

 

Álvaro de Campos ao volante de um Chevrolet

Março 14, 2012

O poema Ao Volante do Chevrolet pela Estrada de Sintra, escrito em 1928, foi atribuido por Fernando Pessoa ao seu heterónimo e alter-ego, o engenheiro  naval Álvaro de Campos, cujo entusiasmo pela maquinaria moderna e a excitação nervosa por ela proporcionada está patente no célebre poema  Ode Triunfal, publicado na revista Orfeu em 1914.

 

O carro a que alude o título deste poema destinava-se a  competições desportivas e herdou o nome do seu criador, o suiço Chevrolet, que se notabilizou ao volante nos anos 20.

 No poema, o Chevrolet é inicialmente conduzido «quase devagar», numa estrada deserta entre Lisboa e Sintra e numa noite luarenta que propicia o sonhar acordado («Ao luar e ao sonho»); a lua, como recetora da luz solar que é, surge habitualmente associada à passividade e dependência humanas, em antagonismo com a capacidade criativa do sol que, graças ao facto de emitir luz própria, proporciona uma apreensão clara e objetiva da realidade, tendo sido, por isso, associado à inteligência racional; opostamente, a lua é símbolo daquilo que não se percebe com nitidez e parece confuso e ilógico, como é a misteriosa psique humana; por isso, a lua está  associada à introspeção, intuição, imaginação, mistério, devaneio e sonho.

O luar acompanha a viagem do sujeito poético desde o início até ao fim e indicia, desde o segundo verso, a propensão para a divagação e sonhar acordado do inquieto condutor do Chevrolet, a inconstância que o levará a não se sentir bem em sítio nenhum («Mas quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa»), o desejo de mergulhar no seu mundo subconsciente, na sua própria noite interior, possivelmente para encontrar uma solução ou saída para o cansaço de viver alicerçado na incapacidade de descobrir o sentido da sua própria existência. Neste poema, tal como acontece em Ode Triunfal, a máquina, por muito moderna que seja, por muito libertadora que pareça ser e por muito que entusiasme o sujeito poético ávido de progresso e modernidade, não passa de objeto criador de um bem-estar efémero que deixa de fora as necessidades do coração, da alma, enfim, disso que sabemos que existe dentro de nós e que nos torna insatisfeitos connosco e com a vida, tenhamos ou não um  “Chrevolet” à porta das nossas casas.

 No início desta viagem, não é o automóvel moderno, nem o prazer da sua condução que são alvo da atenção do condutor, mas as circunstâncias que envolvem o ato de conduzir: a escuridão da noite iluminada pelo luar, a solidão que sente no interior do carro («Sozinho guio») e que observa no exterior («na estrada deserta»); a condução em ritmo lento («guio quase devagar»), o estado de nervosismo e ansiedade que o afetam («sempre esta inquietação, (…)/ Esta angústia excessiva do espírito»), o desejo de fugir a esta inquietude para encontrar um equilíbrio qualquer num lugar qualquer («Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,/ Mas quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa»). A repetição do advérbio «sempre» acentua a constância do mal-estar e fornece uma explicação para a urgência da libertação; assim, a escolha do Chevrolet não foi arbitrária; o problema é que a solução para a incapacidade de viver terá que vir de dentro do sujeito que a sente, e não de fora.

 

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

ao luar e ao sonho, na estrada deserta,

sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco

me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,

que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,

que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,

que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,

mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.

Sempre esta inquietação, sem propósito, sem nexo, sem consequência,

sempre, sempre, sempre,

esta angústia do espírito por coisa nenhuma,

na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,

galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.

Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.

Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!

Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!

Quanto me emprestararm, ai de mim!, eu próprio sou!

 

À esquerda o casebre – sim, o casebre – à beira da estrada.

À direita o campo aberto, com a lua ao longe.

O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,

é agora uma coisa onde estou fechado,

que só posso conduzir se nele estiver fechado,

que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

 

 

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.

A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.

Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.

Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima

Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.

Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha

no pavimento térreo,

sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,

e ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.

Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

 

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

 

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,

guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,

perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,

e, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,

acelero…

Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

à porta do casebre,

o meu coração vazio,

o meu coração insatisfeito,

o meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

 

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,

na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,

na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,

na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim….

 

Poesias de Álvaro de Campos, Colecção Poesia, Edições Ática

 

O condutor do Chevrolet sente necessidade de se libertar da «angústia excessiva do espírito» e da inquietação; ambas o minam interiormente, sobretudo porque não tem uma explicação lógica, compreensível para elas, já que as sente «por coisa nenhuma», «sem propósito, sem nexo, sem consequência» e é essa falha da inteligência racional em conseguir explicar aquilo que no seu íntimo é gerador da destruição da sua individualidade e que o transforma num passageiro sem rumo no mundo, que vai desencadear a «saída» de Lisboa em direção a Sintra, uma viagem imaginária que terá lugar dentro de si mesmo.

 O desconforto permanente ao ponto de se tornar obsessivo («Sempre, sempre, sempre»), cria nele a ansiedade de manter o carro em movimento ou de «seguir» sem parar («Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,/ Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?») como se parar significasse morrer, encarar um mundo que talvez seja ainda mais misterioso, obscuro e aterrador que o seu, aquele de que quer fugir e, ao imaginar-se condutor de um automóvel, cria condições para se observar e analisar com um certo distanciamento.

O Chevrolet, que no início se deslocava em marcha lenta, agora «Galga» a estrada: «Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram»; o automóvel circula velozmente na estrada , mas o sujeito poético pára mentalmente a refletir sobre «as coisas que lhe emprestaram», «coisas» essas que não sendo suas, foram adotadas por ele e feitas suas pela razão de que não sabe o que é ser ele próprio; esses “empréstimos” dos quais se queixa («Quanto do que me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!») contribuem para lhe dar uma identidade, ainda que falsa porque ele não é os outros; por outro lado, essas máscaras que lhe «emprestaram» e que ele usa como se lhe pertencessem, obscurecem a sua verdadeira identidade e dificultam-lhe o acesso à perceção da sua singularidade entre as massas humanas que, pela razão de que se mascaram diariamente, vivem naturalmente dependentes do jogo das aparências; o condutor do Chevrolet «emprestado» denuncia-as porque, vivendo constantemente debruçado sobre si próprio, sabe que também ele é uma sobreposição de máscaras e que a sua verdadeira identidade é apenas essa, o que aliás confessa: «Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!»

 A diferença relativamente aos outros é a  de que tem uma consciência aguda e dolorosa de que está vedado ao Homem aceder ao seu “verdadeiro” Eu, pelo menos pela via consciente.

O automóvel é visto como símbolo, mas o condutor ironiza sobre a “promoção” de um Chevrolet a símbolo: «Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita». A ironia deve-se ao facto de o automóvel ser símbolo do progresso tecnológico proporcionador de uma libertação que, na realidade, é aparente, fugidia e até “grosseira” na medida em que essa libertação se faz através de um objeto mecânico; o condutor do automóvel último-modelo constata que este não o liberta da opressão que sente, pelo contrário, transforma-se numa prisão em movimento que obedece  ao condutor- prisioneiro em que se tornou o sujeito poético:

«O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,/ É agora uma coisa onde estou fechado».

Alcançar a verdadeira liberdade seria conseguir as respostas para a sua inquietação e o carro, como «coisa» que é, não as pode dar, limita-se a levar “mecanicamente” o desassossegado passageiro deixando intacto o seu desassossego.

O condutor do Chevrolet decide «virar à direita» e deixar para trás «o casebre – sim, o casebre – à beira da estrada.»; a viragem «à direita» opõe-se ao que fica à esquerda, a direção escolhida pelo condutor. Imaginando uma cruz, a direita e a esquerda poderiam representar os braços ou o eixo horizontal dessa cruz, símbolo da dimensão terrena do ser humano e das encruzilhadas com que se depara na vida, o qual intersecta o eixo vertical, símbolo da dimensão espiritual humana. Noutra perspetiva, a realidade situada à esquerda simboliza a vida passada que o sujeito poético decidiu «deixar para trás», optando por virar à direita, isto é, por encarar o futuro: «Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita

Mas, à direita, encontra «o campo aberto, com a lua ao longe», isto é, um vazio porque o futuro aguarda concretização; «o campo aberto» sugere que há inúmeras possibilidades que poderão ser realizadas, mas também pode sugerir que o condutor do automóvel não enxerga nada nesse futuro à exceção da «lua ao longe», único sinal de “vida” no «campo aberto»; no futuro terá, como no presente, a companhia do sonho e da imaginação, ambos estéreis quanto à capacidade de engendrarem uma nova vida, uma mudança, uma saída para o drama da eterna busca do Eu pelo Eu. De qualquer modo, o futuro resulta do passado e se no passado há também um vazio, o futuro perspetiva-se sombrio.

O casebre, situado à esquerda, simboliza o seu mundo interior, a incapacidade de sentir devido ao excesso de racionalidade, a ausência de uma família e de laços afetivos, a fragilidade psicológica do próprio sujeito poético, a falta de unidade que reina no seu íntimo, o desgaste psicológico sofrido ao longo do tempo decorrente de uma existência ao acaso e à mercê de todas as intempéries da vida e por isso a felicidade é uma espécie de atributo dos outros e nunca dele próprio:

«A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha»

A única felicidade a que tem acesso é por via “indireta”, imaginando o olhar sonhador e cobiçoso dos habitantes do «casebre» ao vê-lo conduzir o Chevrolet: «Aquele é que é feliz.» Mas ninguém é feliz, nem o condutor que imagina a felicidade como algo que acontece aos outros, nem os habitantes do casebre que desconhecem que o automóvel é emprestado e que confundem a felicidade com a posse de bens materiais.

Os habitantes do «casebre», a rapariga casadoira e a criança, dão pela presença do condutor do automóvel através do barulho do motor e limitam-se a seguir com olhar o sujeito poético. A visão é o mais “frio” dos nossos sentidos visto que não precisa de proximidade física e o facto sugere a superficialidade das relações humanas e o interesse individual como motivação das mesmas; para a rapariga, o condutor poderá ser o «príncipe de todo o coração de rapariga», mas apenas porque conduz um Chevrolet.

Lúcido, o condutor interroga-se: «Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?». A resposta está à vista e por isso conduz agora o automóvel «desconsoladamente» na direção do «campo aberto», um deserto no qual se sente solitário, perdido e pessimista quanto ao futuro.

«E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,/ acelero…/ Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,/ À porta do casebre, (…)». O sujeito poético não pode entrar no «casebre» porque o inconsciente é inatingível, mas o que dele chega até à sua consciência é a «porta», a via de acesso a esse mundo labiríntico que o perturba e que é o mundo das emoções que a sua propensão para tudo racionalizar não deixa sentir; por isso, por mais que «acelere», o seu coração ou sede dos sentimentos, ficou encalhado no «monte de pedras» de se afastou «ao vê-lo sem vê-lo», porque o pensar se sobrepõe ao sentir. Devido a esta excessiva racionalidade, não entrevê uma solução para o drama de viver e o poema termina num tom de desalento mais vincado que nas estrofes anteriores. A repetição anafórica da última estrofe sugere que a vida do condutor do Chevrolet se desenrola num movimento circular, é uma sucessão ininterrupta de momentos de cansaço, de angústia, de experiência de vazio interior, de solidão, sensações e sentimentos dos quais se tenta evadir, sempre sem sucesso.

«Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,/ Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim

 

«Adeus»

Março 6, 2012

No poema «Adeus», de Eugénio de Andrade, a relação amorosa é apresentada retrospetivamente por um dos apaixonados que, revendo-a numa perspetiva crítica, se despede do Tu com argumentos que salientam o excesso de palavras (e de gestos) trocadas entre ambos no passado recente que antecede o momento do «adeus».

Ao afirmar «Já gastámos as palavras pela rua, meu amor», o emprego anafórico do verbo «gastar» ao longo do poema revela a perceção da inutilidade do que foi dito e de todos os esforços despendidos por ambos para salvar o que o Eu vê como irremediável e, ainda, o cansaço, a frustração, o desejo de calar e de afastar definitivamente o Tu com um argumento de peso:

«o que nos ficou não chega/ para afastar o frio de quatro paredes»

 

 e, sobretudo, o desejo de partir e de esquecer tudo o que se passou entre ambos porque, na perspetiva do Eu, «O passado é inútil como um trapo». O vocativo «meu amor» atenua a dureza da apreciação dos últimos acontecimentos pelo Eu que, racional, se esforça por mostrar ao Tu (presente, embora inaudível) que a recuperação do «tempo dos segredos» é impossível e por isso «Quando agora digo: meu amor,/ já não se passa absolutamente nada».

Recordar o passado é inútil porque a magia passou e o Eu vive no «agora» e quer livrar-se quer do tempo do «antigamente», quer do passado recente marcado pelo desgaste das palavras, dos gestos e da paciência.

 

 

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Ás vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

 

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

 

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

 

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

 

Adeus.

 

Sempre que releio este poema imagino um Tu choroso enquanto o Eu lhe passa a mão pelos cabelos, encenando, na sua mente, a saída mais airosa que as circunstâncias permitirem. Involuntariamente, o Tu traíu o Eu quando deixou de lhe proporcionar uma visão de si próprio como ser de exceção, diferente dos restantes mortais pelo facto de ter «peixes verdes» em vez de «olhos» e, involuntariamente, o Eu traíu o Tu no dia em que olhando para ele, deixou de ver o «aquário» no qual os seus «peixes verdes» podiam mergulhar e esquecer a realidade banal em que vive a restante humanidade, privada deste paraíso que o Eu e o Tu construíram com palavras. Desolado, o Eu olha agora para si próprio e vê-se humano e essa visão perturba-o:

  «Hoje são apenas os meus olhos./ É pouco mas é verdade,/ uns olhos como todos os outros.»

Ao ser obrigado a admitir que os seus olhos «são apenas» os seus olhos, o Eu tem de abandonar o Tu, o antigo companheiro do paraíso do qual a efemeridade de tudo o que existe o expulsou, e partir e recomeçar outro paraíso algures com outro alguém, antes que a morte o apanhe e seja demasiado tarde. A vulgaridade torna-se insuportável depois de se ter vivido arredado dela e de se ter esquecido que ela está sempre lá, para amparar os que caem dos sonhos quando chega a sua hora de cair (e acontece a todos).

No presente, qualquer palavra, qualquer gesto está a mais porque as palavras só interessam ao Eu enquanto transfiguradoras da realidade comum, banal e enfadonha do quotidiano; não sei se o Eu algum dia amou o Tu, mas tenho a certeza de que amou esse universo mágico construído a dois, graças, sobretudo, às palavras que então trocaram:

«Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes./ E eu acreditava./ Acreditava,/ porque ao teu lado/ todas as coisas eram possíveis»;

«eram possíveis» significa que já não são porque estes viciados em palavras amorosas esqueceram que elas têm um prazo de validade e ainda que, depois de pronunciadas, mantêm quem as diz refém do estranho, pequeno e fantástico mundo que elas construíram e este mundo, insatisfeito, exige, para se manter, palavras novas que deem um som e uma forma a  desejos novos.

É um mundo exigente e os homens, encantados a brincar a deus, vão ficando por lá, esquecidos do tempo, esquecidos também de que não se podem repetir e plenamente convencidos de que entre o que sentem e o que dizem não há nada a separar. Mas há, porque as palavras mascaram os sentimentos, não porque tenham essa intenção à partida, mas porque é esse o papel que sabem desempenhar melhor. E os amantes ficam prisioneiros do que dizem e redizem um ao outro e, a certa altura, a magia das palavras esboroa-se e o paraíso que elas criaram abre brechas por onde entra o ar frio dos primeiros momentos de solidão, de tédio, de desinteresse e, subitamente, tudo está dolorosamente «gasto»:

«Não temos nada para dar./ Dentro de ti/ não há nada que me peça água.»

Talvez o amor que se extravasa em demasiadas  palavras e gestos perca intensidade, perca o halo misterioso que o torna estimulante, talvez se torne domesticado, caseiro, compreensível e fácil e, com o tempo, essa excessiva leveza fá-lo desaparecer: «Adeus».

 

No rol dos desgastes, apenas o silêncio ficou intacto: «Gastámos tudo menos o silêncio» e o silêncio, pela razão de que não foi «gasto», acabou por se impor, não para salvar, mas para separar e destruir, substituindo o «tudo» que os amantes tinham antigamente pelo «nada» com que ficaram no presente:

«Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada/ (…)//(…) Quando agora digo: meu amor,/ já não se passa absolutamente nada».

O excesso, seja de comunicação, seja outro, nasce da urgência em esquecer a inquietação que o pressentimento da morte faz sentir e por isso os amantes gastaram até à exaustão os recursos que tinham para recuperar a felicidade perdida («Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro»).

Ao reinventarem o mundo dia após dia, desgastaram a capacidade limitada das palavras para  exprimirem o que está em transformação permanente: o ser humano e tudo o que existe, dentro e fora dele; por isso, o silêncio, ainda que no presente não «chegue para afastar o frio de quatro paredes», poderia ter tido um papel amenizador da ânsia dos amantes de dizerem e redizerem o que talvez nem precise de ser dito e talvez pudesse ter criado um vazio criativo na relação a dois visto que favorece o encontro de cada um consigo mesmo e gera a oportunidade de uma reavaliação lúcida do que cada um sente, assim como da relação amorosa propriamente dita.

O facto é que estes apaixonados foram vítimas do excesso de comunicação verbal e não verbal e ficaram sem possibilidade de as substituir por outras capazes de renovar a antiga magia e de os fazer viver um novo «tempo dos segredos».

É pena que eles não tenham dado ouvidos a estas palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade:

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.

Não se inebrie com o seu engalanado som.

Não a empregue sem razão acima de toda a razão (e é raro).

Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão

de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra

que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.

Não a pronuncie.

 

 

Carlos Drummond de Andrade, 1989, Obra Poética.

 

Poema dum Funcionário Cansado

Fevereiro 26, 2012

O Poema dum Funcionário Cansado denuncia a desumanização de que são vítimas os trabalhadores do estado, manifestada na alienação que o trabalho rotineiro impõe a quem dele precisa para (sobre)viver que se manisfesta na perda da individualidade decorrente do esmagamento da interioridade do funcionário público, tratado como uma máquina ou peça dela. A perda da identidade é denunciada nos versos que exprimem o estado de confusão mental de um funcionário que, após largar o trabalho no final do dia, projeta na realidade física circundante o caos interior que transporta dentro de si e que é a realidade desconfortável que lhe resta, depois de destruída a sua humanidade numa atividade profissional que assenta na desvalorização do pensar, do sentir, do sonho e da liberdade individual.

Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

 

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

 

Soletro velhas palavras generosas

flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida

num quarto só

 

António Ramos Rosa, in O Grito Claro, 1958

 

Diariamente reduzido a “coisa”, o «funcionário cansado» não vê a cidade como espaço no qual poderia dar largas a um compreensível desejo de deambulação libertadora, mas como espaço opressivo no qual a escuridão da noite, as ruas e as casas se tornam ameaçadoras ao agigantarem-se contra ele («as casas engolem-nos»); as ruas limitam-lhe os movimentos («e a rua é estreita/ em cada passo») como se cada uma fosse uma calha à qual está preso como se de um boneco mecânico se tratasse e lhe dirigisse os passos até ao quarto onde vive, solitário.

A cidade, percecionada como extensão do poder instituído, impede a libertação da servidão em que o funcionário se encontra, situação partilhada pela generalidade dos executantes de tarefas burocráticas através das quais o Estado afirma o seu poder, ao mesmo tempo que os desresponsabiliza, na medida em que as normas são superiormente decididas; ao funcionário cabe cumprir as ordens que lhe dão e é a sua obediência que lhe garante uma vida “útil” à sociedade, o seu sustento e o da  família.

No final do dia, espera-o um quarto, uma outra «gaiola» idêntica à do pássaro que observa através da janela do escritório. Ao espaço reduzido em que trabalha, sucede o espaço exíguo em que dorme sozinho. A tacanhez do espaço em que faz a contabilidade continua cá fora e quanto mais pequeno os espaços forem, mais fácil será exercer um controlo sobre os indivíduos, tanto na vida pessoal como na vida profissional e social. Culpado do crime de desejar uma vida na qual lhe seja permitido sonhar, criar, manifestar a sua singularidade de ser humano, o funcionário é condenado à solidão do quarto para não ser contaminado com pensamentos alheios ao desejo de ser útil à nação por parte do «chefe», cujas promoções se fazem à custa do cumprimento escrupuloso do “dever” e da denúncia de quem pensa de modo diferente.

«estou num quarto só num quarto só/ com os sonhos trocados/ com toda a vida às avessas a arder num quarto só»

Habituado a ser dirigido pelo «chefe», o «funcionário cansado» sente-se perdido fora do local de trabalho; o mundo parece-lhe confuso, as relações sociais são inexistentes ou ocasionais, a escuridão mete-lhe medo porque é nela que se encontra consigo próprio e o que vê dentro de si deixou há muito de fazer sentido, é uma noite mais negra que a noite citadina.

«A noite trocou-me os sonhos e as mãos/ dispersou-me os amigos/ tenho o coração confundido e a rua é estreita/ (…) com toda a vida às avessas a arder num quarto só».

O cansaço do «funcionário cansado», «apagado» e «triste» nasce do conflito entre o seu reconhecimento lúcido de uma vida dedicada à colaboração com uma organização social que o desorganiza a ele porque lhe suga a vitalidade, e a necessidade de o fazer, apesar da peça de uma vasta engrenagem que sabe é e das manifestações de desprezo que sente; o seu lado visível aceita as ordens provenientes do superior hierárquico e o seu lado invisível assiste, impotente, ao esmagamento quotidiano da sua individualidade.

Apesar de tudo, é no local de trabalho, onde vigora o policiamento do «chefe», que o funcionário ousa deitar «o olho lírico» para a «gaiola do quintal em frente», atitude que o faz sentir «envergonhado» por se evadir, momentaneamente, do «Débito e Crédito Débito e Crédito»; pergunto-me se o funcionário inveja a vida do pássaro porque este lhe parece ter tido mais sorte porque nasceu pássaro inconsciente da sua prisão ou se o olhar que lhe dirige é de cumplicidade terna com o animal encarcerado, tal como ele.

O certo é que da janela do escritório, o funcionário observa um espaço exterior domesticado e murado do qual está ausente o céu; o desejo por parte dos agentes do poder de dominar os que se encontram na base da pirâmide é extensivo à natureza; ambos, homens e natureza não humana existem apenas para serem úteis: o funcionário faz a contabilidade, o quintal produz o que lá decidiram plantar e o pássaro decora o quintal e distrai o dono com o seu canto.

Domesticado como um animal numa jaula, o funcionário «cansado» de pactuar com uma sociedade em que não se revê, sente-se «envergonhado» após ter sido «apanhado» a olhar o pássaro preso. O «chefe», estupidificado por anos de chefia, não percebeu que um ser humano digno desse nome lamenta a triste vida dos pássaros engaiolados, eles que nasceram para voar no infinito do céu. Provavelmente convencido de que o funcionário desejava trocar a vida “estimulante” de o deve e o haver por outra diferente, decidiu diminuir-lhe o salário, pois muitos outros estariam dispostos a fazer a contabilidade dias inteiros sem tirar os olhos da folha de cálculo Excel…

A divisão interior que o conflito entre a vontade da «alma» e a necessidade de ser um funcionário exemplar não se manifesta em revolta contra o agente controlador da sua vida, apenas se anuncia nas perguntas retóricas que o funcionário se coloca e para as quais sabe a resposta:

«Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?/ Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?»

Cansado não de viver, mas da vida desagregadora da sua realidade interior, da ausência de luz ao fundo do túnel em que a sua vida se transformou, sabe que caso escolhesse um caminho alternativo à submissão ao «chefe», se condenaria à angústia gerada pelo desemprego, pela despromoção social, pelo sentimento de culpa e pela miséria. Na engrenagem social de que ele e a maioria de nós faz parte, não há final feliz para ninguém porque a exploração dos que estão empregados e o desespero dos que procuram emprego é mortal para uns e outros, ainda que por razões diferentes.

Na solidão do quarto, o funcionário «soletra» as «velhas palavras generosas» que outrora o fizeram sentir-se vivo, talvez porque já não as saiba pronunciar tão bem como antigamente, de tão descabidas que elas agora lhe parecem no isolamento em que vive e em tempos de desprezo pelo que é genuinamente humano.

As «velhas palavras generosas» não se compram, não se vendem, nenhuma proporciona riqueza material a quem as diz ou relembra emocionado; porém, mesmo quando são reduzidas a escombros por aqueles que nunca souberam o seu verdadeiro significado, mantêm o poder de abrir brechas na sociedade desumanizada e robotizada em que o funcionário (e muitos de nós) vive, já que pronunciá-las é uma forma de luta contra aqueles que persistem em extingui-las.